quinta-feira, 7 de maio de 2020

Graffitar a Literatura (XXIV)


Quando os bichos falavam”


«Eu julgava que nos distinguíamos dos animais por uma razão mais elevada, mas, afinal, o que nó temos mais do que eles é imaginação»
(Terra de Nod, Judith Navarro, 1961: 172)
  
1. As fábulas, que ouvi quando miúdo, eram o reino da fantasia e imaginação. Começavam, invariavelmente, assim: ‘No tempo em que os animais falavam…’ Então, eram esses animais pensantes que me davam belas lições de vida. E foi essa linha que retomei no meu livro Bichos à Solta (Edições Vírgula - Chancela do Sítio do Livro, 2016, 77 p.). Pus golfinhos, baleias, rãs, cavalos, hamsters, esquilos, cães, gatos, flamingos, cegonhas a ‘escreverem’… postais à minha filha mais nova. E deste modo, 
«regressamos a uma das mais poderosas e intemporais intuições da humanidade, a de que os animais falam e comunicam com os humanos. Os mitos, tradições e lendas das mais diversas culturas falam-nos de um tempo em que as diferentes espécies de seres comungavam e comunicavam entre si, não estando ainda separadas e fechadas pelas barreiras do medo, da agressão, da estranheza e da indiferença. Essas narrativas evocam uma harmonia original do mundo e da criação que não deixa de suscitar uma irresistível saudade, por mais que o que nos dizem pareça hoje estranho a muitos dos nossos contemporâneos, filhos de uma civilização que se afasta cada vez mais da natureza e do convívio com as vozes e os afectos dos seres não-humanos.» (Prefácio, p. 13)

Bichos à Solta é um livro juvenil (ou talvez não) que conta, num registo epistolar, 25 estórias, ilustradas pelas minhas filhas Lionor Dupic e Constança Souta. Nas palavras de Paulo Borges (FL-UL), que assina o prefácio, essas narrativas «constituem uma profunda lição de educação ambiental».
O tema central destes escritos gira à volta de um dos objectivos fulcrais de luta social da contemporaneidade: a conservação da biodiversidade, o equilíbrio ambiental e a relação dos homens com os animais. 
«Homens e mulheres de diferentes países, crenças e religiões unem-se num movimento global de acção em torno desse nobre desígnio que é a luta pela defesa do Ambiente. (…) Um eixo de acção social que passa muito pela defesa e preservação do planeta Terra. Esta, sim, é uma causa passível de unir a Humanidade. Caso contrário, todos pereceremos com a implosão do planeta azul. Saibamos então evitar essa catástrofe!» (p. 9)

2. Este mural painting, de Third (Nuno Palhas, nascido em Vila Nova de Gaia, em 1979), incluído no Muraliza 2015 (decorreu entre 29 de Junho e 6 de Julho), associa o corvo marinho de faces brancas à fundação do município de Cascais – 1364.
O cormorão (como também é conhecido), não foi inserido no meu Bichos à Solta. Na terceira parte da livro, andam por lá outras aves, como a mais alta da fauna portuguesa – o narcísico flamingo:
«E é por essas zonas mais sossegadas e protegidas que muitas aves migratórias, como nós, os flamingos, descansam na longa viagem entre o norte da Europa, frio, e a África, a sul, quente. Por ali nos “reservamos”, sempre em grupo, naqueles sapais das antigas salinas, nos esteiros da Moita, ou até na baía do Seixal, de águas baixas e ricas de vida piscícola. Nesse período, não nos esforçamos em grandes voos. Antes nos miramos nas águas tranquilas enquanto vamos tratando da nossa plumagem de tons rosa. Somos um pouco narcísicos, confesso. Mas não descuramos as “refeições”: o nosso longo pescoço em Z, desaparece por entre as penas, quando mergulha, em movimento rápido, à procura de alimento.» (p. 58)

E as cegonhas parteiras que a ciência escolar tratou de varrer do imaginário infantil, em nome de uma educação sexual positivista e precoce:
«Como reparaste, somos uma ave de grande porte, mas de movimentos lentos e tranquilos (nada que se compare com o nervosismo saltitante de pardais ou andorinhas). Estamos em sintonia com estas serenas planuras do Sul que nos acolhem. Adoramos viver na Comporta, a caminho das praias de Tróia, e nos férteis arrozais de Alcácer, nas margem do Sado, fontes do nosso bem estar. (…)
Já te questionaste por que apreciamos os pontos altos para nidificar? Não é a mania das alturas ou o simples prazer de olhar o mundo de cima para baixo. Talvez seja para nos resguardarmos do Homem, não se pode confiar nele» (p. 60)

Bichos à Soltadisponível em http://www.sitiodolivro.pt/Bichos-a-Solta, nas livrarias Ferin (Baixa de Lisboa) e RG Livreiros (Cascais), é um bom presente para filhos, netos e todos os adultos com empenhamento (crítico) na causa Ecológica preocupados com a defesa do Ambiente e dos Animais.

