quinta-feira, 22 de outubro de 2015

"Happy Meal - manjar sentimental" Risoleta C. Pinto Pedro




Texto de apresentação do lançamento do livro de Risoleta C. Pinto Pedro "Happy Meal - manjar sentimental", de Luís Santos, na Escola Artística António Arroio, em 20/10/2015:



“Happy Meal” – manjar sentimental
Manual de sobrevivência para adultos às voltas com adolescentes

Agradecimentos

Antes de mais, agradecer o convite que me foi dirigido pela amiga Risoleta para apresentação do seu livro.
Ficámos particularmente satisfeitos pela apresentação do livro acontecer na Escola Artística António Arroio pela qual temos especial carinho, até porque Rui Madeira, o seu Diretor, é um amigo de longa data, com quem o destino se vai encarregando de nos marcar encontros amiúde pelo tempo, em lugares muito inesperados. Como sabemos, foi também aqui que a amiga Risoleta passou largos anos à volta com adolescentes, coisa que como se verá foi, e continua a ser, muito merecida sina de vida.
Agradecer a presença de todos.
Dividiremos a apresentação do livro em duas partes: A primeira onde faremos algumas referências à sua capa, título e estrutura; a segunda, onde abordaremos algumas das suas múltiplas interessantes questões.

1ª Parte – Capa, Título e Estrutura do Livro

- Sobre o título, “Happy Meal – manjar sentimental”, embora tenha demorado a chegar, como nos confessa Risoleta, não podia ser mais adequado. Creio que já todos ouvimos falar nesse procurado “hamburger” de famosíssima indústria alimentar. Ora, para um livro que se dá, desde logo, como um “manual de sobrevivência para adultos à volta com adolescentes”, uma das grandes apreensões que logo transparece é, justamente, o “fast food” (ou “comida de plástico” como é também de uso dizer-se), constituir o tipo de alimentação preferencial de muitos adolescentes, mais as nefastas consequências que daí advêm. Particularmente, quando se pensam os cuidados a ter com a alimentação como de decisiva importância para uma “mente sã, coração terno, corpo puro”, lembrando a divisa rosacruciana, de forma a que uma saudável longevidade nos assista.

É também por aí que vai a singela pintura de capa, de Bruno Ma, viva criatividade e aprumada estética, onde numa mesa posta e pronta se serve tempo e equilibrada geometria, que junta triângulos a uma plena lua e a um rio onde se espelha o céu, a expressa paisagem que assiste à autora e à necessária inspiração literária que determina a obra. Título e pintura revelam-se, assim, como pingos de luz que se inscrevem e resplendem no preto neutro do fundo da capa.

Deixando umas palavras pela Estrutura em que se ergue este, e digo já, magnífico livro, a imagem que nos ocorreu quando da sua leitura foi a de uma bela sinfonia, dividida em vários andamentos, talvez pela ligação que a autora tem mantido com a dança e seus libretos múltiplos. De facto, o livro constitui-se por narrativas várias, a um só tempo independentes e interligadas, dando possibilidade de uma leitura a várias vozes que são, tal e qual, a múltipla heteronímia da própria autora, desenvolvida e cimentada durante diferentes períodos e instâncias da vida, pois que é de uma narrativa de cariz autobiográfico que se trata.

Cada um dos 4 andamentos em que vemos dividido o “libreto da sinfonia”, um justo adjetivo para este nosso livro, trazem toda uma trama onde se vão desenvolvendo as grandes linhas de força da narração. Mas tenhamos em atenção que estes “andamentos sinfónicos” não se sucedem consecutivamente, antes se trocam e misturam entre si, dando origem a perfeitas alterações de ritmo nas voltas do texto.

Assim, num 1º andamento, é-nos oferecido um registo autobiográfico de superior reflexão espiritualista que constitui a narrativa central da obra;
Como 2º andamento, temos uma compilação de peculiares “receitas alimentares” alquímicas, onde a mistura dos corpos com os alimentos não podem ser abandonados, sem mais, às imperiosas necessidades lucrativas de uma obesa indústria alimentar;
No 3º andamento, intitulado “As Lições do Tonecas II”, pressupostamente escritas por pena de adolescente, o seu sobrinho Rubem, descreve-se em discurso direto uma velha escola, caduca, onde se alerta para os tradicionais desencontros e as falhas de comunicação entre professores e alunos, agrilhoada que está a velhos modelos sem força para se libertar;
Por fim, um 4º andamento, de seu nome “A Casa do Vento Vazia”, onde se assinala um mergulho intenso nas memórias de infância da narradora, nas suas purezas e medos, mas onde se reconhece convictamente que o melhor do mundo são mesmo as crianças, como sustentam poetas e deuses, mas ainda assim com tanto mal em redor. E citando a autora, “a menina luz que eu fui sem saber, está sempre ao meu lado nas minhas aventuras dos sonhos, como um duplo…”

2ª Parte – A Trama do Livro

Avancemos para as grandes linhas estruturantes por onde se estende o livro, desde logo, sem que esqueçamos o seu subtítulo, “um manual de sobrevivência para adultos à volta com adolescentes”. Comecemos pelos personagens principais e por alguns dos traços que mais os caracterizam:
Renata (algumas vezes também nomeada por Suria), narradora e personagem central, a braços com o seu recente divórcio, mais as perturbações e inseguranças que se lhe possam associar, mas também a liberdade de quem fica com a própria vida, inteira, entre mãos. Mas eis que subitamente lhe entra em casa um sobrinho, que vem estudar para Lisboa e ocupar-lhe a casa e o tempo, mais os imensos necessários cuidados que a adolescência sempre trás consigo. O sobrinho e uns quantos amigos de quem se vai rodear.

