quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Fotografias com Música





Ilha do Pessegueiro,
Porto Côvo

Foto de Lucas Rosa


Nota: Para ouvir a música clique na imagem.


terça-feira, 11 de agosto de 2015

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

"-OLHA A PROFESSORA MATILDE!"


O que é isto? 
Um dos helicópteros afectos ao serviço de incêndios terá sido usado para passeios turísticos durante os grandes fogos do passado mês de Agosto? 
Foi o que uma reportagem da SIC procurou denunciar. 
Em acto contínuo, o ministro da tutela demitiu o chefe da protecção civil, em Viseu e o comandante dos bombeiros de Lamego, onde aconteceu o devaneio. 


Mas a sensação que fica é que o país anda submetido a uma campanha que procura enfraquecer os poderes democráticos e mitigar a justiça. 
Ainda anteontem, naquela mesma estação televisiva se deu a ver um episódio entre um Juiz do Supremo e dois repórteres. O desembargador chegou a ter que empurrar a câmara e a exigir que não o filmassem, no que chegou a ser mal educado. 

Sem embargo, ficámos sem conhecer o completo das circunstâncias da ocorrência. Mas ontem, na nossa imprensa – que não tem liberdade, sejamos justos – não faltaram as vozes de serviço para se atirarem ao homem. Curiosamente, em muitos casos, as mesmíssimas penas que tanto têm clamado ao lado da defesa dos arguidos no caso da exploração e abuso sexual de crianças. 


E o bastonário da ordem dos advogados que não se afadiga de pugnar pelos direitos cívicos e as liberdades, heim. 
Bem, mais vale tarde que nunca, lá diz o ditado; ele há muito que poderia ter encetado o combate, desde logo quando chegou ao cargo que agora ocupa. Aconteceu certamente que até aqui as escutas devem ter servido apenas para apanharem drogados e o excesso de prisão preventiva deve ter recaído apenas sobre a marginalidade que obviamente não mais terá que uma importância estatística. 
Mas não deixa de ser bizarro que o ilustre causídico equipare a comissão que propõe para se pronunciar sobre o trabalho dos juízes a uma outra que já existe, com o mesmo fim, é bom de ver, para os serviços de segurança. (1) 
Como é? Estabelecemos uma equivalência entre os juízes e a polícia? 
Mau, não me digam que aqueles devem estar ao serviço destas. 



E este mundo que tem tantas coisas para que nós nos enamoremos. 

Estão a ver, King Crimson, dois mil e três, “The Power To Believe”, é uma delas.



E a Matilde lá está a dormir na cama de campanha. 
Podia dar-lhe para pior. 



Pois querem vocês ver um exemplo da falta de liberdade de expressão e muito menos de investigação no jornalismo que se faz em Portugal? 

Há um jornalista do diário desportivo “O Jogo” que se encontra suspenso das suas funções e remetido para um serviço fora da redacção a alguns quilómetros do local de trabalho que até então fora habitual. 
No “Público” a notícia originou apenas uma pequena nota em que se explica o porquê da situação. 
A SIC que até tem câmaras para filmar helicópteros indevidamente utilizados e que põe os microfones à frente de tudo quanto é gente, não se interessa, não questiona, não investiga. 

É este o nível da liberdade laboral que temos nos nossos meios de comunicação social. 

Não foi o Jorge Coelho que um dia disse que quem se mete com o PS leva? 
Ora avaliando o que aconteceu com Rui Rio – eleito democraticamente o Presidente da Câmara da cidade, deve sublinhar-se – e a Presidente da Associação de Comerciantes da Invicta, será caso para pensar que quem se mete com o Futebol Clube do Porto leva? 


É esta a nossa liberdade de informação. 

Nunca nada que belisque quem tem força para não ser beliscado. 



É este o Portugal 
que nós temos criado 
que toma melhoral 
a pensar no mau olhado. 



Depois de uma semana de trabalho intenso, sabe bem um cálice de moscatel roxo, com vinte anos e a frescura da noite fazendo os músculos regressarem ao estado que ao repouso sucede. 



