De que árvore florida chega? Não sei. Mas é seu perfume.

(Matsuo Basho)

sexta-feira, 14 de maio de 2010

"Língua e realidade", de Vilém Flusser. Reflexões sobre o pensador.




Vilém Flusser



A propósito do recente COLÓQUIO INTERNACIONAL: Do Diabólico ao Simbólico: A Filosofia de Vilém Flusser , no Anfiteatro IV, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa ,03 MAI - 04 MAI 2010 , partilho minha pesquisa, com algumas informações, sobre esta figura que por tantos anos viveu no Brasil. Certamente que o Chrys Chrystello, a respeito deste filósofo, se pode pronunciar também. Flusser tinha uma importante tese sobre as línguas e a tradução.

Vilém Flusser (Praga,1920 - 1991) foi um filósofo tcheco,de uma família de intelectuais judeus, naturalizado brasileiro, autodidata. Durante a Segunda Guerra, fugindo ao Nazismo, mudou-se para o Brasil, estabelecendo-se em São Paulo, onde atuou por cerca de 20 anos como professor de filosofia, jornalista, conferencista e escritor. Publicou, em S Paulo, seu primeiro livro - Língua e realidade em 1963.

Sobre este trabalho encontrei uma análise no artigo A REBELDIA POÉTICA DE VILÉM FLUSSER de Eva Batlicková , (Eva Batlicková graduou-se em Língua Portuguesa, em Brno, na República Tcheca, com um trabalho sobre a fase brasileira do filósofo tcheco-brasileiro Vilém Flusser). A autora descreve Vilém Flusser pela maneira extática e de cores vivas pela qual submeteu os seus pensamentos ao público, revelou-se este pensador antes de mais um filósofo-poeta.

Diz Batlicková que ele é uma das pessoas que, mediante teorias corajosas e acesso “fora dos conformes” aos problemas, indigna o mundo acadêmico e pela mesma razão arrebata a atenção de grande número de leitores. Língua apurada, construção dramática dos textos e imagens metafóricas empolgantes, estas são as armas principais de Vilém Flusser para a defesa das suas opiniões, muitas vezes controversas.

E sobre o livro Língua e realidade das palavras de Eva Batlicková destaco:

" Estudando a fundo quatro línguas (português, alemão, inglês e tcheco), concentra a sua atenção no modo pelo qual as respectivas línguas formam aqueles conceitos como categorias gramaticais. Por fim, ele substitui o significado gramatical das palavras auxiliares pelo seu significado lexical, considerando na base dele o espírito predominante de cada uma das línguas. Esta sua teoria se amplia ainda para outras famílias lingüísticas grandes (a isolante e a aglutinante), demonstrando a divergência básica entre as realidades delas, e portanto a dificuldade, mesmo a impossibilidade, da transmissão de valores entre as culturas ocidental e oriental.

Mas não só a realidade é determinada imediatamente na língua concreta, conforme Flusser. Do fundamento lingüístico cresce também o nosso intelecto – o intelecto sem a língua seria encerrado no caos solipsista, carente de qualquer significado. Portanto um intelecto nasce junto com palavras e naturalmente com uma gramática que se aprende na fase inicial do seu desenvolvimento.

No entanto, o intelecto não é mero produto da língua. Ele é, ao mesmo tempo, aquele que cria a língua. O intelecto cria a língua por intermédio da sua atividade poética, formando novas palavras que extrai do indizível e desta maneira divulga o império da língua e da própria realidade.

A língua nasce do império do nada e do caos; na sua evolução, retorna de volta ao indizível, um tanto paradoxal e autodestrutivamente. Flusser demonstra este fato apontando os silêncios, “ocidental” de Wittgenstein, “oriental” de Budha, como os limites mais avançados dos dois tipos de pensamento. Como podemos ver, a língua origina-se do nada, fala sobre o nada e volta ao nada, o que revela uma profunda relatividade da nossa realidade e todas as opiniões para ela. Deriva daí a crítica flusseriana ao caráter totalizante da civilização ocidental e sobretudo da sua ciência.

Mediante a sua análise, Flusser esforça-se por deslegitimar o empenho dessa cultura na nivelização de todos os diferentes modos de pensamento e diferentes tipos de cultura, bem como a tentativa de ela incorporá-los todos dentro da sua própria estrutura. Aqui podemos encontrar também as raízes da sua atitude perante os media, os quais constituíriam uma nova forma, mais avançada, da pressão exercida pela sociedade técnica sobre nós.

No entanto, não nos adiantemos, e voltemos à tese brasileira de Flusser sobre a dependência imediata da maneira de pensar e da percepção da realidade no caráter da língua dentro da qual nascemos.

Margarida Castro
dialogos_lusofonos@yahoogrupos.com.br

Fontes:
- www.dubitoergosum.xpg.com.br/convidado11.htm
- books.google.pt/books?id=dqMnVaF-GXEC&printsec=frontcover&dq=Vil%C3%A9m+Flusser&source=bl&ots=fHAjcihc51&sig=ZAmS8rJdh8lmrDRa0AC_emrQ4Do&hl=pt-PT&ei=ToTmS9izL8uBONzw3a4H&sa=X&oi=book_result&ct=result&resnum=3&ved=0CCsQ6AEwAg#v=onepage&q&f=false
- www.artecapital.net/recomendacoes_ev.php?ref=84
- www.fotoplus.com/flusser/
- www.youtube.com/watch?v=i83Y05OdH0o
CAIXA PRETA - um documentário sobre Vilém Flusser (1920-1991)
- www.olavodecarvalho.org/convidados/flusser.htm
- textosdevilemflusser.blogspot.com/

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