Como se não bastasse, o divórcio trouxe a Renata a necessidade de mudar de casa e acaba por ir morar para um prédio onde vive um Professor, José Bento de seu nome, que tem tanto de simpático como de enigmático vizinho, conhecido na vizinhança por ser “comedor de rosas”…

Detenhamos, então, a nossa atenção nas 2 principais questões com que Renata se vai debater ao longo da estória. Por um lado, as preocupações que a dieta alimentar do sobrinho lhe trás: o vício dos “happy meals”, problema que ganha dimensão particular para quem é vegetariano como é o caso da narradora; e, por outro, quais os valores que se escondem por detrás de um vizinho, professor, que é “comedor de rosas” e, como se não bastasse, está de licença sabática a fazer uma tese de doutoramento sobre… “rosas”, com quem Renata vai, afinal, descobrir que tem muitas coisas em comum.

Pensemos no simbolismo espiritual das rosas, pois que reconhecemos em José Bento um personagem caracterizado por desenvolvida espiritualidade, em busca de explicações para os mistérios da vida. Como a própria Renata diz, “das rosas que nos trazem o amor e que entre reencarnações e ressurreições, nos livram da morte”. Numa tese de doutoramento, em cujos capítulos se enunciam estudos sobre “o grande arquiteto do universo, da rosa que floresce na cruz, ou do milagre das rosas”.

Para nós, antes de mais, entre as repetidas rosas e os mistérios que em si encerram, logo automaticamente nos chegam duas figuras centrais da História de Portugal, esse rei e poeta “plantador das naus a haver”, como Fernando Pessoa se refere a D. Dinis na sua Mensagem, pela importância que haveria de ter no devir da expansão ultramarina portuguesa, e na sua mulher, a santificada Rainha Isabel de Aragão, mais o seu “culto popular do Espírito Santo”, sobre o qual Agostinho da Silva tanto refletiu e enalteceu.
Mas diga-se que o espaço geográfico, cénico, em que se desenrola a misteriosa trama do livro, pois que é um livro essencialmente sobre vida e “misteriosofia”, utilizando o conceito de António Telmo, longe de se centrar exclusivamente em Portugal, faz pensar num amplo espaço/tempo que vem, pelo menos, desde o Antigo Egito (sem esquecer a diáspora judaica) e se estende até Tomar, cidade templária, onde, como é sabido, posteriormente se sediará a “Ordem de Cristo”, que depois partirá nas naus para o Oriente, para a Índia, para o Tibete, “dando novos mundos ao mundo” para relembrar o verso de Luís de Camões. Mas não descurando, que lá temos também o Tao e temos Buda, entre esse espírito português ecuménico, “católico”, quer dizer, universal, para não fugirmos de todo à etimologia da palavra, onde tempo e eternidade se pretendem coetâneos.

A determinada altura da estória, José Bento, o tal da tese de doutoramento, corria o mês de Dezembro, chama a atenção de Renata para um barco que tinha chegado a Lisboa carregado de rosas. Ao que esta logo pergunta: “Rosas em Dezembro?”…
Embora não se refiram grandes pormenores sobre a estrutura do barco, nem dos lugares por onde navega, necessariamente que o vemos construído com pinho de Leiria e com passagem obrigatória pela “Ilha dos Amores”. Mas Renata acaba por não ver estranheza naquele facto e logo a sua superior prosa nos esclarece: “…No estado em que estávamos achávamos tudo natural. Apesar de tudo deslumbrados. Mas era um deslumbramento natural perante a naturalidade das rosas. Porque, nesse momento, era para nós uma evidência que os milagres nos rodeiam e apenas esperam que reparemos neles.”

Evidenciados, e semi-resolvidos, que ficam alguns dos mistérios de José Bento, porque o mistério, como se conclui nesta obra, veio para ficar, iremos agora à responsabilidade que a narradora sente nos cuidados a ter com a alimentação de Rubem e o problema dos “happy meals”.

Num momento de descrença amorosa, Renata decide fazer com Rubem uma peregrinação a Santiago de Compostela. Vai cuidar demoradamente dos pormenores necessários a delicada viagem, mas nas vésperas da partida, para seu grande tormento, obrigações profissionais acabam por lhe trocar as voltas e impedi-la de fazer a viagem. Rubem, porém, não desiste e mais o seu amigo Tiago avança rumo à Galiza. E eis, então, que no regresso o milagre se dá: o apóstolo, Santiago, o amor, não lhe vai permitir continuar a alimentar veleidades. E se o corpo, o coração e a mente, se querem puros, ternos e sãos, não há-de ser com “happy meals” que se vai lá chegar.

Terminando, gostaríamos de deixar bem claro, sem favor algum, que estamos perante um livro extraordinário, onde “o verbo fala o verbo”, o que só por si dispensa mais elogios. Este o seu maior prémio, a luz que a palavra sagrada lhe dá, mas que pela sua humilde grandiosidade, certamente, que outros bons e duradouros prémios virão. Adivinha-se.

Pelo nosso lado, não podemos deixar de manifestar a nossa gratidão à autora, pela preciosa amizade, pelo convite com que fomos distinguidos, mesmo não nos julgando à altura da apresentação dos requisitos de tão digna obra. Mas talvez que um poema de Agostinho da Silva, com que os deixamos, lhe possam trazer mais justiça. Diz assim:

“Se eu chegar a ser dum Outro
mas de mim não me perdendo 
e esse Outro todos os outros
que comigo estão vivendo

não só homens mas também
os animais e as plantas 
e os minerais ou os ares
e as estrelas tais e tantas

terei decerto cumprido
meu destino e com que sorte
para gozar de uma vida
já ressurrecta da morte".