Post scriptum:
Este mural, pode ser visto na parede lateral de um prédio de 2 pisos, na Travessa da Ressurreição, nº 11, no centro da vila de Cascais, bem perto do Largo da Estação (CP). Aguentou-se incólume quase cinco anos. O vandalismo tardou mas acabou por chegar!
«Estou de passagem
amo o efémero»
(Eugénio de Andrade, 1990)
Os versos do poeta sintetizam o ‘drama’ da street art.
Desta feita, foi o spray can de um writer, em tirocínio, que resolveu testemunhar a sua (ainda) inábil capacidade técnico-artística. Ali escrevinhou qualquer coisa parecida com AiMOK (reconheço a minha enorme dificuldade em descodificar writings). Fez-me recordar o filme de Fyodor Otsep (1934) e a obra de Stefan Zweig (1922) Amok que esteve na sua génese (Relógio D’Água, 2013):
«–– Amok?… Creio recordar-me… é uma espécie de embriaguez… entre os malaios.
– É mais do que embriaguez… é a loucura, de uma espécie de raiva humana, literalmente falando… uma crise de monomania assassina e insensata, à qual uma intoxicação alcoólica não se pode comparar. (…) A causa é, sem dúvida, o clima, esta atmosfera densa e asfixiante que oprime os nervos, como uma trovoada, até que eles acabam por descarregar… (p. 37).
writer em causa devia estar com o amok. Descarregou a sua ‘raiva’ no corvo marinho de faces brancas e, indirectamente, no autor deste mural, assumindo-se, assim, como ‘assassino’ de obra de arte.
O corvo marinho bem deve ter tentado dar umas valentes bicadas no selvático writer quando este perpetrava o atentado à arte de rua e ao ambiente.
Se pudesse, o cormorão fugia dali. «Já estou um pouco farto deste “confinamento”; e mais agora, este pequeno mural, tal como está, não é digno de se ver. Vou dar uns mergulhos no mar costeiro, à procura de peixe fresco para me alimentar.» E, num desabafo final: «Gente desta não se recomenda!»

Luís Souta (texto e fotos)

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Dia Mundial da Língua Portuguesa


LINGUA PORTUGUESA
(dia da língua portuguesa 5 de Maio)

Poema repentista

Quantos mundos dentro das palavras da língua portuguesa
A palavra mundo empurra para o infinito
O infinito leva-nos ao espaço
O espaço transporta-nos à liberdade
A liberdade abre-se num grito
O grito interrompe o pensamento
O pensamento atrai o desassossego
que nos transporta a Pessoa
Pessoa leva-nos à poesia
Poesia e aí está Camões e o território da identidade da palavra
E os linguajares da favela
E a Jeni de Buarque
E os capitães de Amado
E os recados do Zeca
E a caverna do Saramago
E a tristeza da Florbela
E a firmeza de Natália
E a terra abensonhada de Mia Couto
Com a imaginação de Pepetela
E a senhora de Bramante do poeta maldito
E os escárnios de Bocage
E o povo que lava no rio
E das mornas de Cesária
À simplicidade de Samora
E tantas, tantas palavras de que nem me lembro agora,
Desta língua que é a minha, com que se ri e com que se chora.

Dores Nascimento (agora mesmo)


terça-feira, 5 de maio de 2020

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

HISTÓRIAS DA TERRA ENCANTADA
24

Sabes o que me parece? Não é preciso sermos pessoas de Fé para tomarmos como bom o princípio que os seres humanos, sendo membros de uma única espécie, são, por isso mesmo, dotados à nascença de uma dignidade infinita que os igualiza e, como tal, nos deve levar a vê-los como irmãos em plena igualdade de direitos e deveres. A verdade é que se partirmos desse pressuposto seremos capazes de orientarmos as nossas vidas segundo o propósito minimalista de, pelo menos, almejarmos agir sem que por consequência dos nossos actos venha qualquer mal para algo ou quem quer que seja. Isso que afinal é o princípio da idiossincrasia democrática, uma vez assumido pela maioria de uma população é o melhor antídoto para prevenirmos a guerra e a corrupção e muitas outras doenças das sociedades em que vivemos há mais de uma dezena de milhares de anos. Não é pois necessário que sejamos pessoas de Fé para querermos um mundo de paz e respeito pela vida humana, reconhecendo para os nossos semelhantes as possibilidades que para nós queremos de levar um quotidiano feliz e digno, de acordo com aquilo que pensamos ser o melhor para cada um de nós. Esse é o grande ensinamento que podemos extrair das ciências antropológicas, onde aprendemos a evolução da nossa espécie e o modo como o homo sapiens sapiens (1) veio sobreviver a todos os seus antecessores e antepassados e a espalhar-se por todos os continentes. Mas também onde nos habilitamos a perceber que a diversidade de culturas que temos criado ao longo dos tempos resultou sobretudo do facto de termos de lidar com respostas a variadíssimos meios ambientais e inúmeros ecossistemas. Multiplicidade essa que acabou por ser o segredo de termos chegado até aqui, apesar de todas as vicissitudes passadas, sem que uma centelha de esperança tenha deixado de brilhar no mais profundo dos nossos espíritos. Eis o principal legado que a Antropologia nos deixa e aos nossos vindouros. Com isto não estou, de forma alguma, a criar incompatibilidades entre a explicação racional e científica do mundo e o sentimento de nos acolhermos na Sua infinitude e vivermos com o ideal de irmos ao Seu encontro. Com efeito, se por este último caminho encontramos um guia para o nosso comportamento e os nossos pensamentos enquanto indivíduos, pelo outro deparamo-nos com instrumentos que nos proporcionam o entendimento das leis e composição do Universo em que vivemos que, se formos homens de Fé, acreditamos ter sido espoletado por Ele. É que na Terra encantada, os humanos vivem segundo as suas próprias leis. 


