sábado, 21 de dezembro de 2013

Paris – Place Vendôme


por Franscisco Gomes Amorim

Paris.. é Paris. C’est toujours Paris. Cidade maravilhosa, com o Sena a serpentear lá por dentro, as suas pontes, a Torre Eiffel e o Arc du Triomphe, o Louvre, a Ópera, o Museu d’Orsay, a Notre Dame e a Sainte Chapelle, e mais uma infinidade de pontos turísticos sem esquecer o Moulin Rouge e Lido, a gastronomia, e por aí vai.

É verdade, o Óbelisque, roubado em Luxor aos egípcios, plantado no início dos Elíseos Campos, e logo ali ao lado, a famosa Place Vendôme, que além duma belissima arquitetura que data do início do século XVIII, 1702 a 1720, projetada em 1699, ostenta as lojas de tudo quanto é absurdamente caro, para que os “emergentes” exibam as suas fortunas, com roupas, perfumes, jóias, relógios e outras inutilidades mais, e onde os especuladores aplicam em diamantes, ouro e qualquer outra coisa com que possam um dia, ganhar ainda mais dinheiro. São botecos como Cartier, Louis Vuitton, Van Cleel & Arpels, Mikimoto, Breguet, Chanel,etc. Coisa de caipiras! Ah! E um hotelzinho “brega”, o Ritz!

Apesar de ser um dos centros mundiais do desperdício e esbanjamento de dinheiro, a verdade é que uma passadinha pela Place Vendôme sempre vale a pena a quem vai a Paris, nem que seja para olhar o obelisco, mais coluna que obelisco, que está no centro da praça e que tem uma história curiosa, e ver a placa recordando que num dos prédios viveu Chopin.

Naquele lugar, em 1698, nem tinham começado as obras dos edifícios circundantes, começou por ser colocada uma estátua ao, ainda em vida, Luis XIV, o Roi Soleil, o rei do “L’Etàt c’est Moi” e roi ainda de outras humildades. Aliás foi este rei quem acabou com as trocas da propriedade que tinha sido primeiro do Duque de Vendôme, comprando-a ao último proprietário e oferecendo-a à cidade. Mereceu a estátua.

Cem anos depois chegou a Revolução Francesa com a sua Liberté, Egalité, Fraternité e guilhotiné e a estátua do orgulhoso Luis foi apeada e destruída e fundida. Não tardou a que Napoleão andasse a dar bordoada pela Europa fora, vencendo exécitos de tudo quanto era lado, regressando a Paris carregado de despojos militares. Sujeito de ideias, e atitudes, audazes, mandou que fundissem uns mil – 1.000 – canhões de bronze para erguer um memorial às suas vitórias. O local escolhido para erguer esse monumento foi o centro da Place Vendôme, onde, após o Luis XIV ter sido despedido, às pressas fora erguida uma coluna que era suposto representar uma estátua à liberdade. Provavelmente não seria uma obra muito artística, e depois das vitórias de Napoleão em Austerlitz, ele ordenou que essa coluna fosse substituída pela que se vê lá agora, com a estátua de si mesmo em traje de imperador romano na parte superior da dita coluna, que deveria chamar-se “Colonne de la Grande Armée” em homenagem aos seus soldados.

Construída em pedra, envelopada até a parte superior numa fita contínua de placas de bronze com baixos-relevos, com cenas da campanha austríaca. Esse bronze teria saido da fundição dos mil e duzentos canhões capturados em Austerlitz. No entanto, Napoleão parece ter sido um pouco mais modesto, pois no anúncio que ele emitiu para seus soldados no dia seguinte a esta batalha (3 de dezembro de 1805), diz-lhes que eles haviam capturado trinta mil prisioneiros, vinte generais e cento e vinte canhões. Hoje sabe-se que foram cento e trinta e três os canhões capturados!
A Coluna Vendôme, nome por que ficou sempre conhecida, foi inspirada na coluna de Trajano, em Roma, mas um terço mais alta do que a romana, tem 44,3 metros de altura.

Como seus antecessores, a coluna que Napoleão colocou sofreu também algumas mudanças. Durante os turbulentos anos que se seguiram à restauração sua estátua foi substituída duas vezes, e uma vez ela mesmo veio abaixo da cabeça aos pés. Quando a estátua de Louis XIV foi arriada do seu pedestal, a estátua de Henrique IV, que estava na Pont-Neuf desde que esta ponte fora construída, foi arriada e derreteu também com os canhões. Mas quando Louis XVIII assumiu o trono, ele quis colocar Henry de volta na ponte. A fim de obter o bronze, ele tinha a estátua de Napoleão que retirou da coluna e refundiu a do Henry IV, que voltou para a sua velha ponte. No entanto, isso não é razão para a expressão divertida que se vê agora na cara de Henry. Ele tem exatamente a mesma expressão sobre as notas de cinquenta francos franceses, pois ele era um rei muito bom. De qualquer forma, foi a primeira experiência humilhante para a Colonne de Vendôme.

Para poder ter alguma coisa em cima da coluna, Louis XVIII colocou lá uma flor de Lis enorme, mas quando Louis-Philippe chegou ao poder ele voltou a pôr Napoleão no alto da coluna, mas desta vez vestido com seus trajes de soldado. Mas isso não é tudo ainda. Quando a França se tornou um império pela segunda vez, Napoleão III substituiu Louis-Philippe, e torna a colocar no alto da coluna o primeiro Napoleão, novamente vestido como um Imperador Romano, tal como continua hoje. Napoleão, com a sua farda militar foi parar nos Invalides!

A experiência mais humilhante e final veio durante a revolta de 1871, quando o município conseguiu derrubar a estátua mais uma vez, com coluna e tudo. Esse ato de vandalismo é dito que foi organizado pelo pintor Gustave Courbet, um dos membros da Comuna de Paris, cujas pinturas se encontram no Museu do Louvre.
Felizmente, os destruidores planejaram o seu trabalho de tal forma, com a colaboração do Museu da Artilharia que a coluna caiu, muito bem, mesmo na Rue de La Paix! Diziam que a ideia era transferir a coluna para a Place des Invalides.

A derrubada da coluna sob os aplausos do povo!


A coluna só voltou ao seu lugar em 1875 depois que a França mais uma vez se tornou República, por ordem do Presidente Mac-Mahon, e como o seu peso é estimado em duzentos e cinquenta e uma toneladas é provável que por lá permaneça ainda muito tempo.

Mac-Mahon condenou Courbet a pagar a reconstrução da coluna, pagando 10.000 francos por ano durante 33 anos. Courbet safou-se dessa porque morreu antes de pagar a primeira parcela!

