De que árvore florida chega? Não sei. Mas é seu perfume.

(Matsuo Basho)

terça-feira, 18 de maio de 2010

HÁ PINTASSILGOS NO MEU QUINTAL
VI

-Anti-moderno no sentido de ser, não direi anti-científico, mas, pelo menos, ante-científico, se posso usar um neologismo, mas direi ante-científico na medida em que, por um lado acho que rejeitava o legado da cultura científica, no que não é um caso único, muito pelo contrário e, por outro lado, porque ele construía o seu pensamento como um antigo, tendo por base os pressupostos de que as ideias são puras e independentes do mundo dos sentidos…
-A alegoria da caverna, do Platão.
-Sim, isso mesmo.
-E isso é antigo? De certa forma não é o que se verifica até com muitas das explicações científicas na actualidade? Não é verdade que os cientistas intuem ideias, elaboram teorias, com as quais, depois, apresentam explicações para os fenómenos?
-É o pressuposto platónico das ideias inatas, tão simplesmente isso, não é?
-É, justamente. É o platonismo puro e simples. Mas isso que o senhor disse é uma outra coisa. Lá está, não se trata de partir do princípio que existem ideias inatas mas antes de admitir que a descoberta, neste particular a descoberta científica, é um acto de intuição de alguém, mas que acontece em função de uma série de informações, de conhecimentos anteriores a respeito desse determinada matéria. É fácil de perceber que ninguém que nada saiba a respeito do sistema solar, olhe para a Lua e o Sol e conclua, a partir da conjugação do movimento da Terra em torno do Sol e o da Lua à volta da Terra e enquanto isso sucede também em torno do Sol, ninguém que nada saiba a esse respeito olha para esses corpos celestes e diz ou prevê que venha a haver uma ocasião em que a Lua ocultará o Sol e provocará aquilo a que chamamos um eclipse. Parece-me que isso é evidente e neste exemplo, até se dá o caso de haver o chamado movimento diurno aparente do Sol, não é? O que se as ideias fossem de facto inatas, jamais em tempo algum teria sido visto como verdadeiro e sabemos que não foi assim. Mas voltando àquilo que nos ocupa, é pois neste sentido em que eu digo que o Fernando Pessoa foi, em certa medida, salvaguardo, mas dá para dizer que ele foi um anti-moderno.
-Sim, não deixas de ter razão nisso que dizes. Há até um texto em que isso é bastante claro.
-Qual?
-No “Ultimatum”. Deves conhecer.
-Sim, claro.
-E o senhor também.
-Sim, eu também li o “Ultimatum”. Na minha opinião, é até um texto bastante importante no conjunto da sua obra. É daqueles textos ao mesmo tempo panfletários e testamenteiros. Ali ele regista uma boa síntese da sua visão filosófica do mundo.
-Partilho essa opinião.
-É. Mas é o que ele escreveu. No “Ultimatum” ele mostra-se claramente contra a sociedade moderna e a racionalidade que lhe está subjacente.
-É um bom exemplo, sim senhor. E isso apesar de ele até falar na ciência moderna, se bem estão recordados…
(…)
(…)
-Creio que a propósito daquilo que ele definiu como a lei de Malthus da sensibilidade.
-Ah sim, a lei da Malthus da sensibilidade…