A aula de hoje teve dois filmes, o capuchinho vermelho e o pirata azul e depois prosseguiu com desenhos e pinturas a respeito dos mesmos. 

“-A Professora pediu para pintarmos coisas dos filmes.” 

Mas também houve exercícios de desenho à vista, sobre objectos devidamente tracejados no livro. 

“-Sabes o que é que Professora pediu para nós desenharmos? Um frasco, um afia e uma bola.” 

Ai como é doce ver o pardalito, despreocupado, brincando com os outros petizes. 



“-Olha, a Professora Matilde!” –Disse ela espontaneamente ao encontrar a docente do apoio no supermercado. E fez o conveniente cumprimento com toda a alegria que lhe cabia no rosto. 

É a índole desta minha querida filha que mostra ser uma pessoa sincera e leal. 

Deus seja louvado! 

Alhos Vedros 
 26/09/2003 


NOTA 

(1) Sob a responsabilidade da redacção, JÚDICE PROPÕE INDEMNIZAÇÃO AUTOMÁTICA PARA PREVENTIVOS QUE SEJAM LIBERTADOS, p. 14 


CITAÇÃO BIBLIOGRÁFICA 

Sob a responsabilidade da redacção, JÚDICE PROPÕE INDEMNIZAÇÃO AUTOMÁTICA PARA PREVENTIVOS QUE SEJAM LIBERTADOS, In “Público”, nº. 4935, de 25/09/2003

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

REAL... IRREAL... SURREAL... (144)

Pigmaleão, Paul Delvaux, 1939
Óleo sobre Tela, 135x165cm


Tontura 

Que voz é essa, triste, que sussurra
aos meus ouvidos dor e tal loucura,
rouba a vontade, minha vida empurra
para outro norte, para a noite escura?

Que escuro é esse, se ainda trago
olhos abertos, braços estendidos,
se brilha em mim ainda como um facho
o fogo teu, voraz e desabrido?

Que dentes são que ao trincar me mordem,
e essas unhas que a rasgar-me a alma
tiram pedaços dos meus sonhos vãos?

Quanta loucura cabe em minha boca,
quanta tortura cabe em minha palma,
antes que eu caiba enfim, nas tuas mãos?


Ernesto Dias Jr.

domingo, 9 de agosto de 2015


MIRADOURO 27 / 2015

(esta rubrica não respeita as normas do acordo ortográfico)

TEMPOS ÁRIDOS

E seguimos pelo caminho que escolheram.
Não que fosse destino - pois não era - antes por opção.
E fomos.
Não convencidos, mas fomos.
Andámos, andámos até já não haver mais nada para ver ou descobrir.
Fomos até ao fim da aridez.
Fomos mas agora queremos voltar.
Quereremos?

Manuel João Croca 





quinta-feira, 6 de agosto de 2015






NO PRELO

Depois de participação ativa, nos últimos dois anos, em 2 acontecimentos de relevo para a história local, a saber, as Comemorações dos 500 anos da atribuição de Carta de Foral pelo Rei D. Manuel I e os 600 anos da passagem de D. João I e do importante Conselho Régio de Alhos Vedros que costuma ser considerado como o momento crucial do início da Expansão Ultramarina Portuguesa, vai sair um livrinho que reflete sobre o período áureo da história de Alhos Vedros e Região. Deverá estar disponível a partir da próxima semana...