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Livros d'África

Pedro Rosa Mendes 







“Este é um livro sobre coisas simples: a tranquilidade do medo e a vitalidade da morte. Em Junho de 1997 aterrei em Luanda com a intenção de atingir Quelimane por terra. A razão para tal projecto era a mais nobre de todas, ou seja, nenhuma em especial. Estas páginas são o atlas para ler essa travessia: a cartografia afectiva de uma rota cujos locais têm rosto de gente e onde espaço e tempo são as coordenadas que mais mentem.
Avisaram-me todos: a guerra permanecia nessa latitude. Houve baixas entre os companheiros de estrada.
O meu regresso também não estava prometido.”

Depois de ler esta nota introdutória quem pode ficar indiferente? O livro intitula-se “BAÍA DOS TIGRES”, foi publicado pela Editora Dom Quixote em 1999 e é um dos meus livros de cabeceira. O autor, um jornalista português nascido em 1968 em Cernache do Bonjardim, propôs-se imitar os passos dos exploradores Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens, voltando a percorrer os caminhos por eles traçados no século XIX, que os levaram de Angola à Contracosta.
O resultado é a descrição de uma viagem preenchida com sensações fortes, onde percorremos paisagens naturais e humanas de uma intensidade cativante. Vamos assistindo horrorizados aos monstros e monstruosidades que a(s) guerra(s) gera(m). Mas vemos também as singularidades do continente africano, coisas pequenas, onde residirá aquele feitiço que agarra e prende a quem o visita:

“O comboio parou num apeadeiro, em pleno deserto, e do nada surgiram vendedores de comida. Uma rapariga anunciou, a toda a carruagem, que queria aliviar, e ajudaram-na a chegar das escadas ao chão, onde se agachou dentro duma capulana colorida. Vista de cima parecia uma ave a proteger-se do vento. Ao descer quase caiu em cima do revisor, que estava bêbedo desde manhã.
- Pode urinar aí. Mas não cai em cima de mim!
O revisor, cambaleando do lado de fora da carruagem agarrado a uma bandeirinha vermelha rota e imunda, escapou por pouco a ser regado por um rapaz que não se deu ao trabalho de sair da composição.
- E você, não urina em cima de mim! Eu lhe proíbo!”

África.

“Lembro-me de chegar à cidade e de o autocarro parar no fim dessa avenida, numa praceta quadrada de casas térreas. O autocarro cheirou a tangerina depois da Humpata. O Namibe cheirava a bolos. Havia uma padaria ao canto da praça.
- Bom dia! São vocês que estão a fazer bolos?
- Somos. Mas hoje não estamos a fazer.”

África.


É uma obra belíssima, simultaneamente dura e leve, pura literatura de viagens, que é pecado não ler.


Tomás Lima Coelho

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA ( 2ª. SÉRIE)

Despede-se aqui esta segunda série das "Conversas na Galeria".

À Carola Justo, ao Luís Delgado e à Celeste Beirão, um agradecimento do tamanho da Lua, pelos bons momentos de pintura que nos proporcionaram e por todo o enriquecimento artístico que trouxeram a este espaço.

A "D'Arte" voltará em Janeiro, para uma nova série. Até lá, a nossa vénia a todos os que nos visitam e já fizeram desta praça um dos seus lugares de leitura e de comunhão de Arte e Ideias.

Um Ano de 2014 em Paz e com muita saúde, para todos.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Alhos Vedros 500 Anos de Foral


Igreja Matriz de Alhos Vedros

Sobre as Origens de Alhos Vedros

Um dos textos mais antigos que se conhecem escritos em Português é o testamento de D. Afonso II, datado de 27 de Junho de 1214. Recentemente foi descoberto um outro “A Notícia de Fiadores”, de 1175, que faz recuar no tempo a história da escrita da Língua Portuguesa.
Sobre Alhos Vedros, um dos textos mais antigos que existe, senão o mais antigo, refere-se à sua Igreja e remonta ao ano de 1236.*

É sabido que D. Afonso Henriques, no movimento de reconquista do território peninsular, então ocupado pelos mouros, chega a Palmela em 1147, ano em que se dá início a alguns avanços e recuos territoriais entre cristãos e árabes. A conquista definitiva desta vila só acontece no ano de 1205 com D. SanchoI.

Reza a lenda que por estas alturas, corria em Alhos Vedros um Domingo de Ramos, estavam as suas gentes a comemorar missa na Igreja Matriz quando do alto do serrado de Palmela desciam os mouros para guerrearem com os cristãos.

Avisados da invasão, socorreram-se os habitantes do lugar com aquilo que tinham mais à mão e com as palmas com que comemoravam os ofícios divinos conseguiram derrotar e afugentar o exército inimigo. Dada a clara e inesperada vitória foi de milagre da Nossa Senhora que se tratou. É por isso que, desde então, de forma mais ou menos ininterrupta, se organiza procissão em honra da Nossa Senhora dos Anjos.(**)

A lenda tem pouco valor histórico, mas não erraremos muito se pensarmos que Alhos Vedros se terá constituído como lugar, pelo menos, lá para os inícios da formação da Nação. Mas a pergunta persiste, qual será a sua verdadeira idade?


Luís Santos


(*) SILVA, Víctor, Contributos para a História Local do Concelho da Moita, Vol.1, Edição do Autor, 2005, p.152