NOTA

(1) Mais uma vez chamamos a atenção para os avanços que a Paleoantropologia tem conseguido nos últimos anos, nomeadamente ao nível da actualização dos conceitos, sabendo hoje que apenas usamos a expressão homem sapiens para designarmos a nossa espécie.

 FIM

segunda-feira, 4 de maio de 2020

REAL... IRREAL... SURREAL... (394)


The Heart of the Andes, Frederic Edwin Church, 1859
Óleo sobre Tela, 168 x 302,9 cm

Frederic Edwin Church, nasceu a 4 de Maio de 1826, em Hartford, Connecticut e morreu em Nova Iorque a 17 de Abril de 1900.

Nascido em Hartford, Connecticut, seu pai, Joseph Church, ferreiro de prata e relojoeiro, e seu avô, Samuel Church, fundador da primeira fábrica de papel em Lee, Massachusetts, permitiram que Fredric seguisse sua paixão pela arte desde tenra idade. Com apenas 18 anos, Frederic Edwin Church se tornou aluno de Thomas Cole em Catskill, Nova York. Church estudou com Cole por muitos anos em sua casa e permaneceu amigo dele por toda a vida.

Church, um amante das maravilhas da natureza, viajou pelo mundo para encontrar sua inspiração. Durante sua vida, ele viajou para a América do Sul, Europa e Oriente Médio. Algumas de suas obras mais notáveis ​​incluem Equador (1855), Niagara (1857) e Cotopaxi (1862). Sua pintura, The Heart of the Andes (1859), agora residindo no Metropolitan Museum of Art em Nova York, foi vendida por US $ 10.000 em 1859, tornando-o o preço mais alto já pago por uma obra naquela época. seu uso da cor e representação de fenômenos naturais como arco-íris, névoas, vulcões e similares. Ele criou uma experiência estética realista, conectando-se emocionalmente ao seu público e dando vida a esses locais exóticos através de seu trabalho. Em 1849, ele se tornou membro da Academia Nacional de Design.

Selecção de António Tapadinhas

sábado, 2 de maio de 2020

ANTÓNIO TELMO. VIDA E OBRA.

LEITURAS

Editorial - Uma página renovada  

António Carlos Carvalho -  Uma questão de linhagem (novo) 

Risoleta C. Pinto Pedro - «As coisas das coisas» ou os segredos da Gramática  (novo)   

António Telmo -  O destino mais difícil de cumprir (novo)

António Telmo - Leonardo Coimbra, filósofo exemplar (novo)    

Dalila Pereira da Costa - Carta para António Telmo, de 3 de Novembro de 1981 (novo)  

Dalila Pereira da Costa - Recensão a Gramática Secreta da Língua Portuguesa (novo)



sexta-feira, 1 de maio de 2020

EG #122


ESTUDO GERAL
abril/maio      2020      Nº122

 “Difícil fotografar o silêncio. Entretanto, tentei.”
(Manoel de Barros)

Sumário
Quadras
Real…Irreal…Surreal
Diarística
Dar voz ao silêncio
Etnografia
Poesia
Fotografia


---------------------------------Fim de Sumário----------------------------------

terça-feira, 28 de abril de 2020

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Não há dia algum que a guerra no Iraque não traga notícias dos ataques sobre as forças aliadas e as unidades de segurança do novo poder iraquiano.

É evidente que ali lutam aqueles que perderam privilégios com a queda do regime de Saddam Hussein.
Mas o grosso do alarido é conseguido pelos fanáticos militantes da Al-Qaeda que bem compreenderam que ali levam a cabo um dos episódios mais sangrentos e decisivos da guerra que declararam ao mundo livre que, para eles, é superiormente representado pelos Estados Unidos da América.


Temo que estejamos a perder estas batalhas e com elas e pôr em jogo o equilíbrio mundial tal como o conhecemos.


Nem mesmo perante os raptos de civis pacíficos e inocentes usados como arma de chantagem sobre os poderes políticos do Ocidente, se consegue fazer acordar as opiniões públicas para os perigos apocalípticos que espreitam o nosso modo de vida.


Chegámos ao ponto em que ficamos desarmados perante o cinismo mais ignóbil de discursos radicais que deixámos afirmarem-se como representativos de populações muçulmanas sobre as quais os seus protagonistas interpretam verdadeiras tiranias dentro das nossas próprias leis e sistemas jurídicos. (1)


Virá um dia em que nos arrependeremos da falta de estatura política e moral daqueles que escolhemos para nossos líderes.



América, américa
tenho em a janela sempre aberta
de um porto seguro para as minhas filhas.



Uau!
Chegou o leitor de cd(s) que eu adquiri com o cartão do cliente da gasolina da BP.


Melhoria significativa da minha autonomia musical.



A Matilde tem aproveitado as férias da melhor maneira, com dias inteiros de brincadeira.

Hoje passou a tarde com a amiga Beatriz que neste momento dorme em nossa casa.

E agora que já sabe ler, é engraçado como ela passou a brincar com base nesse pressuposto.



A Margarida telefonou à mãe.
Está satisfeita mas cheia de saudades.


O resto da família também.