Luís Santos

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Etnografar a Arte de Rua (XIV) Graffitar a Literatura



Graffiti fotografado por Luís Souta, 2015.
Estrada da Boca do Inferno (entre o CCC e o MCCG), Cascais


«Dói-me a vida aos poucos.»
(carta a Mário de Sá Carneiro, 1915)

De Fernando Pessoa temos obra vasta e não definitiva pois daquele “baú sem fundo” não cessam de ser resgatadas pérolas literárias; nelas, uns perdem-se em leituras de descodificação árdua, outros sacam citações que repetem até à exaustão – «Deus quer, o homem sonha, a obra nasce» «falta cumprir-se Portugal!»…

Foi uma [P]essoa peculiar, enigmática, complexa, «a cada página mudando de atitude, de ideologia, de poética, de biografia» (Fernando Cabral Martins, 2006). No Senhor Henri (2003), escreveu Gonçalo M. Tavares: «se um homem misturar absinto com a realidade fica com a realidade melhor…» Talvez fosse isso o que o poeta procurava naquele tempo de frequentes paragens no Martinho da Arcada: o álcool alimentava uma escrita criativa e torrencial que desenvolvia (e com que profundidade!) ideias sobre a vida, as gentes e o país. Afogou-se (cedo) no absinto… para mal dele e de todos nós.

A sua figura, nas escassas fotos que nos deixou, foi recriada por outros artistas. Um deles, o pintor Costa Pinheiro (1932-2015), falecido no passado dia 9 de Outubro, em Munique, dedicou-lhe uma série, iniciada em 1976. Tive a grata oportunidade de ver alguns desses quadros na exposição “Pessoa… intemporal” que esteve patente na Galeria de Arte Convento Espírito Santo, em Loulé, de 22 Novembro a 27 de Dezembro 2008. Este pintor que também optou pela emigração (muitos anos na Alemanha) merece uma homenagem nacional: uma grande exposição na qual teremos seguramente a oportunidade de revisitar Fernando Pessoa que «ocupa uma posição relevante na obra do artista».

writting que vos trago este mês (dádiva do Muraliza à vila de Cascais) é mais uma das múltiplas representações iconográficas do poeta; desta vez, de costas, em posição mais surrealista que ortodoxa. Pode ser visto nas imediações do Museu Condes de Castro Guimarães. Depreende-se que Belém, o artista de rua, fez uma escolha criteriosa do local para o seu graff. Este Museu assinalou os 125 do nascimento de Fernando Pessoa (1888-1935), no âmbito da “Semana do Município 2013”, com a exposição “Gabinete Fernando Pessoa” em que recordava a candidatura do poeta ao cargo de «Conservador-bibliotecário», concurso publicitado em anúncio n’ O Século de 01/09/1932. Uns versos de “Os Colombos”, incluído no único livro em português publicado em vida do poeta – Mensagem (1934) –, pode sintetizar o então sucedido:

«Outros haverão de ter
O que houvemos de perder.» 

Essa foi, com certeza, uma das “dores” da vida (breve) do poeta. Foi preterido no lugar! E para a instituição municipal, tal agravo foi mancha que nunca se apagou, pelo contrário, acentuou-se à medida que crescia a popularidade e a unanimidade em torno do escritor ímpar. Não há forma de “reparar” tal ignomínia que, infelizmente, não foi caso único no campo literário português.

Luís Souta


terça-feira, 20 de outubro de 2015

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

A PRIMEIRA PALAVRA 

Uau! Hoje, a Matilde trouxe um trabalho para casa em que resolveu tudo direitinho. Consistia em completar as linhas de três grafismos que simulavam as letras e, m e u e ainda executar a cópia da palavra menina por três vezes. 

Palmas para a Matilde! 

Na aula, os alunos conheceram a palavra menina, com a qual iniciarão o trabalho da aprendizagem da escrita. 
Complementarmente, realizaram cópia daquele vocábulo e das letras que o compõem. 
Também fizeram grafismos e desenhos. 


E agora o pai já tem os trabalhos de casa das duas gatinhas para ver. 



Prémios Nobel da Física como da Medicina reconhecendo a investigação no domínio da ressonância magnética. Neste último caso, a distinção repartiu-se pelo norte-americano Paul Lauterbur e o inglês sir Peter Mansfield pela aplicação neste domínio daquelas pesquisas, o que permitiu uma forma mais inócua de representar bidimensionalmente os órgãos internos do corpo humano. 



E sob fogo pesado de todos os lados, o ministro dos negócios estrangeiros demitiu-se. 
Pouco antes, soube-se, desta vez com provas, que o seu chefe de gabinete e um dos seus secretários de estado tentaram alterar a lei que regulamenta a entrada no ensino superior por parte dos filhos dos diplomatas e de todos aqueles que prestem serviços continuados ao estado português no estrangeiro. 
A cultura da cunha e do favorecimento sequer é uma herança do salazarismo. É muito anterior e numa população que sempre viveu a milhas da civilização democrática, só pode estar-lhe na alma. 
Mas estes intentos revisionistas para com a lei são graves, muito graves. Entre a nossa classe política passa a ser concebível adaptar as necessidades da legislação às necessidades de cada um. 
Neste caso, a demissão é o único recurso de alguém que, afinal, tentou esconder a verdade até aos limites do impossível. O homem não sai por desconfiança mas sim por falcatrua. 

Deveria haver um inquérito parlamentar para apurar responsabilidades e, se necessário, para verificar se houve ou não ilicitudes do fórum criminal. Seria um exemplo de verticalidade e de fé na justiça. 


Mas é claro que nós estamos em Portugal. 