(**) idem, p. 144-145

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA



Pelas piores razões, vimo-nos forçados a interromper a nossa estada em Paris, onde alugámos um pequeno estúdio mesmo no prédio ao lado daquele onde mora o meu filho mais novo, justamente para que deles estivéssemos perto e deles pudéssemos partilhar o calor e o afecto de uma família maravilhosamente tranquila e feliz e, naturalmente, estarmos assim em posição de acompanhar os rebentos que estão cada vez mais crescidos e tanto gosto dá ver desabrochar como pessoas que se fazem de bem e com saúde e inteligência que é o que se pode concluir da compostura e delicadeza daquelas crianças que por isso não deixam de ser vivas e brincalhonas como todos os petizes devem ser. Pensávamos regressar depois do Verão, altura em que terei que tratar dos trâmites finais da minha aposentação e até lá contávamos fazer mais algumas surtidas a outras cidades estrangeiras – relativamente aos franceses, como é bom de entender – e para que, ao mesmo tempo que a proximidade nos presenteia e apaparica com os miminhos dos netos, não incomodássemos o quotidiano das suas vidas com a sobrelotação do espaço, aproveitámos a feliz oportunidade de arrendar aquilo que logo nos pareceu um ninho digno de enamorados e do qual fizemos o porto de abrigo das nossas andanças por outras paragens naquela região da Europa. Vá lá que estávamos em casa quando recebemos primeiro o telegrama e depois o telefonema da Mariana, dando a notícia do violento ataque cardíaco que o pai sofrera na noite anterior e que o lançara para um coma profundo do qual, os médicos, desde o primeiro momento disseram que dificilmente sairia. De outra forma muito provavelmente não teríamos como chegar aqui a tempo de o acompanharmos até a sua última morada. Pelas peripécias de marcar e obter um voo para Lisboa num repente de urgência, não me parece que o tivéssemos conseguido. Seja como for, viemos assim que pudemos e infelizmente chegamos na manhã em que aquele ente querido faleceu. Pelos piores motivos, portanto, tivemos que suspender a nossa licença parisiense para podermos estar presentes no funeral do amigo que para todo o sempre partiu. Escrevo ente querido e amigo pois é exactamente disso que se trata; sempre que penso nesta última palavra, é dele um dos rostos que me aflora ao cérebro. O senhor Abel era um ser humano fantástico que jamais se deixou abater e sempre conseguiu encarar a vida com a perspectiva de nunca deixar de procurar os lados ou os aspectos de que pudesse obter algo de positivo mesmo nas situações mais árduas e dolorosas. Era um homem de paz, ainda que fosse capaz de erguer o braço e lutar com fulgor e tenacidade e era alguém que procurava que aquilo que pudesse unir uns aos outros se sobrepusesse ao que divide e separa a menos que no essencial não fosse encontrável qualquer espaço para que se lançassem os alicerces das pontes em que tal acontece ou pode acontecer. E sabia ouvir e respeitar as opiniões alheias, jamais deixando de aceitar a democracia de uma decisão com que não concordasse. Nesse aspecto, aqui na comunidade e nestes últimos anos na associação, onde levou até ao fim a sua organização de passeios culturais e didácticos, como ele por fim dizia, era um verdadeiro exemplo de cidadania e apesar de se considerar comunista e de ter gosto em afirmar-se inscrito como simpatizante – ele era da opinião que não tinha autoridade e competência para se dizer militante – do partido, comportava-se como um democrata que punha a um canto muito boa figura desse bando de oportunistas que andam por aí a tratar da vidinha, das suas vidinhas particulares. Era também um ser humano bastante inteligente que aprendeu inglês e alemão bem perto dos cinquenta e, apesar de não ter grandes ocasiões para se desempoeirar em tais domínios, chegou a ler alguns textos no original. Era a sua faceta auto-didacta que o levou a estudar Física nas horas vagas com o mesmo intuito, como ele dizia, sempre com um sorriso, de tentar compreender o Universo e ver onde é que nós nos podíamos situar nessa infinitude. Já tenho saudades dos seus pensamentos e do seu humor sibilino e simultaneamente tão humano, tão profundamente humano. O senhor Abel era sapateiro quando chegámos aqui, ofício que aprendera para que pudesse fazer frente às imperiosidades de ganhar o sustento e o agasalho, primeiro para si e depois para si e as mulheres do seu coração e tinha um sorriso franco e que amiúde lhe brotava nos lábios a propósito de qualquer acontecimento do dia a dia, sequer dele se esquecendo quando eram abalos e borrascas aquilo por que estava a passar, pois, desde a mais tenra idade que sabia, tal como ele uma vez explicou, para lá do pensamento e como expressão deste, a única coisa que resta ao pobre e ninguém lha pode tirar era e é e sempre foi, precisamente, a capacidade de se rir de tudo e todos os que de alguma maneira concorrem para esse estado de pobreza em que aquele vive. Ainda bem que chegamos a tempo de assistirmos à sua última viagem, muito embora eu não tenha querido ver o cadáver. Prefiro guardar-lhe a memória das feições enquanto vivo.
Parece que o estou a ver com olhos de miúdo brilhando quando lhe surgiu a ideia para o nome que poderia substituir aquele que propusera e fora rejeitado pelo peso provocatório que, à época, consistiria para as autoridades. “-Já sei, vamos chamar Vale da Esperança.” –E foi assim que ele acabou por encontrar o nome para a comunidade em que vivemos e agora abandonou para o seu último sono.
Paz à sua alma.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

REAL... IRREAL... SURREAL... (59)

VENEZA ACOLHEU EXPOSIÇÃO DE NADIR AFONSO
Eu sei que há uma harmonia na obra de arte, mas para ser sincero nunca tentei compreender quais os laços que existem entre ela e a harmonia no mundo. Um quadrado com um círculo cria uma nova relação difícil de encontrar, mas são essas formas elementares, essas leis, que me tocaram. Se fossem as mesmas, muito bem, mas eu não andava atrás das leis do universo. Nada me faria sair das leis que encontrei nas formas da natureza, nas formas simples.

Nadir Afonso
(Chaves, 4.12.1920 - Cascais, 11.12.2013)
http://www.nadirafonso.pt/

domingo, 15 de dezembro de 2013




O SOL, O CAVALO E A ERVA
(Continuação I)



Aprender, pois.
Aprender porque, é sempre necessário aprender mais para mesmo que sem sair do mesmo sítio se poder ir mais além.
Mais além porque, esta(s) realidade(s) incomoda(m) de mais.
De mais porque, o olhar vagabundo na sua infinita curiosidade, se machuca nos contornos que encontra, as ideias em reflexão eriçam um sentir que desagua em revolta.
A revolta é um sentir que se deve evitar como ponto de chegada ou lugar de estacionamento.
Porque a revolta seca, azeda e agita e gostamos mais de calma, de mel e espigas e do barulho da água gorgolejando na entrada dos esteiros.
Esteiros porque, é de um rio que falamos.
Rio que, ainda que com braços que o ramificam e margens que o estreitam ou alargam, só tem uma nascente e, também, uma só foz e é o percurso entre uma e outra que lhe conferem utilidade e beleza.
Rio como metáfora de vida.
Vida que se deveria interpretar como desígnio de fecundidade e fraternidade.
Fraternidade porque, «por fim talvez sejamos irmãos».
Irmãos não se pisam uns aos outros quando caídos, ajudam-se a levantar.
Porque é de pé que melhor se podem olhar nos olhos e abraçar.
E depois, juntos, lado a lado, construir as realidades em que melhor nos realizemos.
É claro que alguns se auto-excluirão por não ser essa a sua natureza ou condição.
Esses também farão parte da história só que de uma outra.
Talvez assim e então, as pessoas não necessitem abandonar as suas casas e mesmo o seu país, e as ruínas cedam o lugar a novas fábricas onde seja possível laborar e ganhar o pão de cada dia.
Quanto ao cavalo, esse é desejável que possa continuar a pastar a sua erva fresca e o sol poderá continuar a brilhar talvez até com maior propriedade já que mais consentâneo com a realidade.