quarta-feira, 5 de agosto de 2015

MEDITAÇÃO

Abdul Cadre

Histon, Cambridge, 02 AGO 2015

Com propriedade ou sem ela, há muita prática mental a que, não o sendo verdadeiramente, ou não o sendo no sentido do êxtase, da contemplação, é uso chamar de meditação.
Muitas dessas práticas não ultrapassam o nível de exercícios de pacificação e condicionamento mental, caracterizando-se comummente pelo uso da auto-hipnose, do pensamento criativo, da reprogramação neuro-psíquica e toda a sorte de induções imagéticas.
Ora, todas estas práticas, independentemente do método ou sistema seguido têm um handy cap incontornável: carecem da liberdade essencial que constitui a não sujeição a modelos. Estabelecer ou aderir a condições prévias impede o verdadeiro estado meditativo, ou êxtase.
Contorcionismo, posições exóticas, mantras, música celestial podem induzir um relaxamento profundo, mas não nos livram da tagarelice da corrente do pensamento nem do desejo de alcançar algo, de ter um objectivo, quando o verdadeiro estado meditativo se caracteriza pela morte do eu que o pensamento inventou com a cumplicidade do tempo. Querer calar o pensamento é todavia pensar e esta mesma intenção é de qualquer forma um desejo, o assumir de um objectivo.
A meditação exige um estado contemplativo (um estado inclusivo de observador, observado e circunstância) proporcionado pelo silêncio e pela atenção; uma ausência de conflito, o qual é inevitável quando o pensamento joga a sua dialéctica do prazer e do remorso.
De meditação, sobram os gurus que a moda acomoda e sobram os processos ilusórios de fuga e rendição.
Faz alguns anos, naqueles encontros havidos na casa do Professor Agostinho da Silva, apareceu por lá um desses gurus em sobra, tido como destacado dirigente de um certo grupo esotérico (?) que resolveu, vejam bem, ensinar o Professor a meditar. «Ó Professor, faça assim, ponha as mãos assado». Até que o visado, incomodado com tanta presunção e estontearia, exclamou: «Ó homem, deixe-me! O que é que pensa que eu faço todo o dia?»
É isso. A meditação só pode ser o que fazemos todo o dia, tem de estar em todos os nossos actos, num modo de atenção e percepção que nos conduza ao autoconhecimento, porém, o autoconhecimento não é o que mais comumente se pensa que seja.
Ilude-se aquele que afirma conhecer-se – eu conheço-me muito bem – porque só se conhece quem não julga nem se julga, quem não projecta no eu os seus desejos e crenças, a sua sombra, na linguagem junguiana. No autoconhecimento não se fazem conjecturas nem juízos morais sobre o que somos ou não somos, apenas se percebe o que somos com todas as nossas características indivisíveis em conceitos de vícios e virtudes.

Não há meditação sem autoconhecimento nem este sem aquela. Sem autoconhecimento, o que quer que se entenda ou faça como meditação é do domínio do ilusório, da sujeição aos caprichos, aos modelos, às crenças, às superstições, tudo coisas que nos limitam, quando a verdadeira meditação, que podemos chamar de êxtase, ou de contemplação implica liberdade plena. Tal liberdade exige romper com o fluxo do pensamento e quebrar as cadeias do próprio conhecimento, todo ele feito de memórias encadeadas e raciocínios tramados pelo tempo passado. Todo o conhecimento produzido pelo intelecto é uma arqueologia, um reviver do passado, uma coisa morta – todo o passado é morte – uma negação da eternidade. Damos de barato que é a nossa circunstância, mas contrapomos que não é a nossa natureza mais íntima, a qual só perscrutamos quando o tempo se dissolve, o pensamento se detém e a mente se aquieta.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

VENHA DE LÁ ESSA JUSTIÇA

Começo a convencer-me que a Matilde teve sorte com a Professora. 

Da senhora pouco sei, a não ser o que escrevi nas primeiras páginas deste diário ao que nada posso acrescentar neste entrementes. 

Da profissional, após a primeira semana de trabalhos, tudo indica que estamos perante alguém que sabe o que faz e que para além de conhecedora das melhores formas de cativar os pequenos e de os preparar para começarem a adquirir os alicerces da linguagem escrita, sabe reger-se pelo bom senso que proporciona a necessária paciência para quem pretende colher os frutos de uma sementeira. 
Já mostrou a firmeza que deixa os bons hábitos aparecerem e medrarem, ao mesmo tempo que faz uso de uma disponibilidade para acompanhar que geralmente propicia que o mando esteja mais ligado ao carisma do exemplo do que à imposição. E nas poucas ocasiões em que a vi relacionar-se com os alunos, percebi que o faz com naturalidade e sem transgredir o seu papel. 

A Matilde não manifesta incompatibilidades, pelo contrário. Embora me pareça que ela tenha consciência da obrigação de estar atenta e de ter um comportamento adequado o que, à partida, é independente da pessoa da docente, não deixa por isso de simpatizar com a Professora, o que é patente no à vontade com que está junto dela e na alegria que mantém quando sabe que a vai encontrar. 