Hoje estou cansado. O dia foi cheio de três coisas ao mesmo tempo e de um ping-pong constante. 

À tarde levei a Matoldas para o escritório o que há muito estava prometido e que acabou por me sobrecarregar com as perguntas e a partilha do gabinete. 

Mas estou satisfeito. 


Parece-me é que não repetirei a gracinha. 
É que foi um turno alegre para as funcionárias. 

E o pai nada podendo dizer. 



Por agora vou estender-me no sofá. 
Há um romance para acabar de ler. 


 Alhos Vedros 
   07/10/2003

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

REAL... IRREAL... SURREAL... (154)

Título: Cavalo assustado, Autor Eugène Delacroix, 1824
Aguarela, 23.6 x 32 cm


Sonho de poeta

Grita poeta, grita
Grita ao mundo a tua discordância.
Grita o sonho do teu mundo bom.
Fá-lo com palavras fortes, penetrantes
Que destruam mentiras, ilusões!
Diz dos sonhos que tens e que são belos!
Que matam injustiças e castelos
E grandezas mesquinhas e traições!

Sopra na trombeta do amor
Corre no vento a tua voz sublime
Vence a desfaçatez do mundo, que oprime!

Corre poeta, corre!
Porque o teu estro jamais descansa
Enquanto cavalgares sobre o corcel da esperança!


Joaquim Carreira Tapadinhas


(Selecção de António Tapadinhas)

domingo, 18 de outubro de 2015

 
MIRADOURO 34/2015
 
esta rúbrica não respeita as normas do acordo ortográfico
 

Foto de João Ramos 
 
Não sei se eram reflexos na água ou no espelho dos meus olhos marejados projectando-se de mim em mim.
As cores eram de Outono e os vultos distorcidos num sucumbir de desalento.
Algo morria ou, então, adormecia apenas.
Mas detectava-se um rumorejar novo e ascendente na eclosão de um colorido emergente.
 A sucessão das estações a anunciar-se  no ventre líquido da terra.


Manuel João Croca

sábado, 17 de outubro de 2015

quinta-feira, 15 de outubro de 2015


Quebra-se o tempo

ao meu amor eterno este jardim mineiro, Solange


quebra-se o tempo nos teus recantos em que tu entras
sozinha em ti na rosácea do telefone de cristal, um arroz
de feijão para dormir toda a flor e vagem da tarde quente
o corpo dobra-se num tempo único ao pleno sol absoluto
como um Deus nesta entrada do Outono, Outubro a dentro
castanhas que regressam para acompanhar a carne assada,
entre-campos, campo grande nova caminhada para salvar
as pernas e deitar-me contigo pretinha na relva fresca
do jardim antigo onde os estudantes celebram suas praxes
sem paredes, sem portas nem janelas para derrubar, procuro-te
de capa preta, académica,


José Gil
1 de Outubro 2015
7h 

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

"Happy Meal", por Risoleta Pinto Pedro





Risoleta Pinto Pedro tem publicado romance, novela, conto e BD. Tem também escrito crónica para várias publicações e para a Antena 2 da rádio. Foi premiada na ficção com o Prémio Ferreira de Castro da C M de Sintra e Prémio Revelação APE, e na poesia com o Prémio Sociedade da Língua Portuguesa.

Algumas publicações da autora: A Criança Suspensa (1996), Corpo e a Tela (1997), O Aniversário (1998), A Compreensão da Lua (1999), O Arquitecto (2002), Venite in Silentio (2004), O Pecado do Vagabundo, O Homem da Minha Vida, O Sol do Tarot de Sintra, Adelaide Cabete e a Palavra Encontrada (2009/2010), entre outras.

Tem igualmente criado textos para teatro, e para música: libreto para o compositor Paulo Brandão e Grupo de Música Contemporânea, e para o compositor Jorge Salgueiro (cantata, ópera, canção e musical).

Vem também colaborando, há mais de 15 anos, na sua qualidade de escritora e criadora, com a Companhia de Dança Amalgama.

Em vários espaços (espetáculos, rádio, encontros, conferências) tem declamado a sua poesia e dito/representado os seus  textos.

Teve aulas de canto e Canta em coro desde 1980.

Tem Experiência de orientação em escrita criativa quer com os seus alunos, quer noutro tipo de organizações.

Podem encontrá-la também no seu blogue literário:  www.aluzdascasas.blogspot.com

O seu interesse por estudar e experimentar pontes entre a vida, a literatura e as outras artes, e entre estas e os processos de consciência numa perspetiva integrada de conhecimento e arte, tem-na levado a escrever sobre educação, livros, artes plásticas, teatro, cinema, música, dança.



terça-feira, 13 de outubro de 2015

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

OS AMIGOS DO ALHEIO 

Catalina Pestana, a actual Provedora da Casa Pia de Lisboa, diz que o país não está preparado para o terramoto que se avizinha com o processo de abuso e exploração sexual de crianças que tanta tinta já fez escorrer. 

Vamos ver o que acontece. 

Se isso significasse um tiro no coração de uma das hidras que subjugam o país, só poderíamos desejar que a terra tremesse. 

Talvez depois fosse possível atingir outras máfias. 



E o Ministro do Ensino Superior já tem substituto. 
Será Graça Carvalho, Professora no Técnico e pessoa dada como próxima de Pedro Lince. 
Que me recorde, trata-se da segunda mulher a ocupar uma pasta da área educativa. Oxalá seja mais bem sucedida que a outra, a Drª. Manuela Ferreira Leite, a actual ministra das finanças, quem teve uma passagem pouco mais que má por aquele ministério. Sobretudo, faço votos para que seja alguém capaz de compreender a decisiva importância da educação no mundo actual. 