Pintura de Luís Delgado (óleo sobre tela)



sábado, 14 de dezembro de 2013

A Modos de Meditação - O Espírito entornado


Deus anda por aí a estender-nos a Mão

António Justo

Ele está em nós e entre nós; se bem observamos e sentimos, descobrimos a sua voz de criança lá fora e cá dentro. Revela-se uma desilusão para quem quer um Deus perfeito, ou à medida duma ferramenta mental que só conhece a dimensão do dentro ou do fora, do afirmar ou negar. Ele é o companheiro de jornada a mostrar no seu filho a nossa natureza humana e divina. Nele encontramos os nossos trabalhos, necessidades, aspirações e alegrias. Nele nos encontramos completos e cientes de que as horas do calvário são apenas sextas-feiras ao longo da vida.

A vida é uma caminhada, com uma quadra no monte calvário e uma auréola de pôr-do-sol. Essa cruz torna-se, no dia-a-dia, numa árvore, onde os passarinhos fazem ninho na esperança de novos passarinhos. Ao longo da viagem encontra-se a mesma expectativa no verde das folhas e no verde da esperança a brotar no horizonte da subida.

No verde redimido e nos frutos libertado, sigo o encanto guiado pelo aroma e pela ressonância da fluência da vida. Neste estado já não há atraso. Posso permanecer inteiro num gesto, numa folha, num ser, que se torna meta e caminho. O mar terreno da vida transforma-se em superfície divina a brotar o sagrado. Já não há bem nem mal, além nem aquém, apenas um estado de gravidez a dar à luz Jesus num despontar de luz em cada ser a agradecer.

No outro lado da morte as luzes também brilham a arredar a sombra que o sol arruma do outro lado da noite. O dia morre na noite, a morte morre no dia, tal como o ruído cinzento das cidades se vai no arredar das nuvens e no gorjear das gaivotas.

A violência é dia nas sombras da cidade, nos seus becos sem saída se junta a dor.
Nos becos da vida, o mundo reúne a dor para com ela subir ao calvário e nele limpar o pó do rosto de Deus no Homem ofendido. No meu caminhar sigo a divindade no sol por trás das nuvens. Elas encobrem-na, mostram o meu escuro na sombra da cruz a indicar a direcção da terra reconciliada.

A sombra que encobre o Sol do meu dia-a-dia é a mesma sombra que oculta a verdade no rosto das criaturas, na roupagem das instituições. A sombra multiplica-nos e esconde-nos na sensação de alguém nos acompanhar. Por isso, os nossos monumentos se enquadram melhor com a natureza; na sua sombra cintilam, brilham mais nas ruínas. Lá, onde o brilho das fachadas já não deslumbra, repousa o silêncio a surgir no verde que cobre o ruído da glória e viabiliza a liberdade criadora.

Também por baixo da grandeza dos palácios e dos templos se esconde o sustento, o espírito humilde e nobre que os fez crescer. Hoje, o espírito retido neles sobe à torre em lânguidos brados. Na paisagem ecoa o seu sofrer de volta ao alto no olhar das árvores e no vozear dos cães, enquanto, no fundo da encosta, um barulho chão salta e grita, apertado, entre muros partidários, jurídicos, científicos, económicos e religiosos. Muros contra muros atordoam a paisagem.

Também a voz do mundo inveja e combate, nos muros das igrejas, a sombra dos próprios muros. Desconhecem, contudo, o espírito que ergueu aquelas catedrais e que elas mantêm encoberto. Querem uma religiosidade sem corpo nem vínculo, uma religiosidade à la carte, a seu modo, sem igrejas nem personalidade. Uma religiosidade cor-de-rosa, do sentir-se bem individualista, que reprime e afasta o espírito religioso maternal para o sótão do intelecto, um ponto sem tempo nem lugar. Aquele espírito encoberto e derramado na alma dos fiéis continua imperceptivelmente, presente e vivo, a entrar nas igrejas e a fluir nos corações das pessoas. O espírito divino, a nossa alma, andam derramados na borda da calçada.

Como seres corpóreos construímos organizações e templos onde espírito e corpo se congregam e conservam o calor da memória. As pedras das catedrais, as instituições acompanham-nos dando assistência ao nosso corpo para que as nossas almas, o nosso espírito, acompanhado no paráclito se junte em comunidade para aí realizar a união da pessoa à comunidade. As pedras dos templos e as instituições não são o espírito líquido que precisamos, elas são apenas fontanários. Se os negarmos com o pretexto de serem pedras juntas, teremos de rastejar pelos regos da calçada para dela bebermos o espírito entornado. O espírito como a água brota do fundo da terra depois de recolhidas as bênçãos por onde passou.

O tempo que corre é doce, anónimo e despersonalizante. Vive-se no crepúsculo da cultura, sem tecto moral, ao sabor dos habilidosos do saber que lançam na noite os seus fogos de vista. Encontramo-nos desalojados de nós próprios e levados pelas ventanias da opinião, sempre expostos à chuva duma moral ácida. No crepúsculo da cultura o Espírito anda por aí a estender-nos a mão.

