Um guerreiro da luz sabe o que quer. E não precisa explicar.

(Paulo Coelho)


terça-feira, 14 de junho de 2011

O BARDO NA BRÊTEMA


Música e literatura

Por Rudesindo Soutelo(*)

As nove filhas de Zeus e de Mnemósine (deusa da memória), passaram de ser ninfas dos rios a integrar um coro feminino acompanhado pela lira de Apolo para deleite do divino Olimpo grego. Estas nove deusas foram chamadas de musas e daí procede a palavra ‘música’ (musiké téchno) que significa a arte das musas.

Mas as funções e atributos das nove musas eram muito diversificadas, assim, Calíope inspirava a eloquência; Clío tratava da história; Erato sugeria a poesia lírica; Euterpe insinuava o verso erótico; Melpômene inflamava a tragédia; Polímnia iluminava os hinos sacros; Tália ilustrava a comédia; Terpsícore adornava a dança; e Uránia derramava luz sobre a astronomia. Nas origens gregas a música seria, pois, muito próxima do que no século XIX Richard Wagner concebia como a obra de arte total. A música era, também, uma extensão dos sentidos no tempo e no espaço. Mas tudo isso não invalida a perspetiva semiótica, a que considera a música e as artes como sistemas de linguagem diferenciados.(1)

O som da palavra e o som da música podem ter um mesmo berço mas em todas as culturas se afirmaram como realidades separadas. Não há unanimidade em quanto a qual dessas duas realidades sonoras assumiu a função de modelador primário na história intelectual da humanidade. São muitos os autores que lhe pressupõem à linguagem verbal processos cognitivos mais apropriados para essa função mas não faltam os que acreditam ser a música a que melhor se adapta. Assim, o etnomusicólogo John Blacking, num artigo incluído no livro The Sign in Music and Literature, sustenta que ao tentar compreender as estruturas elementares do pensamento humano, conclui-se que a música é mais adequada que a linguagem verbal para revelar as exigências puramente estruturais de um sistema de símbolos.(2)

O livro O estilo e a ideia –uma compilação dos artigos que o compositor Arnold Schoenberg foi escrevendo ao longo da sua vida– abre com um texto publicado em 1912 onde afirma que são poucas as pessoas capazes de compreender, em termos puramente musicais, o que a música expressa. Supõem-se que uma peça musical deve conter imagens duma outra espécie e quando estas não se manifestam considera-se que a obra carece de valor. Schoenberg atribui esta fraca capacidade de compreensão a uma mediocridade intelectual.(3) Não obstante, no final do livro faz um esclarecimento sobre a interpretação de obras musicais com texto, no sentido de que a expressão de ambos –música e texto– devem sumar-se e não contradizer-se.(4) Mas a música e a literatura –seja esta em prosa ou poesia– podem expressar a mesma coisa? Não faço ideia como, utilizando a linguagem puramente musical, eu possa pedir um copo de água fresca.

O mais temido crítico musical do século XIX, Eduard Hanslick, na sua obra Do Belo Musical afirma, com argumentos científicos, que os sentimentos não são o conteúdo da música(5), e conclui que na música ‘conteúdo’ e ‘forma’ são a mesma coisa: os próprios sons.(6) Daí que para Hanslick as emoções na música sejam efeitos secundários da linguagem formalista.

Neste percurso pelos encontros e desencontros da música e a literatura, Ricardo Barbosa, num ensaio sobre Música, racionalidade e linguagem, esclarece que “Um ouvido musical –na sua forma ideal– seria um ouvido que ‘pensasse’ musicalmente”(7) , pois o que a música comunica é simplesmente música.

A música parte da abstração formal para construir uma narrativa simbólica. A literatura parte do concreto, da representação, para aventurar-se temporariamente na abstração. Ambas fazem percursos contrários mas no caminho cruzam-se e relacionam-se. Desse contacto artístico entre a música pura e a literatura, Calvin Brown reconhece três modalidades de expressão: a) a música na literatura; b) a literatura na música; e c) a literatura e a música.(8)

Os antigos gregos eram verdadeiramente sábios quando a tudo isso lhe chamaram simplesmente música.

(*) Compositor e Mestre em
Educação Artística.

© 2011 by Rudesindo Soutelo
(http://www.soutelo.eu)
(Vila Praia de Âncora: 27-V-2011

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(1)Ribeiro de Oliveira, S. (2002). Literatura e música. S. Paulo (Brasil): Perspectiva, p. 28.
(2)Barbosa, R. (2007). Música, racionalidade e linguagem. In R. Duarte, & V. Safatle, Ensaios sobre música e filosofia (p. 336). São Paulo: Associação Editorial Humanitas, pp. 185-186.
(3)Schönberg, A. (1963). El estilo y la idea. Madrid: Taurus, p. 25.
(4)Ibid. pp. 278-280.
(5)Hanslick, E. (2002). Do belo musical. Lisboa: Edições 70, p. 23.
(6)Ibid. p. 101.
(7)Barbosa, R. op. cit. p. 17.
(8)Brown, C. S. (1948). Music and Literature. A Comparison of the Arts. Athens: University of Georgia Press.

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