Livros escolares da Matilde, I 

“Caminhos”, livro relativo ao Estudo do Meio, da autoria de Conceição Dinis e Luís Ferreira, da Porto Editora, em primeira edição e publicado no Porto, em dois mil e três. Trata-se de um exemplar da primeira tiragem. 



Este fim-de-semana, a escola da Matilde e da Margarida foi assaltada. Os larápios levaram materiais e perto de sessenta euros que estavam na gaveta de uma Professora. 

É claro que os amigos do alheio não se preocuparam com o facto de estarem a prejudicar crianças. Outras considerações de justiça social, então, são assuntos de outro planeta. 

Mas é com este vandalismo que nós temos de conviver; pela destruição da cultura de comunidade que um urbanismo desregulado produziu, dificilmente terá uma solução razoável. 

Esperemos que a próxima vez não aconteça. 



“-Olha esta ameixa…” –Disse a Matilde para a mãe, à hora da sobremesa, sorrindo em antecipação das suas próprias palavras. E concluiu após um curto compasso de espera: “-Parece que tem bexigas.” –E destacou as bolinhas amarelas, pintalgadas a vermelho, numa das zonas polares. 

A gargalhada geral manifestou a alegria da família. 



O terrorismo palestiniano nada tem a ver com o problema da pobreza ou miséria do povo, como tão pouco se pode dizer que seja induzido pela ocupação israelita dos territórios que àqueles são reconhecidos ou, especificamente, pelas humilhações e injustiças que esse contacto desigual tenha gerado. 
É claro que isso causa, ou pode causar turbas revoltadas e os impasses políticos que têm impedido a solução do problema são, naturalmente, factores de desespero que, dependendo da cultura de quem por ele passa, pode muito facilmente levar à violência. 
Esse é o caldo sociológico em que o terrorismo se expressa e, simultaneamente, é o que leva a que se faça a conexão em causa. 
Mas na verdade não é aquele o único e incontornável caminho para se atingir o objectivo de um estado palestiniano independente e viável; deste modo, aquele propósito impõe-se como álibi para aquelas acções, cujas motivações têm por base um olhar fanático sobre o mundo que tem mais a ver com uma certa visão religiosa do que com quaisquer pressupostos políticos independentes, embora se traduza numa mera questão de poder, do controlo e do exercício do poder. 
Tais actos não têm por consequência nem a prosperidade e o bem estar da população e muito menos a sua liberdade. Em primeiro lugar visam fazer mal a outras gentes e, em segundo lugar, só são praticados pois há quem se sinta no direito de pensar que os palestinianos devem ou têm de viver de uma determinada maneira que, precisamente, é o que está em causa; e tanto as elites religiosas como as políticas convergem nesse desiderato, por ser a única forma que têm para, uma vez alcançada a independência, manterem o poder e os seus privilégios. 
Quando olhamos o processo de paz, aquilo que vemos é o interesse dessas mesmas personagens e organizações em que o mesmo aborte. Isto porque não é aquela a principal preocupação mas sim a manutenção do poder, para o que até a guerra pode ser preferível. 



Por cá, no dia a seguir à comemoração da república, comemoram-se os onze anos da televisão privada. 

A tabloidização no sentido do espreme e deita sangue e da pornografia light que actualmente domina o panorama televisivo privado, estava em germe naquelas programações dos primeiros dias, com estudantes aos saltos e pinotes e apresentadores gritando em saiotes, ou naqueles dramas de comadres que elevaram as Caras Lindas e ao écran levaram vizinhos e vizinhas. Daí ao circo romano, estaria apenas a separação de uma linha. Pena maior é que o principal canal público tenha, em grande parte, ido atrás. 
Mas a informação e certos programas informativos tiveram uma irreverência inicial que poderia ter dado bons frutos. Infelizmente, a lógica do mercado e outras lógicas mais invisíveis foram domando a esperança de um papel cívico e acabaram por impor a censura actual, não de lápis azul, é claro, mas de conversa amena e conselhos de quem sabe dar uma palmadinha no ombro. 

Pena maior é que a imprensa, em geral, tenha acompanhado esse movimento. 



Boa opinião vou eu reforçando a respeito da Professora da Matilde. Tenho para mim que a senhora sabe muito bem o que faz. 
Pouco antes da saída propôs aos meninos a execução de um desenho sobre a escola que consiste no primeiro exercício do livro de Estudo do Meio. Obviamente, nenhum teve tempo de acabar. 
E a Mestra pediu aos alunos que terminassem a tarefa em casa. 

Tenho para mim que o fez de propósito. Assim, os miúdos acabaram por ter um trabalho de casa sem darem por isso. 
A Matilde, por exemplo, entendeu a tarefa como uma finalização do que tinha iniciado na aula e não como um trabalho de casa propriamente dito. 


Escusado será dizer que ao fim da tarde lá estava uma casinha muito feia, pintada a vermelho, na folha do livro. 


Na aula, os alunos fizeram exercícios de grafismos e de imitações das letras vogais. 
Pela amostra, a Matilde saiu-se bem. 
E também fizeram desenhos e a tal pintura ao fim da manhã. 



Ai que noite melosa com os grilos do lado de fora e música da minha infância e adolescência na rádio. 


As oposições pedem a demissão do ministro dos negócios estrangeiros. 


Mas eu prefiro o silêncio da pausa de um cigarro a olhar a Lua. 