António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagogo


sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

ESTUDO DO RIO E DO CÉU E DAS OUTRAS COISAS GERAIS QUE ENTRE ELES SE ENCONTRAM



Presépio virtual

Num mundo onde tudo começa a ser virtual (e eu acredito que, ainda que ocultamente, virtuoso), onde os próprios cientistas começam a acreditar que o mundo é hologramático, olho as figurinhas do meu presépio e sinto que por muito que a ideia de um universo virtual me seja sedutora, adoro saber que as figurinhas são feitas de barro e que foram moldadas pelas mãos de alguém e que foram pintadas com um pincel de verdade, assim como gosto de saber que estão impregnadas das minhas memórias de tantos anos. O Menino Jesus assistiu à minha adoração e eu senti-me tantas vezes por ele adorada ao adorar. Onde está quem adora, onde está quem é adorado? Aquele menino é o meu companheiro de infância nas noites frias e solitárias de Dezembro de uma menina filha única e sensibilidade à flor da carapaça. Quem precisava mais de quem? Ele de mim ou eu dele? Ali, semi-despido sobre as palhinhas de verdade, o menino de barro só me tinha a mim, mas uma réplica dele tinha outros meninas e meninas em outras casas, ao passo que, pensava eu, outras meninas réplicas de mim, em outras casas, teriam um menino para adorar? Aquele Menino Jesus, a Barbie possível nesse tempo, tinha toda a minha atenção, para além de uma mãe e de um pai de barro e um burro, uma vaca, patos, ovelhas, um galo, um anjo, uma pastora, um moinho, um rio, um lago, um cão, três Reis magos, por ordem totalmente arbitrária. Só não tinha, ao contrário da Barbie, um guarda-roupa. O seu estilo era mais a fraldinha, e o seu conforto, o bafo do jumento. Recordo-me de me sentar ao pé dele numa divisão que eu mantinha às escuras, apenas iluminada pela pequenina vela de cera que ajudava a aquecer o corpinho de Deus e ali ficava só a olhar. Só pela companhia? Por compaixão? Por sentimento místico? Não me recordo de alguma vez lhe ter pedido nada. Porque seria? Por não me ocorrer que tal fosse possível? Por não acreditar que fosse atendida? Por não acreditar que aquele menino de barro tivesse poder para tal? Por não precisar de pedir nada? Por estar bem assim como estava, apenas em adoração na qual eu nem sabia que estava? Eu pastora, anjo e burro, fazia e ainda hoje me sinto, parte integrante das figuras de presépio, o qual, sem mim, não está completo. Tal como afirmam os cientistas em relação às partículas: estas têm um comportamento completamente diferente perante um observador. E se for um adorador? Como será? Que se passará na caixa do meu presépio com as figurinhas embrulhadas em folhas de revista no cimo do armário mais alto quando eu não as observo? Eu penso que reside aí o grande milagre e mistério do Natal E do Universo.

Risoleta C. Pinto Pedro

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

D'ARTE - CONVERSAS NA GALERIA (2ª. SÉRIE)

DIÁLOGO DE PÁSSAROS NO JARDIM
 


CAROLA JUSTO

Acrílico sobre Madeira 40 x 40
 

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Tupinambo ou Girassol Batateiro


por Miguel Boieiro

Ouvi falar do tupinambo, como tubérculo comestível, há cerca de quatro décadas. Fiquei curioso, mas nunca tinha surgido a oportunidade de conhecer esta planta que os meus amigos vegetarianos consideram adequada numa nutrição saudável.

Até que no verão de 2010, quando visitei a pequena exploração de agricultura biológica de Miguel Gervásio, perto de Sesimbra, travei conhecimento com o tal tupinambo ou, como também é conhecido, o girassol-batateiro. Trouxe alguns tubérculos e enterrei-os descuidadamente no quintal. A verdade é que, fruto dos demasiados afazeres a que me dedico, nunca mais me lembrei da plantação. Na primavera seguinte brotaram, de facto, algumas plantas mas não deram flor e nada fiz. Este ano apareceram, como por encanto, uma dezena de vistosos girassóis. Esperei que as flores secassem e agora resolvi recolher alguns tubérculos. Cozi-os em água e uma pitada de sal, como se faz com as batatas, e apreciei finalmente o manjar. Está aprovado!

O tupinambo, Helianthus tuberosus, pertence à extensa família botânica das asteráceas ou compostas e ao género dos heliantos, de que se conhecem para cima de 70 espécies. É muito semelhante ao girassol, Helianthus annuus. As suas folhas são igualmente grandes, simples, dentadas, ovais e rugosas, alternas ou opostas. Os caules atingem facilmente 3 metros de altura. As inflorescências formam capítulos amarelos dourados e as sementes são aquénios. As duas plantas distinguem-se exteriormente pelo tamanho das flores, já que os girassóis possuem-nas em maior dimensão. No resto são aparentemente iguais. Todavia, se bem que ambas tenham ciclo anual, a maior diferença encontra-se nas raízes e na forma de reprodução. O tupinambo reproduz-se essencialmente pelos rebentos que brotam do seu raizame, sendo, por isso, uma espécie perene, enquanto o girassol nasce, todos os anos, se se deitar a semente à terra.

Ora sendo uma herbácea vivaz, de fácil cultivo, muito resistente a doenças, não exigindo solos férteis e aguentando-se bem em climas frios, o tupinambo está, nalguns países, classificado como espécie invasora, a extirpar por ser atentatória de outras culturas. Erradamente, julgo eu, pois não se toma em conta o seu assinalável valor alimentício, como a seguir vamos ver.

Os tubérculos do tupinambo têm constituintes semelhantes aos da batata, mas possuem sobre esta uma enorme vantagem. A batata é provida de amido, ao contrário do tupinambo. Ao invés, este possui inulina que é um polímero da frutose, o qual não influencia a glicémia dos diabéticos. Para além dos hidratos de carbono de que a inulina é o principal, encontram-se também vitaminas, em especial a C, a B, a provitamina A e sais minerais, especialmente o potássio.

Os tubérculos que colhi no meu quintal são pequenos, mas, em vários tomos sobre botânica que consultei, refere-se que podem atingir 10 cm de comprimento e 5 cm de grossura. São de configuração nodosa e irregular, fazendo lembrar, pela forma, o gengibre. A sua cor é branco-amarelada com laivos avermelhados e purpúreos. Podem ser comidos frescos (crus) ou cozidos como as batatas, não sendo necessário retirar-lhes a pele. É possível obter deles uma fermentação alcoólica com fama de ser diurética, tónica e afrodisíaca.

Tanto as folhas como os caules são ricos em matérias proteicas e, por isso, tornam-se adequados para ensilagens destinadas à alimentação do gado.

Oliveira Feijão indica “a maceração das folhas em vinho tinto como calmante e resolutivo e o infuso das flores como febrífugo e anti oftálmico”.

No século XVII, quando foi trazido da América do Norte, donde é oriundo, o cultivo do tupinambo passou a ter grande repercussão na Europa, tornando-se popular como sucedâneo da batata. Contudo, o seu menor rendimento, o efeito invasivo e as dificuldades de armazenamento acabaram por arrefecer o entusiasmo inicial dos agricultores. Com efeito, os tubérculos murcham e secam alguns dias após a colheita o que impossibilita a sua rendível comercialização. Em contrapartida, podem ficar enterrados no solo sem se degradarem, mesmo em climas muito frios, desde que não haja excesso de humidade. A solução será recolhê-los só quando necessitarmos de os consumir.