 Alhos Vedros
  09/09/2004


NOTA 

(1) Brezé, Thami, SE A INJUSTIÇA CONTINUAR, NÃO SEI ATÉ QUANDO PODEREMOS CONTROLAR AS PESSOAS, pp. 3 e ss 


CITAÇÃO BIBLIOGRÁFICA 

Brezé, Thami, SE A INJUSTIÇA CONTINUAR, NÃO SEI ATÉ QUANDO PODEREMOS CONTROLAR AS PESSOAS, Texto da Entrevista elaborado por Paulo Moura, Pública nº. 48, de 05/09/2004, In “Público”, nº. 5279, de 05/09/2004

segunda-feira, 27 de abril de 2020


A Liberdade Guiando o Povo, Eugène Delacroix, 1830
Óleo sobre tela, 260  × 325 cm 


Ferdinand Victor Eugène Delacroix, nasceu em Saint-Maurice, 26 de Abril de 1798 e faleceu em Paris a 13 de Agosto de 1863.

Delacroix é considerado o mais importante representante do romantismo francês. Na sua obra convergem a voluptuosidade de Rubens, o refinamento de Veronese, a expressividade cromática de William Turner e o sentimento patético de seu grande amigo Géricault.

O pintor, que como poucos soube sublimar os sentimentos por meio da cor, escreveu: "…nem sempre a pintura precisa de um tema". E isso seria de vital importância para a pintura das primeiras vanguardas.

in Wikipedia

Selecção de António Tapadinhas

domingo, 26 de abril de 2020

Manuel (D'Angola) de Sousa


“Cumpro Cabalmente Regras Certas E Dúbias Em Auto-Cópia 3D E/Ou À Mão” 

Cumpro com as regras desregradas e anómalas
Copio-me a mim mesmo pacientemente à mão
Pincelo e cinzelo as minhas curvas e dúbia silhueta

Agarro a pena com a mão esquerda e a tinta com a direita
Vôo com asas emprestadas duma borboleta acima da realidade
Encolho a ambição e poiso algures na pradaria

Misturo o vinho com água numa água-pé perfeita
A ferro e fogo extraio um alfinete entalado na garganta
Engulo em seco e a espinha atravessada no pescoço

Rebusco debaixo da pele indícios de tatuagens de há milénios
Sacudo as moscas e os moscardos dos ombros encolhidos
Abro o peito com uma chave-de-grifos francesa

Amarro-me sozinho ao poste dos sacríficos absurdos
Avanço para a berma dum vulcão activo sem intenções
Subo nas calmas os degraus de pedra da ingreme pirâmide

Ascendo ao cume pontiagudo para cúmulo do bom senso
Inalo os gases matinais da mais critica ascensão crística
Cristalizo-me misticamente em uma mistura de açúcares ancestrais…

Transformo-me em três ou mais ocasiões na cabalística árvore da vida…

Escrito em Luanda, Angola, por Manuel (D’Angola) de Sousa, a 25 de Abril de 2020, em Homenagem aos Autores Activos do 25 de Abril, dia da Revolução dos Cravos em Portugal, dia da queda do famigerado regime ditactorial fascista e colonialista de Salazar e da instauração da Democracia Portuguesa e que, culminou nas justas e reconhecidas Independências das ex-Colónias Portuguesas e de seus Povos respectivos, em todo o Mundo…

“Viva o 25 de Abril de 1974, dia da libertação do pensamento e da liberdade de falar e opinar, em Portugal…”

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Silêncio



Fotografia de Lucas Rosa


terça-feira, 21 de abril de 2020

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Portugal lá continua na mesma, como a lesma, mal em quase tudo, até no futuro. 


Do PS surgem debates no âmbito da corrida eleitoral para o cargo de secretário-geral. 

Apesar da prosápia ou atendendo a ela, Sócrates representa a continuidade do que de mais esconso teve o consulado de Guterres e não me parece que João Soares tenha força e vontade para cortar com aquela lógica de aparelho que rapidamente o manietaria em caso de vitória. 
Manuel Alegre é um avozinho simpático e ainda cheio de vigor físico. É verdade que ninguém lhe pode negar a coragem e a verticalidade de um caminho de quem, em hora incerta e aziaga, lutou pela liberdade. Mas por isso mesmo ele é um símbolo, uma referência, em termos práticos, uma referência moral e ética. Tenho muitas dúvidas que seja o homem com o sentido prático e a energia suficientes para levar a cabo as reformas que há para fazer no sistema político e até no interior do próprio partido e, a partir daí, tudo o que há para reformar na sociedade portuguesa em termos da educação, da saúde e da justiça. E também não me parece que, apesar dessa condição pessoal, ele consiga rodear-se de pessoas capazes de o secundar em tais desideratos. 

A verdade é que desde o distante PREC e o desenho vitorioso do vinte e cinco de Novembro, o Partido Socialista ficou refém de lógicas de interesses estranhos à ideia democrática e à democracia, enquanto organização social, com o que perdeu toda a margem de manobra para que ali se tivesse feito frente à vaga de promiscuidade entre poderes autárquicos e interesses particulares e, já com o guterrismo e os guterrões, tenha acabado por beijar o anel de verdadeiras lógicas mafiosas. 


E a nossa tragédia é que o PSD não consegue uma história muito diferente e também nele mergulham os tentáculos do polvo que se alapou no erário público e atrofia o nosso tecido social, impedindo-lhe o desenvolvimento. 