 Alhos Vedros 
   06/10/2003

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

REAL... IRREAL... SURREAL... (153)

Pétalas Efémeras, Autor António Tapadinhas, 1997
Óleo sobre Platex 
Germino tanta vez no sono
como a árvore germina sob o solo as raízes,
e nos ramos os gomos que rebentarão em flor
Germina a noite sob o sono que não durmo
em vigília constante
A chuva densa dança sobre os rios
que crescem
e germinam em rápidos apressados
na ânsia de fazer sal e sol,
ao desaguar no sono revoltado
dos meus oceanos
E escrevo com a força do fogo e da água
Nas cachoeiras distantes
ergo o poema na substância das pedras
Cimento a palavra no caminho prestes a fazer
No cansaço do dia
quando o fogo acende a noite
nos sulcos deixados pelas lágrimas ao anoitecer,
o sol espera o sal do saber
plantado em sementeira estranha
A lavra rasga o peito na embriaguez da noite
e os barcos imóveis
anunciam nas asas dos pássaros
o fim da primavera efémera

__________
Alvaro Giesta in Um Arbusto no Olhar
Selecção de António Tappadinhas

domingo, 11 de outubro de 2015

 
MIRADOURO 33/2015
esta rúbrica não respeita as normas do acordo ortográfico
 


ACERCA DA LUZ

É uma luz muito bela que ilumina mesmo se distante.
Aquece-nos no calor que emana, mesmo que as vibrações sejam de fado tropeçando em samba e bossa nova.
Já morna, não, pois que não há soçobro ou rendição.
Não há lágrimas, apenas mágoa.
O choro permite reparos alheios mesmo que indiferentes, a mágoa ajusta-se melhor ao que conta.
É interna, é só nossa e, depois dela, há uma alegria que nunca esmorece porque a luz a aquece.

Manuel João Croca



Uma visão do Tamisa by night
Foto de Joana Croca

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Girassol


por Miguel Boieiro

Quando o Governo decidiu aderir à CEE que hoje se chama União Europeia, os portugueses foram aliciados com subsídios destinados a ações de formação, à construção de autoestradas e pontes, à modernização (ou extinção) de setores industriais e agrícolas … Algumas fortunas e escândalos, fruto de jogadas habilidosas, começaram a surgir por essa altura e, como se sabe, têm vindo a fazer escola até hoje. No tocante à agricultura, o dinheiro servia até para arrancar olivais e vinhedos e vedar propriedades. Ora um dos citados subsídios destinava-se ao cultivo do girassol. Os agricultores recebiam à cabeça as verbas para as semeaduras apresentando prova das áreas a ocupar e mais nada. Lançada a semente à terra, terminava o processo. O dinheiro estava ganho e nem sequer era preciso fazer as colheitas. Alguém mais espirituoso apelidou o lucrativo negócio de girassídio (girassol + subsídio).

Estes episódios burlescos ou, se quisermos de burlões, vieram-me à mente quando, no verão de 2015, observei nas proximidades da costa adriática italiana extensos campos de girassol, não sei se cofinanciados, ou não. O certo é que se encontravam bem cuidados e que a recolha das respetivas hastes florais já secas era feita mecanicamente.
O girassol, ou seja, o Helianthus annuus, (do grego helio que quer dizer sol e anthos que significa flor) pertence à família das Asteráceas ou Compostas. Como se depreende da designação, o seu ciclo é anual. Diga-se de passagem que o género Helianthus engloba para cima de 60 espécies. De resto, toda a gente conhece a característica peculiar do girassol – ao longo do dia as suas enormes flores rodam sempre na direção do astro-rei. Essa curiosa propriedade denomina-se heliotropismo.

Trata-se de uma herbácea de caule ereto e grosso que pode chegar a 3 metros de altura. As suas grandes folhas cordiformes são ásperas, opostas e pecioladas. As flores, hermafroditas, de amarelo dourado, podem atingir 70 cm de diâmetro. As sementes, produzidas em grande quantidade no centro dos capítulos florais, formam aquénios.

O girassol é oriundo do continente americano, tendo chegado à Europa para alindar os jardins como vistosa planta ornamental. Só mais tarde se detetaram as excelsas virtudes das suas sementes. Elas são riquíssimas em óleo (numa percentagem que quase chega aos 50%) contendo ácidos gordos insaturados, especialmente linoleico e oleico, ómega 6, ómega 9, magnésio, cálcio, ferro, fósforo, potássio, vitamina B1 e vitamina E (apenas o germe de trigo tem maior concentração de vitamina E).

Aponta-se como principais propriedades do girassol as seguintes: antigripal, expectorante, diurética, estimulante, estomacal, febrífuga, anti nevrálgica, cardiotónica, hidratante, antioxidante, vulnerária.

O óleo é utilizado na alimentação e em farmacologia, sendo mais valioso se for obtido por prensagem a frio. Exerce ação favorável sobre o crescimento e desenvolvimento das crianças, as doenças pulmonares, o colesterol, a hipertensão, o paludismo, os gases intestinais, a diarreia, as enxaquecas, as dores de garganta, as febres intermitentes, as úlceras e escoriações.

Se bem que o mais importante sejam as sementes, também as folhas, os caules tenros e os capítulos florais integram a medicina popular em várias regiões do mundo, para combater a tuberculose, outros problemas com os pulmões e a malária, através de tisanas (uma colher de sopa da planta seca para uma chávena de água, devendo ferver durante 5 minutos).

O “chá” das sementes torradas prepara-se fervendo durante 10 minutos uma colher de sopa das ditas num litro de água. Devem-se tomar 4 chávenas por dia.

As sementes têm uma notável utilização em culinária no fabrico do pão, nos flocos “muesli”, nos iogurtes, nas saladas, etc.

No entanto, é o óleo alimentar que detém a primazia devido ao seu grande valor nutritivo, sendo um bom substituto do azeite. Em farmacologia é usado para hidratar a pele e o cabelo, preparar unguentos e emplastros para as dores reumáticas, tratar a arteriosclerose, fazer descer o nível do mau colesterol e da diabetes.