E pronto! Ficam estas “dicas” para espicaçar a curiosidade dos leitores e induzi-los à experimentação alimentar de mais um vegetal esquecido. Em época de guerra (ou de crise aguda) “não se limpam armas”!

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A COMUNIDADE DO VALE DA ESPERANÇA - UMA CRÓNICA




4º. CADERNO

Assim passaram todos estes anos desde que nos estabelecemos aqui e, dentro deles, muitos outros a partir do dia em que me vim a descobrir docente por via das circunstâncias que as nossas vontades e persistência foram gerando. Há sempre nostalgia quando encerramos um ciclo na nossa vida, tal qual eu estou fazendo agora que sei ter dado a minha última lição mas, sem qualquer toque de vaidade, sinto que há igualmente a alegria da consciência do dever cumprido e, embora mais leve, sendo nós simples humanos, também a antecipação da satisfação por muito simplesmente podermos dormir até tarde e não termos que nos deitar antes do que temos em mão esteja resolvido. E mentiria se escondesse a sensação de que estas se sobrepõem àquela. Não tenho pois a tristeza de abandonar o que de mim fez parte por tanto tempo e posso dizer que parto com alegria para esta nova fase que se abre cheia de visões de realização de pequenos sonhos que permanecem por concretizar. Teoricamente ainda teria que leccionar ao longo do próximo ano lectivo o que poderia muito bem ser essa a minha derradeira experiência enquanto professora. No entanto nunca antes usufruíra da possibilidade da minha licença sabática a que, de acordo com as regras da casa, poderia ter acesso e de que abdiquei mesmo enquanto preparei o doutoramento e na medida em que a minha aposentação em nada põe em risco a continuidade da disciplina em que já estou devidamente substituída, decidi apresentar perante o Conselho Escolar a possibilidade de transformar essa concessão que, como é lógico, só se justifica para qualquer outro trabalho de especial relevo e importância, seja para o conhecimento, seja para alguma mais-valia de interesse para a comunidade ou a sociedade, em geral, numa forma de aliviar em uma anuidade a entrada na situação da reforma e como, uma vez apreciada, a minha pretensão veio deferida, apesar de tecnicamente ainda estar no activo, estou assim na condição de quem, na prática, pode agir como alguém que deixou de necessitar de trabalhar para viver. No fim de setenta e seis perfarei trinta e cinco anos de serviço continuado e como tal, com uma penalização de vinte por cento em relação ao meu último salário, pois faço-o antes dos sessenta e cinco anos, poderei reformar-me por limite de idade. Ora como as nossas poupanças e bens acumulados seriam suficientes para vivermos tranquilos o resto dos nossos dias, seria uma teimosia continuar a ocupar um lugar em que seguramente o sangue novo pode colocar outra vitalidade. Bem sei que a sabedoria se avoluma no decurso da existência e que só por isso um mestre mais velho pode ser uma reserva inestimável de saberes e pensamentos, mas há toda uma energia física que o palco de uma aula requer e essa vai ao invés daqueles aspectos e seria uma palermice pretender que a partir de uma certa altura mantemos a mesma vivacidade de outros ontens e não ser capaz de reconhecer quando os outros podem conseguir melhor que nós e é chegada a ocasião para nos retirarmos. E depois fica sempre em aberto a eventualidade de uma colaboração ou de colaborações pontuais a que não me subtrairei se realmente valerem a pena e isto sem prejuízo de preferir repousar, pelo menos nos meses mais próximos. Com toda a sinceridade, penso ser inteiramente merecido que uma pessoa depois de uma larga fatia da sua passagem por este mundo ser levada com as agruras e preocupações da labuta diária, possa gozar por um bom número de primaveras esse esplendor com que a lezíria se pinta em Abril e Maio. Havendo saúde, é esse o primeiro prémio que a sociedade lhe oferece para que possa usar esses dias com os encantos do quotidiano que antes não tinha possibilidades para apreciar. Amanhã partiremos para Paris, onde o Carlos Manuel nos esperará em Orly, para aí passarmos uma temporada na sua companhia e na dos netos e nora e, a partir de onde contamos viajar de comboio por uns quantos países e cidades da Europa Central que, tanto eu como o Manuel, temos muita curiosidade em visitar. Finalmente vamos poder estar com vagar e tranquilidade e com toda a liberdade para palmilharmos e esgravatarmos os cantinhos culturais que a capital de França tem à disposição dos interessados; a verdade é que só contamos regressar na próxima Primavera ou até depois disso. Quero ir a Heidelberga e Bona, na Alemanha Federal e a Lovaina na Bélgica, neste caso para recordar dias intensos e felizes e ardo de paixão por o Manuel me sussurrar ao ouvido que quer namorar comigo na terra de Mozart.
Faz-se tarde e teremos que estar no aeroporto a meio da manhã. Sinto o frenesim das vésperas das viagens em que o paizinho e a mãezinha me levavam até à quinta dos avós para que aí passasse o Verão.
Estou a perceber que a reforma também é isto, um tempo mais leve para amar.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

REAL... IRREAL... SURREAL... (58)

Oriental, Kandinsky, 1909
Óleo sobre Cartão, 69,5cm x 96,5cm

Na  tela 
A tinta
No pano
A pinta
Que nos leva à agulha
Perdida no palheiro
Ou no buraco traseiro
Por onde passa o camelo
Depois de rapar o pêlo.

António Tapadinhas

domingo, 8 de dezembro de 2013





O SOL, O CAVALO E A ERVA

 

Sigo de forma confiada a emanação do som sem pensar aonde ele conduz, sem medo do andarilhar leve por entre a gravidade das coisas.

Da minha janela vê-se uma velha fábrica de cortiça abandonada.

Mais ao lado, uma velha fábrica de confecções em ruínas.

O écran da janela é ocupado pela visão do caos que as ruínas transmitem.

Mais acima brilha o Sol e, no quintal baldio da fábrica abandonada, um cavalo pasta tranquilamente.

Sol, cavalo e erva-pasto são a harmonia no quadro dissonante.

A constatação do emanar natural refulge perante o exercício do pulsar racional.

 

Mandela morreu aos 95 anos mas é presente.

Manuel é vivo mas está ausente.

E eu, … eu, ando a aprender.


                                                                                                                Manuel João Croca


 
 
Pintura de Luís Delgado (óleo sobre tela)

sábado, 7 de dezembro de 2013

"A Decisão" - D. João I em Alhos Vedros: Considerações Finais


Os acontecimentos narrados são ficcionados, mas assentes em factos reais, concretamente a ida de El-Rei D. João I a Alhos Vedros e a sua permanência no «Palácio de D. Afonso, Conde de Barcelos.» [in “Crónica da Tomada de Ceuta”, de Gomes Eanes de Zurara (ou Azurara].