-Muitíssimo interessante, permitam-me que acrescente e ainda para os dias que correm.
-Sim, muito interessante e isso pelo facto de revelar uma enorme perspicácia e, tal como diz, ainda hoje cheia de sentido. Mais ou menos assim, não é?
Enquanto os estímulos para a sensibilidade aumentam em progressão geométrica, a sensibilidade, ela própria, apenas aumenta em progressão aritmética.
-Atenção aí à corroboração empírica do enunciado. Podemos incorrer naquilo a que eu particularmente costumo chamar como o defeito do olhómetro.
-Olha que expressão engraçada, o olhómetro.
-Quer dizer as observações feitas a olho nu, sem cuidados de medida, o que no caso da observação sociológica, por exemplo, significa as conclusões que se teriam com base em dados que sequer passaram pelo crivo da verificação se verdadeiros ou falsos. Os que foram tomados como bons sem uma análise cuidada e fundamentada dos mesmos.
-Dava para entender.
-Sim, mas na verdade é um pouco isso que se observa, não? Até nos dias de hoje. Mesmo admitindo que não temos como comensurar o aumento da sensibilidade. Seja como for, parece que é isso que se verifica de facto pelo que me parece uma observação muitíssimo pertinente. E actual.
-Mas voltando ao que eu estava a dizer. Esse texto é um bom exemplo da sua atitude anti-moderna, mesmo tendo ele usado a expressão, ciência moderna e tendo-se-lhe mostrado favorável, por exemplo a propósito dessa tal lei de Malthus da sensibilidade. Mas tenho para mim que por esse termo ele tomava mais a metafísica que a própria ciência em si. Acho que ele, quando usava essa expressão ciência moderna, ao que se estava a referir era ao legado filosófico em que se enquadrava e que tomava como uma das suas referências de pensamento.
-Bem, lembro-me que ele, às páginas tantas, escreveu que a ciência moderna contraria que nega os princípios do cristianismo e nesse âmbito já me quer parecer que estaria a pensar nas aquisições da ciência propriamente dita.
-De acordo, mas, mesmo aí, igualmente englobando a metafísica, acho eu.
-Nesse caso teria que ser a metafísica enquanto ciência do pensamento, não?
-Provavelmente. Mas se lermos o texto com atenção fica mesmo a impressão de é isso que faz. Se reparamos bem, o que depois ele vai desenvolver na intervenção cirúrgica anti-cristã…
-As expressões que ele arranjava.
-Mas o que ele defendeu depois nessa intervenção cirúrgica anti-cristã, limita-se a ter por base os pressupostos da metafísica, ele fica-se por aí, nada acrescenta que se possa apodar de científico no sentido que hoje damos à palavra, é claro.
-Ora meus amigos… Isso é assim porque se trata da tal vertente filosófica que trespassa e transparece na sua obra, em toda a sua poesia e que tal como você disse há pouco, é, a par da heteronímia, o que seguramente mais vinca a singularidade da obra dele, creio até que foram estas as suas palavras.
-Sim, acho que sim.
-E que para mim, se me permitem a opinião, é justamente o que faz dele um grande poeta, um filósofo que se expressa sob a forma da poesia e que a esse nível nos deixou um dos maiores legados de conhecimento, tanto pela análise que fez do ser, da existência, como pelas propostas que apresentou para a sociedade portuguesa e que, para mim, ainda hoje são válidas.
-Bem quanto a mim aceito que ele fez, de facto, filosofia e muito provavelmente se poderá dizer até que fez boa filosofia. Isso parece-me notório.

(continua)

3 comentários:

A.Tapadinhas disse...

"Podemos incorrer naquilo a que eu particularmente costumo chamar como o defeito do olhómetro".

Permito-me discordar! Se não tivéssemos esse defeito, seríamos um povo completamente diferente, atrevo-me a dizer, menos importante no contexto universal. Grande parte das nossas conquistas não têm qualquer razoabilidade, digo, preparação científica. E nem estou a pensar, especialmente, nos Descobrimentos, porque nessa altura, éramos mesmo os que mais sabíamos...

O português com essa capacidade mais evidente foi (é) o Camões: via mais com um olho do que outros com os dois...

Muito estimulantes, intelectualmente, os pintassilgos... Quem diria!

Traduzindo para a pintura. Todos os temas são bons para pintar, a diferença está no pintor. Tu pintas ideias!

Grande abraço,
António

Luís F. de A. Gomes disse...