Em agricultura biológica é deveras importante a missão das flores do girassol, atraindo polinizadores e facultando néctar às abelhas para produzir mel de excelente qualidade. Note-se ainda que as folhas do girassol inibem o desenvolvimento das plantas daninhas (alelopatia).

A homeopatia integra o girassol no seu leque de florais, atribuindo-lhe a ampliação da autoestima, o sucesso, a sorte e a felicidade dos pacientes.

Van Gogh, na sua célebre peça pictórica, divulgou ainda mais o girassol que foi adotado por diversos movimentos espiritualistas e se tornou um dos símbolos da ideologia verde.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Cerrado Ultramar ou Festa de São João





30x60cm
Acrílica sobre tela
2015

Nasceu Cerrado e de tanto mar virou Festa de São João.
"Céu de estrela sem destino, de beleza sem razão"

Beijos cósmicos!


Kity Amaral
Belo Horizonte - Brasil


quarta-feira, 7 de outubro de 2015


“Amando Não Odiar E Andando Nu No Infinito Do Tempo”

Amo o amor…
Odeio odiar…
Ofende-me quando ofendo…
Gosto de ser…
Ter ou não ter, eis a questão!...

Visto-me de nu…
Cinjo-me a nuanças…
Levo o que ninguém leva…
Curto a pele ao sol e no tempo…
Estar ou não estar, eis-me sim aqui!...

Livro-me de grilhões…
Prendo-me a ideais…
Liberto-me de certos preceitos…
Julgo-me com peso e medida…
Pensar ou não pensar, eis o senso comum!...

Transpiro de dúvidas…
Estou certo de incertezas…
Adormeço de pé e em andamento…
Faço musculação sendo fraco…
Vivo ou não vivo, eis a realidade existencial!...

Nasço e renasço amiúde…
Cresço por vezes às vezes…
Ligo-me ao resto e no final de contas…
Desmancho prazeres assíduos…
Grito ou não grito, eis a minha força de expressão em acção!...


Escrito em Luanda, Angola, por Manuel de Sousa, com pleno espirito de Homenagem ao Pensamento Abstracto, mas também, ao Concreto e ao da Realização Criativa de facto!...

terça-feira, 6 de outubro de 2015

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

A TARTARUGA GILINHA 

É tão bom dar um beijinho de boas noites para que os pardalitos se deixem dormir e, mais tarde, reforçar a dose antes de nos deitarmos. 

Quando a seguir nos sentamos para ler o jornal ou um livro ou fazer qualquer outra coisa, ou quando nos dirigimos para os lençóis, em acto contínuo, levamos connosco uma pena no peito que nos acaricia a alma. 


E este fim-de-semana também foi assim, repousante, com a vantagem de ter o regresso do Sol para aquecer as manhãs de esplanada com os jornais e o passeio de bicicleta que a Luísa fez, esta tarde, com a Matilde. 
Na hora da piscina, ao fim da manhã de Sábado, o pai esteve na companhia de Caldwell. 



Pena que este não seja o clima que se respira no Médio Oriente. 

A aviação israelita atacou uma base de treino da Jhiad Islâmica em território sírio. Segundo as autoridades israelitas, tratou-se da resposta ao atentado de ontem, em que um bombista suicida se fez explodir no interior de um café, com o que massacrou mais dezoito civis inocentes e indefesos. 
A Síria já protestou, como seria de esperar e, naturalmente, negou qualquer envolvimento com as redes terroristas palestinianas que, por sua vez, negam a existência daquelas infra-estruturas do terror que querem fazer passar por campos de refugiados. 
A verdade é que o regime de Damasco nunca foi inocente e desde a primeira hora se mostrou hostil para com o estado de Israel o que, em várias ocasiões, mostrou através da linguagem das armas. Agora volta a esgrimir essa possibilidade mas, pelo menos para já, ficou-se pelo protesto que apresentou nos órgãos competentes das Nações Unidas e pediu uma reunião de emergência do Conselho de Segurança. 
O governo de Telaviv recorda que este foi um ataque contra a organização terrorista e não contra o país em que aquela se acoita, se bem que não tenha deixado de chamar a atenção para as responsabilidades que assumem os estados que as apoiam e lhes dão guarida. 
Obviamente, não há alternativa a uma resposta enérgica a esses crimes mascarados com propósitos, aos olhos de muitos, tidos por razoáveis. 


Os líderes europeus continuam com as tibiezas e indefinições do costume e não parecem capazes de entenderem quem são os verdadeiros inimigos da paz e, em conformidade, também não deixa margem para dúvidas quanto à sua sinceridade e empenho. 

Sobretudo espanta tanta repetição dos mesmos erros. 
Façam o mesmo que fizeram com Saddam Hussein, deem força aos títeres e condenem as suas vítimas e não tenhamos dúvidas que o regime sírio terá que vir a ser desapeado pela força, nos próximos anos. A paz mundial depende do entendimento que se conseguir no Médio Oriente. 
Faça o Ocidente um bloco homogéneo e mostre firmeza na exigência que cesse todo e qualquer apoio ao terrorismo palestiniano a partir daquele país e o mais certo é que os mais radicais percam influência e a política externa síria ganhe moderação. 


Infelizmente, parece que isto é idealismo da minha parte. 



“-Olha, Margarida, o que anda ali no chão.” 

Lá andava a Gilinha, a pequena tartaruga que a Margarida adoptou no princípio deste Verão, gozando a liberdade de pela primeira vez poder bisbilhotar os cantos à cozinha. 