«É conhecida e muitas vezes citada a estadia de D. João I em Alhos Vedros, em 1415, pouco tempo antes da expedição a Ceuta. Segundo a “Crónica da Tomada de Ceuta”, de Gomes Eanes de Zurara (ou Azurara), o rei de Boa Memória estava em Alhos Vedros, refugiado da peste que vitimaria sua mulher Dona Filipa de Lencastre. Com ele estava o seu filho D. Afonso, conde de Barcelos.» [in VARGAS, José Manuel (2007). Aspectos da História de Alhos Vedros (Séculos XIV a XVI), Edição Junta de Freguesia de Alhos Vedros]

Também os Infantes da “Ínclita Geração” ali estiveram, a fim de saber qual seria a decisão de El-Rei, quanto à conquista de Ceuta.
Indiscutivelmente, a fazer fé no Cronista, foi em Alhos Vedros que Sua Majestade tomou a deliberação de partir para essa empresa e a transmitiu aos filhos.
Pode haver quem afirme que estes factos não passaram de mera ocorrência acidental, fruto de um conjunto de circunstâncias particulares.
Em parte, estou de acordo com essa visão
Contudo, também não podemos esquecer que a resolução Real tomada naquela terra da borda-d’água, se traduziu na mola incitadora da gesta portuguesa da Expansão Marítima, iniciada no séc. XV, e que tão relevantes consequências teve para Portugal e para o Mundo de então!
Por esse “simples” motivo, será que não merece a pena divulgar condignamente tais factos históricos, tão intimamente incrustados na História de Portugal, na História Europeia e na História Universal? Estou plenamente convicto que sim! Daí este meu singelo contributo.
Onde se terá situado, efectivamente, o «Palácio de Dom Afonso, Conde de Bar-celos»? Terá sido no Largo do Cais? Na Quinta da Graça? Ou, ainda, noutro local diferente destes?
Em termos narrativos, penso ser pouco relevante a problemática de tal localização. Já em termos históricos, considero pertinente que se intensifiquem e se aprofundem as pesquisas, no sentido de se definir a localização exacta desse «Palácio».
No meu texto, opto deliberadamente pela sua localização no Largo dos Cais, tendo como enfoque o Palacete dos Condes de Sampaio – uma construção que remonta ao séc. XVII, portanto posterior aos episódios narrados.
A ser essa a verdadeira localização, é evidente que a estrutura residencial que existiu no séc. XV não é a que hoje está visível. Mas poderá ter sido a partir dessa estrutura mais antiga que, posteriormente, tenha vindo a ser erigida a edificação ainda existente.
Esta minha escolha deveu-se, essencialmente, a uma estratégia narrativa mas assenta, também, no facto de se tratar de uma opção defendida por vários estudiosos.

«No “Guia de Portugal”, de Raul Proença (2.º vol., pág. 638), (...) pode ler-se o seguinte: “Teve aqui um palácio o Conde de Barcelos, D. Afonso e nele se refugiou seu Pai, o Rei D. João I, fugido à peste, enquanto sua mulher D. Filipa de Lencastre agonizava em Odivelas. O palácio veio depois a pertencer aos Marqueses e Condes de Sampayo.”» [in Alves, C., 1992, pp. 38-39]
«O Condestável Dom Nuno Álvares Pereira tinha propriedades nestas terras, e Dom Afonso, filho bastardo de D. João I, Rei de Portugal, tinha Palácio no Porto desta Vila. Dom Afonso casa com a filha do Condestável do Reino e torna-se Conde de Barcelos e, mais tarde, no 1.º Duque de Bragança. Neste palácio dos Barcelos, em Alhos Vedros, o Rei veio refugiar-se da Peste (segundo crónicas da época) que assolava Lisboa e já tinha tirado a vida à Rainha. E juntando os seus filhos na casa do meio-irmão destes (Dom Afonso) deu ordem à ínclita geração para a tomada de Ceuta. Saíram de Alhos Vedros e reuniram-se em Belém antes de partirem para o Norte de África. Este Palácio, hoje, permanece ferido mas de pé, abandonado depois de ter sido usado durante décadas como fábrica de confecções - o Primeiro Palácio dos Bragança.» [in Famílias de Alhos Vedros”, de João Gaspar – http://www.geneall.net/P/forum_msg]
«/…/o Paço Real, situado junto ao cais da vila, local onde se refugiou o rei D. João I para fugir à epidemia da peste, que assolava na altura a cidade de Lisboa, vitimando D. Filipa de Lencastre, sua mulher.» [in Jornal O Rio, 23/04/2009 –http://www.orio.pt/modules/xt_conteudo/index]

Enquanto cidadãos e Alhosvedrenses, compete-nos a todos nós (e a cada um) dar a conhecer estes feitos, e orgulharmo-nos de os mesmos terem ocorrido na nossa terra.
Desafio todos os estudiosos, evidentemente que no bom sentido, a disponibiliza-rem-se para aprofundar as suas pesquisas a propósito destes acontecimentos. Mas que lhes seja, igualmente, feita a devida justiça por quem de direito, e que esses seus trabalhos de investigação tenham os apoios oficiais necessários, assim como uma ulterior divulgação condigna.
Convido, pois, os Poderes Locais a investir ainda mais na recuperação do património construído, assim como a incrementar actividades de animação e de difusão dos factos históricos ocorridos em Alhos Vedros.
Estas iniciativas, a ser implementadas futuramente, constituir-se-ão numa mais-valia cultural (e não só), quer para Alhos Vedros, quer para o Concelho.
Nestes tempos de globalização (desenfreada), que tende a tudo homogeneizar, cada vez se torna mais premente e imperioso o incremento dos valores culturais e dos factos que marcaram épocas passadas. São eles que consubstanciam a herança recebida dos nossos ancestrais, que é nossa responsabilidade legar aos vindouros.
É nestas singularidades que se alicerça e enforma a identidade particular de cada Povo e de cada Nação! 


[SANTOS, Francisco José Noronha dos, A DECISÃO – D. João I em Alhos Vedros – Julho 1415, Lisboa, Sítio do Livro, Lda., 1.ª Edição 2011, pp. 145 – 149]



NOTA DO AUTOR: À data da publicação, a redacção do texto não se subordinou às normas preconizadas pelo novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Livros d'África



 HERMENEGILDO CAPELO    
(1841, Palmela – 1917, Lisboa)

ROBERTO IVENS 
(1850, São Pedro – 1898, Dafundo)












“A expedição terá por principal objectivo o estudo do rio Cuango nas suas relações com o Zaire e com os territórios portugueses da costa ocidental, assim como toda a região que compreende ao Sul e a sueste as origens dos rios Zambeze e Cunene, e se prolonga ao Norte, até entrar pelas bacias hidrográficas do Cuanza e Cuango.”