Que tudo assim se mantenha, é o meu maior desejo. 


Ora vêm estas linhas a propósito do que a minha querida filha descreveu da aula desta manhã. 

É que se nós aprendemos com a cabeça, também o fazemos com o coração. É sempre mais fácil debruçarmo-nos sobre aquilo de que gostamos. 
Deve ser esta a ideia que subjaz ao que se passou hoje. 

Houve um jogo de início, o chamado jogo dos cumprimentos, em que as crianças se apresentavam de uma determinada maneira obrigatoriamente diferente das antecedentes. 
Depois prosseguiram os desenhos e as pinturas, com a novidade de cada menino(a) ser chamado(a) a fazer um boneco no quadro. 
E já realizaram uma ficha em que fizeram grafismos sobre os congéneres tracejados no livro. 

À saída, o pardalito voltou a afirmar que a manhã tinha sido agradável e que tudo tinha corrido bem. 



O Tribunal Constitucional deu provimento aos recursos do Embaixador Jorge Ritto e dos Drs. Paulo Pedroso e Hugo Marçal, pelo que o Supremo Tribunal de Justiça deverá pronunciar-se uma vez mais sobre os fundamentos das prisões preventivas daquelas pessoas que estão constituídas como arguidos no caso do abuso e exploração sexual de menores, na Casa Pia. 

Vamos lá ver o que isto dá. 

Esperemos não vir a ter um desfecho semelhante ao do processo das FP 25 em que os arrependidos foram os únicos condenados, acabando os restantes réus sentenciados inocentes. 
Fez-se justiça, ora bem, não havendo provas, não pode haver condenação. 
Mas não deixa de ser arrepiante que se tenha criado o estatuto de arrependido e negociado essa condição para alguém, com isso aliciando uma confissão, para depois apenas condenar essa pessoa pela matéria confessada. 
E por fim uma gracinha. O Ministério Público deixou que expirassem os prazos para o recurso. 


Talvez seja esta justiça que melhor calha com as defesas que assentam os mais relevantes argumentos nas minúcias de certos mecanismos legais para que tudo se prolongue até às prescrições ou sentenças a contento. 


É que este chamado caso da pedofilia, entre outras coisas, põe a nu o sistema de justiça que temos vindo a ter nas últimas décadas. 

Por entre o alarido, ficámos a saber dados tão edificantes como aquele que deixa bem claro os alçapões legais que possibilitam os truques com que uma defesa disponível para pagar conseguiu protelar processos que o tempo se encarregou de fazer caducar e expirar. No contexto do requerimento da interdição do Juiz Rui Teixeira, chegámos ao ponto de um alto responsável da ordem dos advogados para a região de Lisboa, dizer que foi assim que a defesa agiu no caso do Aquaparque – e todos nos recordamos do desfecho que teve, não é verdade? 
Caído um dos pares nas malhas legislativas que os parlamentares, de acordo com as respectivas expressões políticas e partidárias, teceram em sede e por direito próprios, assistimos ao eco mediático do ai Jesus que muitos desses mesmos intérpretes do poder político logo lançaram sobre essas leis de que eram os principais responsáveis. 
E depois vimos as pressões inaceitáveis sobre um Juiz em pleno exercício de funções, sequer se inibindo os seus promotores do recurso à mentira, pura e simples – aconteceu quando o causídico de um dos arguidos disse a um canal de televisão que não iriam conhecer a verdadeira identidade das testemunhas ouvidas para memória futura, algo que é explicitamente contrariado pelo despacho em que o meritíssimo aceitou o método da vídeo-conferência para aquele acto processual; aí se afirma que advogados e constituintes terão acesso directo à imagem e à identificação de cada uma daquelas pessoas – e como se isto não fosse de bradar aos céus, houve ainda espaço para ameaças físicas, acompanhadas de difamação e nem faltou, ou não estivéssemos no paíszinho em que metade escreve e a outra metade não lê, a teatralidade – patética ou tenebrosa? – de uma mensagem codificada. 
Se alguma réstia de dúvida ou de esperança houvesse, ficámos definitivamente a saber que vivemos numa espécie de oligarquia partidocrática, em que se criou um sistema no qual os mais poderosos têm todas as possibilidades de conseguirem para si um estatuto de quase total impunidade, sem terem que prestar, se assim o desejarem, as devidas contas, qualquer tipo de contas, a quem quer que seja. Eles conseguem impor as suas vontades e propósitos ao próprio estado. 
Não é em vão que, na União Europeia, vamos no pelotão da frente em índices de corrupção. 