E agora toda a gente grita contra o processo de colocação de professores que se arrisca a deixar que se repita mais um começo de ano lectivo sem que os docentes estejam a tempo nas escolas com a agravante de, em face da extinção das diversas fases em que decorreram as colocações nos anos anteriores, desta vez, estarem no activo, nos estabelecimentos de ensino, apenas os professores que pertencem aos respectivos quadros que, infelizmente, estão muito longe de serem a larga maioria. 
Quer dizer, estamos em riscos de termos mais de metade daqueles profissionais a disporem de uma mão cheia de dias para prepararem as suas vidas e planearem as matérias e actividades curriculares. 


Alguém disse que estávamos no Burkina Faso? 


E os media batendo na interrupção voluntária da gravidez e no barco holandês que a oposição visitou e a marinha vigiou. 


Estamos na eminência de originarmos o paraíso criminal. 



Noite agradável de varanda e cigarro de pernas esticadas. 



Salzburgo tem um inesperado jardim zoológico em que muitos dos animais andam à vontade, sem quaisquer barreiras relativamente aos visitantes. 



“-Já lavaste os dentes, pardalito?” 
“-É evidente. A mãe está a dar-me o fluor, não está?” 


E eu sigo todo feliz, directamente para a estante onde os livros de histórias já se alongam por mais de três metros. 


Que rico quarto lhes construímos. 


Alhos Vedros 
  08/09/2004

segunda-feira, 20 de abril de 2020

REAL... IRREAL... SURREAL... (392)


Carnaval de Arlequim. Joan Miró. 1924-25
Óleo sobre tela, 66 x 90 cm

Nasceu a 20 de abril de 1893 em Barcelona.
Faleceu a 25 de dezembro de 1983 em Palma de Maiorca.

Quando jovem frequentou a Reial Academia Catalana de Belles Arts de Sant Jordi da Barcelona e a Academia de Gali. Em 1919, depois de completar os seus estudos, esteve em Paris, onde conheceu Pablo Picasso e entrou em contato com as tendências modernistas como o fauvismo e o dadaísmo.
No início da década de 1920, conheceu o fundador do movimento surrealista André Breton entre outros artistas. A pintura O Carnaval de Arlequim, 1924-25, e Maternidade, 1924, inauguraram uma linguagem cujos símbolos remetem a uma fantasia, sem as profundezas das questões psicanalistas surrealistas. Participou na primeira exposição surrealista em 1925.
Em 1928, viajou para Holanda, tendo pintado as duas obras Interiores holandeses I e Interiores holandeses II. Em 1937, trabalhou em pinturas-mural e, anos depois, em 1941, concebeu a sua mais conhecida e radiante obra: Números e constelações em amor com uma mulher. Mais tarde, em 1944, iniciou-se em cerâmica e escultura. Em suas obras, principalmente nas esculturas, utiliza materiais surpreendentes, como a sucata.
Vários anos depois, rumou pela primeira vez aos Estados Unidos e nos anos seguintes; durante um período muito produtivo, trabalhou entre Paris e Barcelona.
No fim da sua vida reduziu os elementos de sua linguagem artística a pontos, linhas, alguns símbolos e reduziu a cor, passando a usar basicamente o branco e o preto.
Algumas obras revelam grande espontaneidade, enquanto em outras se percebe a técnica feita com muito cuidado, e esse contraste também aparece em suas esculturas. Miró tornou-se mundialmente famoso e expôs seus trabalhos, inclusive ilustrações feitas para livros, em vários países.
Em 1954, ganhou o prêmio de gravura da Bienal de Veneza e, quatro anos mais tarde, o mural que realizou para o edifício da UNESCO em Paris[1] ganhou o Prêmio Internacional da Fundação Guggenheim. Em 1963, o Museu Nacional de Arte Moderna de Paris realizou uma exposição de toda a sua obra.
Em 1978 recebeu a Medalha de Ouro da Generalidade da Catalunha e o Prêmio Antonio Feltrinelli.

in Wikipedia

Selecção de António Tapadinhas

sábado, 18 de abril de 2020

FESTIVAL AMAZONIAS


 Para seguir o endereço do Programa clique na imagem
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FESTIVAL AMAZONIAS, 17,18 e 19 de abril (dia do índio)

Acontece entre os dias 17 e 19 de abril e será transmitido pelo Twitter do Greenpeace Brasil, ou pelo Instagram do Festival. A proposta é trazer reflexões sobre possibilidades de resistência e de vida nestes tempos de pandemia. Concebido como uma forma de ligar a floresta e as cidades, o evento, que seria realizado presencialmente em São Paulo, se adaptou para entrar nas redes. Haverá conversas, performances, música e filmes, com transmissão ao vivo pelas redes sociais.

Na sexta-feira, às 22 horas, a cantora indígena Djuena Tikuna abre o festival. Em parceria com a Greve Mundial pelo Clima. Gilberto Gil, Céu, Tropkillaz, Chico César e Felipe Cordeiro são alguns dos convidados. Mesmo separados fisicamente, devido às medidas de segurança em relação à Covid-19, eles se unirão em defesa dos direitos indígenas e da proteção dos territórios tradicionais.