E no sentido em que discordas partilho a tua opinião, se bem que por formação académica, naturalmente, tenha em conta toda a importância da comensuração e da verificação empírica dos dados e, obviamente, cuide sempre de procurar verificar o sentido de verdadeiro ou falso para as proposições que utilize num discurso e, portanto, seja normalmente dado a ter o tal olhómetro sob vigilância.
Contudo não me parece que seja exactamente nessa perspectiva em que colocas a tua discordância, antes no sentido de ter sido essa uma das maneiras com que os portugas afinal conseguiram atingir certos resultados que, se tivéssemos em conta os requisitos e aparatos científicos para as alcançar, de modo algum se esperaria que eles conseguissem. Inteiramente de acordo com isso e para não irmos mais longe, é simples de entendê-lo se tivermos em conta que afinal até temos cientistas de renome nas mais variadas áreas, da mesma maneira que temos empresas que produzem tecnologia de última geração igualmente em sectores diversos, apesar do ensino miserável que proporcionamos às nossas juventudes. Para além disso, sempre tivemos brilhantes matemáticos -esquece-me aqui, sem recurso à minha biblioteca, o nome de um que se correspondeu com Einstein, por exemplo- e físicos que apenas o nosso nacionalismo pitoresco não é capaz de ver e compreender e em conformidade não destaca. Mas isso deve-se justamente ao facto de não termos na nossa natureza qualquer atavismo que nos inferiorize em relação aos outros povos e, em condições normais, também nós sermos capazes de proezas interessantes. Aliás, creio que isso é para mim a melhor prova da mediocridade e isto para só considerar o plano intelectual do caso, estava a dizer que isso é a melhor prova da mediocridade das nossas elites de poder que, mais que quaisqueres outras, deveriam saber a importância que um bom sistema de ensino tem nas condições que proporciona para que haja um bom banco de cérebros no contexto de uma população; dois séculos depois da aposta que D. Dinis fez na formação -universitária e de carácter prático no que às artes de marear diz respeito, no primeiro caso com a reforma que elevou os Estudos Gerais a Universidade e, no segundo, com a chamada de um almirante genovês para reformar a nossa marinha e tratar do ensino das novas técnicas usadas no sector- lá conseguiram os nossos antepassados um feito que haveria de mudar o mundo e que ainda hoje nos mantém à conversa e que de Portugal fez por mais de um século uma grande potência naval e militar no mundo de então, mas também científica e no plano das ideias em geral -Spinoza é de origem portuguesa, é bom não esquecer- e, no patamar da economia, ao nível do comércio também. Mas isto são pormenores no dizer corrente em que o que mais conta são, como dizem os Valentins Loureiros da nossa tristeza, os assuntos mais importantes e é aí que a massa entra e abafa tudo o que possa estar sobre a mesa, escorrendo sempre para o lado do bolso -só de alguns... Enfim, ganâncias de poucos que cerceiam as possibilidades de muitos e essa é um mal de que não nos temos sabido livrar.

(continua)

Luís F. de A. Gomes disse...

Mas aquilo que dizes de Camões é outra prova indirecta do que acabei de dizer e até posso acrescentar mais algumas palavrinhas.
Sem embargo do que referi quanto ao facto de termos tido sempre cientistas que ombreiam com os melhores do seu tempo, a verdade é que por tradição derivada de um trabalho de produção continuada e acarinhada pelos por quem de direito, há muitos séculos que os portugueses estão arredados dos momentos mais significativos da história do conhecimento e isto quer em termos científicos, quer em termos filosóficos. Não é por acaso que, neste último aspecto, os nossos melhores filósofos foram poetas e entre esses, justamente, Camões é um deles. Não entro aqui nem mesmo teria sabedoria para o fazer, fosse onde fosse, na discussão de saber se certos sonetos que tomamos como camonianos são de facto obras de sua autoria ou simples traduções de outros poetas, mormente de Dante e Petrarca; Jorge de Sena, entre outros, chama-nos a atenção para isso. Seja como for, uma peça como “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades…” é uma verdadeira síntese filosófica de um modo de ver o mundo e, por sinal, bem acutilante e que permanece moderna, não será assim? E como este, muitos outros exemplos poderíamos encontrar na lírica do nosso Luís Vaz que nos permitem dele dizermos ter sido também um bom filósofo. Coisa que, pelo menos é disso que até aqui o “Há Pintassilgos…” tem tratado, aconteceu com o Fernando Pessoa, para mim, um dos vultos maiores –tal qual o de “Os Lusíadas”- da literatura mundial.
De resto, os nossos pensadores são muitíssimo modestos e não há uma única ideia que deles tenha saído e que se possa dizer, aqui está, um contributo que teve este ou aquele impacto no domínio da moral, da ética, da epistemologia e por aí fora e que veio a abrir novas vias de pensamento em tal área. Temos o Padre Vieira, mais perto de nós um Sampaio Bruno ou um Sérgio e na actualidade um Eduardo Lourenço ou um José Gil mas… Estão à medida da nossa dimensão cultural.
Mas é por isso que apesar destes constrangimentos às suas capacidades, os portugueses até têm conseguido resultados no mínimo interessantes e sem mais que olhómetros para conseguir avaliar as coisas e nesse sentido concordo com a discordância que expressaste.

Quanto ao resto esperemos que a leitura continue a ter interesse que, até que a tarde termine, ainda muita coisa haverá de ser dita e isto não porque eu ache que tenha alguma coisa a dizer a alguém –e ainda menos nos temas que se seguirão e antes de tudo pelos motivos que se compreenderão com toda a facilidade- mas antes por achar que as pessoas não perderão nada em pensar, sentido em que esta conversa pretende ser um convite.

Aquele abraço, companheiro

Luís