Exageraremos se dissermos que os criminosos, no nosso país, têm mecanismos legais do lado deles? 



É claro que o Hamas não aceita tréguas. 
Desde quando é que o terrorismo pode aceitar a paz? 

Pois a nossa tragédia de europeus é que não temos dirigentes capazes de lidarem com esta ameaça letal para o nosso modo de vida. 

Oxalá que os nossos filhos e netos não venham a escarrar nas suas memórias. 


Pairam novas formas de tirania no horizonte. 



E eu que tanto amo as minhas filhas. 

Alhos Vedros 
  25/09/2003

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

REAL... IRREAL... SURREAL... (143)

Retrato de Madame Bénard, Vuillard, 1930
Óleo sobre Tela, 114,5x102,5


O QUARTO DE PENSAR

Os seus dias compunham-se de poucas coisas e mesmo essas ficavam nada quando a irmã chegava da escola, ao fim da tarde.
O quarto não o era nem nunca o tinha sido sem ser apenas de nome. Nunca ninguém lá dormira e os miúdos chamavam-no assim por nada. 
Era um espaço grande, em tamanho e em palavras escondidas e era quase todo da mesma idade, não fosse aquela cadeira nova. 
Ignorado, o quarto de pensar esperava, também ele, a menina que havia de chegar da escola. Era ela, a menina mais velha que lhe dava uma vida… uma vida contada numa pergunta onde haveriam de caber todas as vidas, de todas as pessoas. Passadas as coisas normais, eram assim os seus dias. Num quarto, a pensar.
Hoje, as memórias são gastas e as palavras calaram-se. Numa cadeira, uma senhora de cabelos muito brancos e lisos senta-se, já sem forças. 
Os olhos, apenas os seus olhos, sustêm uma pergunta eterna. 
Vamos para o quarto pensar?

Passadas as coisas outrora normais, volto novamente a ser menina e a minha irmã mais velha regressa da escola. A cantar. 


Maria teresa Bondoso

domingo, 2 de agosto de 2015



Maresia
Encosto-me vendo o mar
Na orla marítima estendo-me para lá do céu
O Sol permanece inerte
À constante mudança do mundo.
 
 
O que sou??
 
Inconsciente, o traço que separa
A Terra do Universo
Lança a questão ao espírito que me pertence.
O infinito é do tamanho do céu que sustento
Sentado nesta cadeira.
Para que serve pensar??
 
Um barco vai a passar ao largo da costa
E uma luz piscando ao longe
Faz parecer que o dia nasceu
Para que nos amemos uns aos outros.
A maresia que do outro lado do mundo
Traz nostalgia e saudade, e eu:
Quem sou??
O rasto da noite que passou
Fez com que este dia chegasse
Para me abraçar,
Esta luz que pelo mar vem estonteante
Segreda-me as minhas dúvidas de mansinho
Tão de mansinho que só de as ouvir
Vale a pena existir para duvidar.
Diogo Correia
 

quinta-feira, 30 de julho de 2015

terça-feira, 28 de julho de 2015

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

Adulto que a disciplina não tenha aprendido em pequenino, apenas reconhecerá a imposição.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

REAL... IRREAL... SURREAL... (142)


UM PECADO APENAS
Caminha o velho por entre álamos
E pensa
Que a vida lhe deu como recompensa
Sensuais desejos
Milhares beijos
Alcovas de cetim
Mulheres belas
Caricias de donzelas
Arfar de peitos
Encontros satisfeitos

Quanta embriaguês
Paixões voluptuosas
Ardentes formas
Assassinaram férvidos
Desejos
E ele ali entre arvores
Silentes
Clamando entre lagrimas
Tão somente
O ultimo beijo