O Festival Demarcação Já Remix é um novo desdobramento da campanha iniciada em 2017 pela demarcação das terras indígenas que mobilizou 25 artistas da MPB, como Elza Soares, Ney Matogrosso, Zeca Pagodinho, Maria Bethânia, José Celso Martinez Corrêa e Criolo, dentre outros. A canção-manifesto, composta por Carlos Rennó e Chico César, rodou o mundo e foi uma importante ferramenta na defesa dos territórios tradicionais e de seus povos. Assista o videoclipe:

Deixamos também a música "Viagem pelo Amazonas", no cd "Índio" de Fernando Girão, que faz história:

Índio, Fernando Girão

Ver as crianças brincando
nas margens do rio
pintando de luz e alegria
as águas do rio
consegue me enganar
e até me faz pensar
que o mundo vive em paz

dar aos meus olhos prazer
ao ver tanta beleza
sentindo o índio em harmonia
com a natureza

me diz o coração
que é nessa direção
que eu devo caminhar
me diz o coração
que o rio é uma lição
que a gente tem de estudar

e navegar, e aprender
tudo o que nasce tem direito a viver
e todo o homem
leva um rio dentro sem saber

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Graffitar a Literatura (XXVIII)


"Sinais da decadência - PVG"



«A nossa natureza reside no movimento; a calma absoluta é a morte.»
Blaise Pascal (1623-1662), Pensées, obra póstuma 
  
Estes são uns inusitados tempos em que a terrível pandemia é ampliada pela «virulência do jornalismo dos últimos dias (…) na informação poluente que as televisões nos fornecem» (António Guerreiro, Ípsilon 10/04/20, p.30). Parece estarmos a viver num contexto de «fim do mundo», déjà lu na ficção científica, só que, agora, transformaram-nos em actores de uma dessas narrativas distópicas.
Não é por acaso que, desta vez, vos trago dois murais do Bairro do Fim do Mundo, em São João do Estoril (Cascais), um escritor falecido em Abril (dia 30, de há quatro anos) – Paulo Varela Gomes (1952-2016) –, e o seu livro póstumo – A Guerra de Samuel e outros contos – editado, também num mês Abril.
1. O Bairro do Fim do Mundo é uma urbanização que tem a sua génese nos anos 70 do século passado. Ali se construíram 141 barracas que chegaram alojar 278 famílias. No início do PER, em 1993, o bairro albergava 619 pessoas (principalmente ciganos e africanos dos PALOP). As últimas 20 barracas viriam a ser demolidas em 09/06/09. Hoje, é um agradável e animado bairro social recheado de graffitis e murais! Escolhi dois para ilustrar este texto: o primeiro é uma marca identitária do bairro a que se pertence com orgulho. O segundo, o planeta Terra com a morte nas suas entranhas, é uma metáfora do tempo presente, e ilustrativa dessa decadência que o autor, que este mês aqui vos trago, defende no seu derradeiro livro.
2. Paulo Varela Gomes (PVG) foi professor de História no ensino secundário e professor associado na FCT da Universidade de Coimbra. Doutorou-se em Arquitectura e os seus trabalhos, como académico e crítico, centraram-se na história da arquitectura e da arte. Foi delegado da Fundação Oriente em Goa (1996-98 e 2007-09). Quando se aposentou, em 2012, dedicou-se, por inteiro, à literatura, tendo nesses quatro anos de vida, escrito seis livros (apesar de já minado por um cancro): livro de crónicas (escreveu regularmente no PúblicoJLExpressoBlitzOuro e Cinza (2014), e os romances O Verão de 2012Hotel (2014), Era Uma Vez Em Goa (2015), Passos Perdidos (2016), todos editados pela Tinta-da-china. Recebeu o Prémio PEN Narrativa e o Grande Prémio do Romance e Novela da APE 2015.
Mas a sua vida literária não começou nessa finitude da vida, como me deu conta num e-mail enviado, em resposta a um convite que lhe endereçara para participar no ciclo de Encontros sobre “Literatura & Educação ” que co-organizei com o autor deste blogue (LCS):
«Quanto ao romance Encontro à beira do Arno (Hiena Ed., 1999) está esgotadíssimo e assim espero que permaneça. Já não me reconheço nesses e em outros livritos que escrevi há trinta anos, excepto uma coisa chamada Peep Show (Black Sun Editores, 1987). Não é mau, experimental qb e “literatura maldita” mais que qbE assinada Heliogábalo, saiu nos Quatro Elementos Editores» [grupo editorial a que pertenceu juntamente com escritor Mário de Carvalho].
Foi também autor de documentários televisivos, designadamente “O Mundo de Cá” (1995), sobre a presença portuguesa no Oriente (cf. entrevista aos autores desta série
– PVG e Camilo Azevedo, Público Magazine, 15/10/95, pp. 19-24).
Para o conhecimento mais aprofundado de PVG, sugiro igualmente a leitura da entrevista concedida a António Guerreiro (“Retrato do escritor enquanto reaccionário e comunista utópico”, Ípsilon, 01/03/13, pp. 22-4).
O lisboeta, urbano e cosmopolita, Paulo Varela Gomes recolheu-se ao mundo rural onde veio a falecer na sua casa de Podentes, em Penela, a 30 km de Coimbra.
3. A Guerra de Samuel e outros contos (2017) «tem, tanto no tema como no tom, o aspecto de um texto testamentário: é uma visão decadentista do mundo e da civilização, e uma concepção da história que exige uma posição política face a ela» (“Histórias deste mundo e do outro”, António Guerreiro, Ípsilon, 09/06/17, pp. 28-9).
«Capítulo 4 - Nota sobre o tema “sinais da decadência”:
A decadência manifesta-se nas comunidades a que pertencemos por sete sinais que são as sete velas apagadas que nos vêm do futuro e os sete anjos com trombetas que não conseguimos ouvir. São estes sinais: o desfazimento da unidade, a in-diferença entre comunidades, a indistinção entre o bem e o mal, a ignorância da História, o desamor à terra, o abandono da criatividade.» (p. 33)
O autor desenvolve, depois, cada um destes sete sinais. Destaco aqui apenas um:
«O terceiro sinal da decadência – e o mais grave, porque é intercomunitário – é a indistinção entre o bem e o mal.
Muitos se têm espantado com o extraordinário retrocesso civilizacional ocorridos nas últimas décadas, no Ocidente, em relação às promessas do iluminismo e, mais tarde, do socialismo: o cinismo da acção política, a impunidade dos grandes grupos económicos, o terrorismo do estado, a indiferença de massas cada vez maiores de cidadãos perante toda e qualquer causa que não possa ter solução a curto prazo, a violência como modo de resolver conflitos e de exprimir o desequilíbrio e a raiva individuais ou de pequenos grupos. Na vitória da amoralidade que hoje campeia, teve peso determinante a actividade da mais poderosa máquina de produção e reprodução ideológica que a humanidade conheceu: a indústria visual norte-americana.» (pp. 35-6)
«Os julgamentos de Nuremberga, um dos acontecimentos mais importantes da história ideológica da humanidade, e um momento em que a decadência do Ocidente foi detida, vieram apor ao primórdio da lei o selo da legitimidade, declarando que massacrar é sempre um crime e quem o comete deve ser sempre condenado.» (p. 38)
«Olhando para o que sucede hoje em dia no coração das sociedades ocidentais, verificamos que, nos últimos trinta ou quarenta anos, a ideologia triunfante fez caducar tanto a Declaração Universal dos Direitos Humanos como as decisões de Nuremberga e promoveu a indiferença perante a desonestidade política, legitimou o assassinato e a tortura, fez passar por normal uma desigualdade socioeconómica como a história nunca conheceu.» (p. 39)

