De que árvore florida chega? Não sei. Mas é seu perfume.

(Matsuo Basho)

terça-feira, 11 de maio de 2010

HÁ PINTASSILGOS NO MEU QUINTAL
V


-Bem, tem a ver com o que se passou comigo a propósito do meu contacto com a poesia dele. Na verdade eu sempre achei que ele, em muitos dos seus poemas, fazia uma leitura filosófica do Homem e da existência, quer dizer, apresentava uma determinada mundivisão filosófica a respeito do Homem e da existência. Eu devo aqui fazer um parênteses. Tenho que salvaguardar que li Pessoa há um bom número de anos. O grosso dessas leituras fi-las no ano lectivo em que decorreu o propedêutico, aí por volta dos meus dezanove anos de idade. Foi nessa altura que li aquelas compilações que o Professor Joel Serrão tez para a “Ática” e nessa ocasião li praticamente toda a poesia que ele nos deixou assinada pelo seu próprio nome…
-Toda aquela que estava publicada até essa data, quer o meu amigo dizer.
-Sim, sim. Toda aquela que estava publicada, claro. Fique a ressalva. Ora aí li o Caeiro, o Álvaro de Campos, o Ricardo Reis, mas também o que ele escreveu e assinou com o seu próprio nome, incluindo a “Mensagem” e posso mesmo acrescentar que li a maioria dos textos que saíram em volumes de textos filosóficos, sociológicos e de estética e crítica literária. Para falar com franqueza, até me parece que posso afirmar que li uma boa amostra da obra.
-Sem dúvida.
-Vá, mas conta lá o que se passou.



-O que se passou foi que eu fiz essas leituras, como já disse, fiquei com aquela impressão que ele tinha feito a tal leitura filosófica e como aquilo se tratou de leituras saídas do mero prazer, eu não tive qualquer obrigação de ler aquilo como, por exemplo, eram os casos dos livros obrigatórios no contexto da disciplina de Língua Portuguesa, como fiz aquilo por simples prazer de ler, quanto muito, por mera curiosidade intelectual, se é que assim posso falar, mas seja, o que é certo é que naturalmente por isso eu li aquilo e nunca mais pensei no assunto. Estava lido. A minha vida seguiu o seu rumo, não é? Ora como as minhas preocupações nada tinham a ver com poesia e muito menos com ele, aquilo ficou por ali e nunca mais voltei a pensar no assunto. Foi um caso encerrado.
Aconteceu que uns anos mais tarde, numa altura em que eu estive a trabalhar em investigação no domínio dos modelos de representação e de experimentação, aí ao redor dos meus vinte seis vinte e sete anos de idade, deu-se o caso curioso de um certo dia ter dado comigo a lembrar-me do Fernando Pessoa e recordo-me, desde então sempre achei que isso era mais ou menos assim, recordo-me que então até estabeleci um paralelo com o que estava a fazer e, no momento mais em género de graça, depois é que meditando melhor na ideia acabei por lhe atribuir algum significado, mas na altura em jeito de graça, pensei que aquilo que ele tinha conseguido fazer era mais ou menos um modelo, concretamente um modelo metafísico que ele aplicou a uma reflexão sobre a vida, sobre a existência e que lhe permitia, entre outras coisas, seguramente, um modelo que lhe permitia sustentar ideias a esse respeito.
-Tem a sua graça, lá isso tem. Mas veja bem, meu caro senhor, não é por ter graça que isso que diz se limita a ser uma mera história com piada. Fique sabendo que na minha opinião, se quiser na minha modesta opinião, olhe que eu diria que isso que diz tem muito de pertinente. Se calhar é uma maneira muito acertada de descrever o conteúdo da obra. Nunca tinha pensado nisso, quer dizer, nunca tinha visto o problema sob esse ângulo, mas olhe que tomo essa sua ideia por boa.
-É! Pode-se dizer que ele fez isso e concordo consigo. É bem capaz de ser uma forma eficaz para descrevermos a abordagem que ele levou a cabo.
-Mas é essa coisa engraçada, não acham? É que eu estava a trabalhar em modelos científicos e como devem calcular não se trata de uma pêra doce e digo-lhes, sem ponta de exagero, nem queiram imaginar o que andava então às voltas com o trabalho e no meio dessa lufa-lufa toda, assim de repente, dei comigo a pensar que afinal acabava por ter sido isso o que o Fernando Pessoa tinha feito ao nível da metafísica, andava eu ali tão às aranhas para conseguir algo de positivo e até o Pessoa o tinha conseguido, ao nível da metafísica, é certo e logo ele que, de certa maneira, até era anti-moderno.
-Explica lá o que é que queres dizer com isso do anti-moderno. Define lá isso.

(continua)

2 comentários:

A.Tapadinhas disse...

É isso mesmo! Explica ou define lá isso do anti-moderno.

Espero que também sirva para a minha paixão: a pintura...
:)

Abraço,

Luís F. de A. Gomes disse...

Bem, não seria bonhito se me adiantasse à personagem que, na próxima terça-feira, dará essa explicação.

Mas não me parece que se possa aplicá-la à pintura.
Eis neste útlimo caso um domínio em que pouco mais sou que um simples ignorante. Do ponto de vista técnico sê-lo-ei, de todo e do ponto de vista histórico não andarei muito longe disso. No âmbito daquilo que se poderá designar por teoria da pintura -e nem mesmo estou seguro de ser esta uma linguagem certa e adequada- estou a leste de tudo. Tudo o que possa dizer a esse respeito resulta do facto de gostar de ver e ter visto pintura por esses museus fora e pelas mais variadas exposições de arte que tenho vindo a ver ao longo da minha vida. Nada de baseada em estudo e muito menos qualquer procura com um mínimo fr rigor documental e metológico.
Ainda assim não me parece que entre os pintores e ao nível da pintura que se fez -e aqui restringimo-nos só a este cantinho do mundo que genericamente e só por questões de linguagem de conversação poderemos designar por cultura ocidental, nela englobando as tradições europeias e as que delas resultaram entre as populações de igual origem no novo continente- tivesse havido um movimento artístico que recusasse, por pressuposto e por base de pensamento, o legado da chamada modernidade, isto é, toda a explicação do mundo fundamentada a partir do legado científico. Não sei, mas pelo menos nunca ouvi falar em tal.
A anti-modernidade -salvo seja a expressão- de que se fala relativamente ao Pessoa estabelece-se na recusa expressa dessa tradição enquanto válida ferramenta para entendermos o Homem e toda a problemática que sejamos capazes de colocar a respeito da sua dimensão no Universo. Só isso e não se pode dizer que tenha sido um caso isolado nos contextos da literatura e da produção de pensamento da época. Ora não sei se isso também se passou na pintura e com pintores. Desconheço por completo tudo o que possa haver a esse respeito.
Enfim, como soe dizer-se, não se pode ter tudo.

Aquele abraço, companheiro

Luís