Entre as ramagens
Das copas das arvores outonais
Um raio de luz beijou-lhe a fronte
Borrifando de brilho olhos embaçados

Arrependeu-se de todos os pecados
Menos um
Por não ter amado mais


Copy Jorge A. G. Lemos - Sombras e Fragmentos

domingo, 26 de julho de 2015

 
MIRADOURO 26 / 2015
 
(esta rubrica não respeita as normas do acordo ortográfico)
 
 
 
VONTADE
 
 
Quando
de súbito
 surge um rubor
espontânea manifestação
de exaltação
que por dentro se acende
de causas indeterminadas
é-nos indispensável
pois que
garante por si mesmo
que estamos vivos e
ansiamos.
Porque
nessa exaltação
que é sempre um começo
que
umas vezes
se agiganta
e outras
esmorece
se tempera
e eclode
o que chamamos  
vontade.
Vontade de
vontade para
vontade por
sei lá…
 
Cada novo ciclo
que surge
e começa
anuncia-se energia
a querer ser
vontade
silenciar gritos de fora
ouvir a voz de dentro
 magma do que somos
que envolve e alimenta
a genuína crença
da possível felicidade
sem que fado algum
a vença.
 
Vontade.
 
 
 
Manuel João Croca
 
 
 
 


Foto de Joana Croca

sábado, 25 de julho de 2015

quinta-feira, 23 de julho de 2015

SILÊNCIO

A reafirmação do ocaso
sucessivo ao decorrido. Tempos
eleitos em esquecimentos. Torpor
                                           e formato.

A recondução do corpo ao silêncio
originário. O primeiro sinal de vida
escrito no todo universal.

             A solidão se completa
                em esquecimento
                     e silêncio.

(Pedro Du Bois, inédito)

terça-feira, 21 de julho de 2015

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

O SÉRIO FORA DA ESCOLA

Um país que não invista a sério na educação condena-se, a prazo, a permanecer na periferia do desenvolvimento. Olhando a História, pouca margem nos resta para deixarmos de considerar esta ideia um axioma. Com efeito, todos os estados que na actualidade estão no topo, já há muitas e muitas gerações que fizeram da escola um veículo de formação das populações, generalizando, progressivamente, à maior malha possível o acesso à escolaridade básica, ao mesmo tempo que procuraram criar universidades com corpos de docentes e trabalhos de excelência. 
Isto deveria integrar o discurso comum entre nós mas, infelizmente, tal não acontece e é isso que explica que sem qualquer incómodo, tanto políticos como os técnicos implicados possam ter andado, nos últimos trinta anos, a brincar com reformas e reformulações cujo resultado se visualiza no facto dos nossos alunos revelarem os mais altos níveis de iliteracia na União Europeia. Entre esses nossos parceiros, apresentamos as piores performances ao nível da aprendizagem da língua materna e das matemáticas e ainda da Física e das ciências em geral. 
Sob pena de caminharmos para uma sociedade de pobreza, é imperioso que os portugueses alterem esta realidade. É este o nosso primeiro grande desafio para as primeiras décadas do século vinte e um.

O que é investir no ensino? Em termos genéricos, é claro, é muito simples. É propiciar que os discentes acedam a conhecimentos e competências que lhes permitam, se for esse o seu desejo, prosseguir os estudos em qualquer área ou, em alternativa, entrarem para o mercado de trabalho com todas as bases necessárias para que possam ser eficientes e produtivos e capazes de atingirem os mais altos graus de produtividade, mais uma vez, seja qual for o campo em que procurem aplicar-se. 
Mas é claro que o ensino é a melhor oportunidade que temos para procedermos à transmissão de valores e comportamentos que fazem os povos civilizados. Neste sentido, a resposta à pergunta anterior também passa por uma escola em que os alunos, para além dos objectivos didácticos, propriamente ditos, ali experimentem e aprendam a ser cidadãos de pleno direito. 

Como tudo isto se materializa é tema para outra ocasião. 