A personagem Samuel «tem traços de profeta bíblico» e o seu «pequeno ensaio» sobre a decadência «é como que uma aula somada a um sermão, constitui uma perturbadora experiência ao mesmo tempo filosófica e paranormal» (p. 32).
Talvez por tudo isto, o crítico literário António Guerreiro, na sua coluna de opinião no Ípsilon, 21/11/14, p. 33, tenha colocado o seu amigo Paulo Varela Gomes na categoria de «reaccionário letrado».

Luís Souta (texto e fotos)

terça-feira, 14 de abril de 2020

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

E pronto, este que foi um diário anunciado está a chegar ao fim. Ainda não sabemos quando será o início do novo ano lectivo mas, seguramente, tal sucederá na próxima ou na semana seguinte, pelo que estas páginas estarão em vésperas de encerramento e com elas me despedirei desta minha experiência por este género. Como não conto vir a ter um terceiro filho, condição em que só por razões de força maior não repetiria a gracinha, dificilmente encontrarei motivo para voltar a escrever qualquer trabalho neste domínio. Será pois este um volume de adeus, com o qual porei um ponto final neste capítulo da minha obra literária. 
Com os quatro livros e oito volumes que produzi tendo como objecto estruturante as vidas das minhas filhas, considero que elaborei um conjunto coerente e harmonioso que, para além da originalidade que, por si, justifica literariamente a sua existência, tem ainda o interesse adicional de registar os tempos que passam num quarteto de ocasiões que se intercalam por um período total de dez anos e meio. 
Assim, creio sem qualquer constrangimento que posso tomar esta tetralogia como uma peça suficiente para representar um projecto completo no âmbito da diarística. Em conformidade, em tal quadrante, a mais não me sinto obrigado. 
Igualmente concluo as “Histórias da Terra Encantada” que se repetiram pelas seis parcelas dos livros relativos ao princípio da escolaridade e que mais não são que uma pequena colectânea que marca a minha passagem pela divulgação científica para os mais novinhos, à qual, naturalmente, não voltarei. Sem embargo, no contexto destes diários e como sua parte integrante e estruturante, são aquelas o complemento pela minha deambulação pela chamada literatura infantil, cuja primeira vertente agrupou os contos a que chamei da Lua encantada, âmbito sobre o qual já não posso dizer que não volte. 
Por ora fica a certeza de ter ultrapassado mais uma etapa da minha vida de escritor que não deixará saudades nem me merecerá qualquer destaque especial, mas que sempre permanecerá como uma grata recordação. 
Resta o desejo que as leituras tenham sido agradáveis e em elas, aqueles que tenham a bondade de me ler, possam encontrar algo que lhes prazenteie os momentos em que tenham partilhado a companhia. 
Um grande saravá para todos vós.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

REAL... IRREAL... SURREAL.... (391)

A Entrada de Cristo em Bruxelas, James Ensor, 1888
Óleo sobre Tela, 252,7 x 430,5 cm