E já agora, a talho de foice, a Matilde tem dois peixinhos a seu cargo: o Laranjinha e a Laranjinha. 
No seu entender, são namorados. 

É bom que as crianças convivam com animais domésticos e para quem vive num apartamento, como nós, estes parecem-nos adequados. Com aqueles podem exercitar o sentido de responsabilidade de zelar pelo bem estar de outro ser. Além disso, pode ser um tal relacionamento um factor de curiosidade nesses domínios. 
Até aqui, têm sabido cumprir com as suas obrigações. 



Bem, agora o Presidente da República quer ver os portugueses a debater a constituição europeia que se anuncia. 
Depois… Depois logo se verá se será necessário um referendo sobre a sua aprovação. Sobre o escrutínio estou plenamente de acordo. Aliás, consultas deveriam ter sido feitas quer no que diz respeito à nossa adesão à então, ainda, Comunidade Económica Europeia, quer para o caso da nossa adesão ao euro que é agora a nossa moeda. Só não aconteceram por falta de vontade e coragem da nossa classe política que tanto gosta de ver o simples cidadão arredado do debate político. 

Quanto ao conteúdo da pergunta, naturalmente ainda não tenho uma opinião formada pois, tenho de o confessar, nunca reflecti sobre o assunto. 
No entanto, entre a lógica da Liga Hanseática e a do Império de Carlos V, não hesito um segundo em escolher a primeira. 



Estão a ver como nós somos os primeiros em alguma coisa? 
Pela décima quinta vez, Portugal foi campeão mundial em hóquei em patins. 
Pena que não seja uma modalidade olímpica. 



E agora deixo-vos com o que resta da noite. 
Os grilos continuam a falar para as estrelas. 

 Alhos Vedros 
   05/10/2003

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

REAL... IRREAL... SURREAL... (152)




Hoje um amigo querido, um irmão, sofre a perda de uma pessoa jovem, próxima e amada.
PEQUENA PRECE A UM AMIGO
Às vezes, meu amigo
a velha carpideira
rapaz e traiçoeira
Não nos tendo podido roubar a juventude,
nos rouba a juventude alheia
às vezes o cedo perde o sentido
a vida desmente o feto
a morte retira o chão
mas a vida também o teto
para que possamos ver o céu

Velhos,
engolimos perdas
como a um velho sói
Mas às vezes, velho amigo,
às vezes dói.
Ernesto Dias Jr.

Homenagem a dois amigos especiais, Walmir Lima e Ernesto Dias Jr. que, sendo brasileiros, não têm a obrigação de conhecer esta  "Canção com Lágrimas".
António Tapadinhas

domingo, 4 de outubro de 2015


Real monarquia software / hardware

 

O rei morreu

de que lhe sucede, Manuel

o mainstrem lisboeta de facebook em punho

no quarto bizarro da sua juventude.

 

Vista natural para os restauradores,

olhar artificial para o mundo.

Reinado que morreu a terreiro do paço de distancia,

em sua casa reina mais o mundo que napoleão e hitler juntos.

 

Aquele mundo, aquele mundo. ai aquele mundo...

mundo que foi e do que será

diante de Manuel sentado em seu trono

adornado de almofadas e rodas de escritório.

 

Descêndencia de henrique e gama

cosendo os mares a likes e gostos,

a sorrisos de virtual calor,

novos ratos do mundo real servem reis e rainhas

em século XXI por mares nunca dantes navegados.

 

O rei morreu

os reis acabaram de aparecer.

Apareceu manuel o rei lisboeta

igual a outros tantos milhões de reis.

 

D. novo Manuel cruza os braços diante do seu reino,

no seu palácio ignora servo rato esperando ordens,

vislumbra o mundo pela janela do seu quarto,

das águas furtadas com vista para a a praça, a dos restauradores.

 

 

Diogo Correia

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

A Azeitona


por António Alfacinha


De bandeja na mão colocava a bica, bem cheia, e o queque em cima da mesa. Ao mesmo tempo espreitava o titulo do livro que ela lia, “ Tristeza não se procura “. Achava estranho, pois o ultimo que ela tinha lido era “ Melancolia, não és sábia “. Os seus olhos percorreram a figura da jovem. Cabelos pretos, ondulados, olhos verdes, demasiado verdes. Expressão triste. Não lhe sabendo o nome, resolveu dar-lhe um, Azeitona, porque não, era o que mais condizia, e só ele saberia. Imaginava-a em seus braços, e aí seria azeitoninha. 
A tristeza, talvez alguma paixão perdida, ou estado de alma passageiro.
Enquanto aguardava no balcão os pedidos dos clientes, olhava-a e apreciava aquelas pernas cruzadas, talvez como a sua vida.
Saía sempre sem o chamar para pagar, e lá estavam as moedas, um euro e meio, como era habitual.
Deixou de aparecer, estranhou-lhe a ausência, talvez umas férias ou uma pequena doença.
Sentia falta daquela Azeitona, que nunca falava. Lentamente o tempo ia passando e apagando a sua imagem.
Um dia, um comentário de uma cliente chamando a atenção para uma fotografia que vinha no jornal, como sendo de alguém conhecido, foi espreitar e reconheceu-a,era ela, a sua azeitoninha. Por cima da foto, um título que talvez não fosse de todo surpresa. Tinha resolvido “ partir “ de sua livre vontade. Angustiado olhou, olhou para a mesa onde ela costumava sentar-se e estava ocupada com uma jovem de acabara de entrar, que olhando para ele fez-lhe sinal que se aproximasse para ser atendida. Pediu-lhe então uma bica e um queque. Achou estranho a coincidência do pedido, e olhou para o título do livro que a jovem tinha colocado em cima da mesa, “ Azeitonas, somos muitas “.