Estas foram as instruções recebidas com entusiasmo por estes dois oficiais da Marinha, aos quais se juntou o major Serpa Pinto, todos com bastante experiência africana, para cumprir aquela que foi a primeira grande jornada de exploração científica em território africano cujas fronteiras estavam ainda por definir.

O orgulho patriótico que na altura rodeava este género de missões está bem patente num pequeno episódio: foi-lhes oferecida uma bandeira nacional, finamente bordada e que vinha adjectivada, numa carta endereçada por uma senhora que nunca se quis identificar (supõe-se que tenha sido a própria rainha D. Amélia), como sendo um “formoso símbolo feito das cores do céu e da memória de Jesus”, a quem foi dirigida a primeira dedicatória expressa na narrativa da viagem que publicaram em 1881, reunindo dois volumes, com o título “DE BENGUELA ÀS TERRAS DE IACA”, obra reeditada em boa hora com a chancela da Europa-América.

Depois de divergências entre Capelo e Serpa Pinto, a expedição dividiu-se, rumando este para Sul com o intuito de estudar os rios Cunene e Zambeze, continuando os outros focados no objectivo inicial: o rio Cuango. A viagem teve início em Benguela em Novembro de 1877, passando primeiro por Caconda, onde encontraram o naturalista José de Anchieta, e depois pelo Bié, onde foram recebidos por Silva Porto que lhes prestou valiosas informações; prosseguiram para Duque de Bragança, Malanje e, finalmente, Cassanje, onde obtiveram a preciosa ajuda do ambaquista (*) comerciante Narciso Paschoal. A partir daí concentraram finalmente a sua atenção na exploração dos territórios entre o Cuango e o Zaire onde “dificilmente se concebe uma disposição de terreno em que dois cursos de água, do valor do Cuango e do Congo-Zaire, correm quase paralelos e em sentidos opostos”, dos seus afluentes e dos povos que viviam nas suas margens: bangalas, holos, songos, jingas e iacas (seriam estes os descendentes directos dos jagas?).

A viagem viria a terminar em Outubro de 1879, ao fim de cerca de 5.500 quilómetros percorridos a pé (!), inevitavelmente polvilhados com inúmeros incidentes, narrados de uma forma brilhante e que podem ler-se como se de um livro de aventuras se tratasse: assistimos aos encontros com os nativos de diferentes etnias e culturas, vivemos os episódios de caça, sofremos com a fome e a sede, registamos descobertas na fauna e na flora e deslumbramo-nos com as descrições das paisagens africanas.

Anos mais tarde, entre 1884 e 1885, estes dois exploradores viriam a completar uma viagem entre as costas de Angola e Moçambique, iniciando a jornada em Moçâmedes, actual Namibe, e terminando em Quelimane. Dessa iniciativa publicaram em 1886, também em dois volumes, uma obra com o título “DE ANGOLA À CONTRACOSTA”, igualmente reeditada pela Europa-América.

Os nomes destes portugueses, entre alguns outros, quase anónimos, que os precederam, figurarão para sempre ao lado de ilustres sertanejos como Silva Porto, Livingstone, Furtado, Stanley, Lacerda, Brazza, Speke, Burton, Serpa Pinto, Baker, Cameron, Schütt, von Mechow, uma plêiade de homens de coragem que ajudaram a desbravar o portentoso continente africano.


Tomás Lima Coelho

(*) ambaquista – natural de Ambaca. Nativos que, pelos seus conhecimentos da língua portuguesa e pela adopção de vestuário, usos e costumes lusos, eram chamados de “brancos” ou “pretos calçados”.



quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

DÁRTE - CONVERSAS NA GALERIA (2ª. SÉRIE)

CANTIGA DE PÁSSARO NO DOMINGO DE MANHÃ
 


CAROLA JUSTO

Acrílico sobre Madeira 40 x 40


 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

teatro.politecnico


a minhas actrizes,Inês, Daniela, Liliana. Mara. Elaine, Sara. Lara, Oriana
a propósito do significado de violência hoje em Portugal e Brasil.
de diversos textos de Peter Weiss,


 acaricio-te prudentemente as ancas e as costas
Que vão nomear tribuno e ditador
O patife quer-nos fazer crer que o terror será breve
Mas nós sabemos de langulusa, Lages
Nós sabemos de Guatamalo
Nós sabemos que os seus propósitos
São a violência e a anarquia
A confusão e violência
Ah Querida e doce Solange, beijo-te devagar o umbigo
Regressa para o meio das tuas piedosas amigas
E recomeça a tua vida de oração e clausura
Porque ninguém desta gente dará razão a este amor
não  acaricio o seio de Solange. Esta mantém o mesmo ar ausente e não se mexe.)
Falas de Marat
Mas quem é Marat
Um bandido vindo da Córsega, perdão da Sardanha
Seja quem seja quem  é que o ouve
Senão o canalha
Esse Marat não é perigoso
de novo as suas mãos apalpo as ancas da minha pretinha. Os quatro cantores ocupam o seu tempo em variados jogos populares, a pedrinha, os truques de cartas, o dominó
solange salta subitamente lúcida e com energia)
 estás a tentar experimentar-me
Mas eu sei muito bem o que tenho para fazer
tenta libertar-se do abraço
As duas freiras intervêm e afastam as mãos
Parte para Caen
Onde Barboroux e Buzot precisam de ti
Vai parte hoje mesmo foge
Não esperes pela noite
Será tarde demais
 querida o meu lugar é aqui
ajoelha-se e abraço-lhe as pernas
Como poderei deixar a cidade em que sei que tu estás  querida o meu lugar é aqui
abraça-lhe fortemente as ancas

Mayence está cercada pelos Prussianos
Condá e Valenciennes foram tomadas pelos Ingleses
                                                    fico muito inflamado,Muito inflamado e acariciando Solange fortemente
Não Solange
Já não podemos durar muito
Esses fanáticos oportunistas
Tipos sem envergadura sem cultura
Não Solange eu fico
(Aperta-se contra ela e põe a cabeça sobre as suas coxas)
E esperarei pelo dia
Em que possamos finalmente
Proclamar de novo a palavra Liberdade


José Gil,e outros