James Ensor nasceu em 13 de Abril de 1860, em Ostende, Bélgica e faleceu a 19 de Novembro de 1949.
James Ensor foi um pintor expressionista belga do final do século XIX e início do XX.
Pelo seu estilo inovador e polémico, influenciou vários pintores expressionistas e surrealistas do seu período e dos posteriores.
Interessado em artes desde a adolescência, Ensor estudou na Academia Real de Belas Artes de Bruxelas dos 17 aos 20 anos de idade.
Fez sua primeira exposição aos 21 anos de idade.
Entre 1880 e 1917, teve seu atelier artístico no sótão da casa de seus pais, em Bruxelas.
Fez viagens para França, Holanda e Inglaterra, entre os anos de 1880 e 1892.
Entre 1883 e 1893, fez parte do grupo, de pintores e escultores belgas, conhecido como “Os Vinte”.
Em 1888, fez e apresentou sua pintura mais polémica: A entrada de Cristo em Bruxelas.

in guiadasartes

Selecção de António Tapadinhas

sábado, 11 de abril de 2020

Dar Voz ao Silêncio


VII. Da Ressurreição - Cântico dos Cânticos

Descansam os ventos, suspendem as chuvas
e sossegam ás águas dos mares, deslizam
os anjos vão acima, vão abaixo
e ladeiam um canal de luz, mais que luz
iridescente,
harpas e tamborins, uma flauta de pan
aproveita-se toda a claridade do luar
e, por detrás, um cântico dos cânticos

Um mel etéreo que escorre do céu,
devagar,
uma vibração que nem voz, um ânimo
um aconchego, um calor no peito
e por esse canal que nem luz
lá vai Jesus, quarenta e sete dias
depois do Carnaval,
primeiro domingo depois
da lua cheia equinocial, um dia
especial o primeiro de abril

Lembramos um Professor que também
partiu num domingo de Páscoa,
não se percebeu se foi ele que escolheu
ou se decidiram por si,
sabemos que segundo diz
nasceu onde quis
e fez do seu berço Portugal,
a Língua Portuguesa e a Ibéria,
tudo junto, e adiante
um pensamento ecuménico

Na cruz floresce uma rosa
de dentro do meio da dor,
o amor
uma flor na primavera,
ou muitas cores, muitas flores
porque se é feio também
há-de ser bonito, e se tem mal
bem também tem, o meu bem
ou nem isso, tudo é Um só
tudo junto, é a suprema beleza
da natureza, tão rija e forte
mas é doce e é bela, é Ela
uma mulher, Maria
Trindade, tudo no mundo

Pelo tal canal sobe uma luz
uma energia subtil, cor de rosa
e azul, um brilho azulado, uma taça
e uma chama. És tu!
É uma roda viva de vidas infinitas
raras e preciosas, o tal vitral
um cristal, uma ponte, uma passagem
uma miragem no deserto
uma fonte de água cristalina
um riacho, uma lagoa
uma flor de lótus

É o fim da dor
Deus dos ateus até
e tu vais, ou não vais, vais
ter de escolher, ou de reconhecer
o que é igual, a paz do lugar enfim,
e a música é o cântico dos cânticos
o bater das asas dos anjos
uma pomba branca refeita
e a pauta são os fios de luz
onde pousam as andorinhas

O céu é azul, os campos são verdes
e castanhos correm os rios
a caminho da foz.
Tudo é aqui e agora.
É esta a hora.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

VI. Da Crucifixação da Primavera (3)


3º andamento – canto à capela

Erguem-se as vozes no altíssimo tom
línguas de fogo entre o céu e a terra
preces que evitem a vil desmesura
do sacrifício nos pedidos de perdão
que trazem a natureza em agonia

adensam-se medonhas tempestades
encolhem-se ainda mais os corpos
rubros os olhos de sangue as lágrimas
os gritos e gemidos aflitos e infinitos
os coros de vestes pretas das velhas

mas o temporal vai ter de passar
levantem-se todas as ondas do mar
e o velho monstro hediondas trevas
do fundo dos abismos trespassado
no catavento de uma vela triangular

quinta-feira, 9 de abril de 2020

VI. Da Crucifixação da Primavera (cont.)


2º andamento - uma valsa redonda

Contam-se por poucos dedos da mão
os ténues momentos em que os pés
se aqueceram quando o céu se abriu
em tempo a valer que Deu para ver
paraíso de budas, quinta dos Lóridos

logo a seguir outra vez o breu que deu
das lembranças de um céu que pesa
sobre as cabeças do ignorado amor
da dor, do sofrimento que se paga
do regresso da dívida da má ação

da roda da vida infinita que não pára
do paraíso dos maus sinais habituais
na rede social da impura banalidade
e da perca da sacralidade dos tempos
de uma áurea idade que tão tarda

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Dar Voz ao Silêncio

VI. Da crucifixação da Primavera

1º andamento – uma marcha silenciosa e triste

Toda a natureza se trás contrariada
contraída e dobrada sob si própria
cinzentas as horas dos quarenta dias
porta de entrada de semana santa
que insiste e persiste no mau tempo

o frio que se estende nas flores
do vento que não cessa nas dores
das costas que rangem a humidade
das chuvas inesperadas pelas horas
de secas infinitas do mau augúrio

ainda se ouvem o arrastar das cruzes
da crucificação dos justos abandonados
à sua sorte deixadas as gentes, inocentes
os abraços da fé na universal proclamação
da divina igualdade sob o brilho do sol


Luís Santos