Antes de mais importa compreender que a escola relativista e facilitista – permissiva quanto aos comportamentos e pouco exigente no referente à aprendizagem – que temos não presta. O que ela conseguiu fala por si. 
Sem embargo, devemos ter presente que ela partiu de dois pressupostos falaciosos. 
Ao confundir a validade e o domínio de aplicação da Pedagogia com o extravasamento das suas competências para lá da sua realidade de corpo metodológico e tecnológico para melhor transmitir conhecimento e ao conferir maior importância às manifestações ideológicas que em ela veem, preferencialmente, uma espécie de filosofia do acto de ensinar, com esse engano como ponto de partida, os responsáveis pelo sistema vigente acabaram embrulhados em estéreis discussões sobre a possibilidade de ensinar e a liberdade de querer aprender e, com isso, de espantar seria se a mediocridade fosse ultrapassada. 
A outra falácia é o relativismo cultural que não faz qualquer sentido em termos gnosiológicos e, no concreto, só serve para criarmos falsos argumentos que desculpabilizam o mal. 
Academicamente remonta à tentativa de Bergson (1) de aplicar a teoria da relatividade de Einstein à compreensão dos fenómenos culturais. É conhecida a deficiente interpretação que o filósofo fez do que o físico escreveu. (2) Por outro lado, sabemos que o extravasamento para a realidade multi-cultural do planeta não tem qualquer razão de ser, muito particularmente no que concerne à relativização dos valores. As diferencialidades culturais da nossa espécie advêm das diversas adaptações a ecossistemas e equilíbrios ambientais muito variados. Assim, é tão irrelevante falar da igual importância das culturas humanas como seria pernicioso defender que umas são mais importantes que outras. O mesmo acontece com os valores que derivam justamente da multiplicação das experiências culturais. Mas há alguns que são universais, isto é, passíveis de serem apreendidos por todo e qualquer indivíduo e nada impede que não possamos preferir alguns em relação a outros. Isto não determina quaisquer imposições, mas pode muito bem requerer o reconhecimento, o que não é de somenos. 
Além disto, os arautos desta maneira de ver o mundo deveriam estranhar a companhia. Esse foi o argumento de Goering em Nuremberga, quando defendeu que os Aliados não tinham autoridade moral para o julgar; também essas sociedades tinham os seus crimes. Levado ao limite é a isto que nos conduz, pois deixamos de dispor de qualquer fundamento para afirmar as premissas de um julgamento da maldade. 
Ora acontece que foi com base nestas ideias que se criou uma mentalidade dominante que aceita que a escola deve atender às especificidades dos que a frequentam e agir em conformidade o que acabou por se traduzir na indecisão e no não ensino de massas. 

Se queremos investir a sério na educação, em primeiro lugar, deveremos por fim a este caminho enganador. 

Este é um resumo das teses que tenho defendido em artigos que já publiquei e em outros que publicarei sobre o ensino em Portugal, escritos em função de um dos âmbitos da actividade da associação de pais. 
Folgo por ver que é essa a perspectiva do editor da Gradiva. 


Não sei se adiante não voltarei a debruçar-me sobre algumas das ideias que expressou numa entrevista que deu ao “Notícias Magazine”. (3) 



Na sala da Matilde é que a avaliar pelas suas palavras, as coisas nada se parecem com isso. Ao contrário, por ali permanece o bom senso e a boa fé. 

Ela contou que a Professora costuma observar os meninos durante o intervalo o que naturalmente contribui para um recreio divertido mas dentro do razoável. 

É a sabedoria da experiência, parece-me. 

Segundo a Luísa, ainda há meninos e meninas que choram por ficarem na escola. 

Talvez por isso a aula ainda continue a ser ocupada com pinturas e desenhos. 
Há que dar tempo para as ambientações. 



E eu vejo-me forçado a concordar com o ponto de vista do primeiro-ministro sobre o problema do Iraque. 
Não podemos subalternizar o papel das Nações Unidas, mas também não podemos permitir que a partir dela se crie a inoperância. 
Importa pois continuar a ocupação militar do Iraque para que o país possa reconstituir-se o mais rapidamente possível e progressivamente criar as condições para uma nova administração e governo próprios. 

Do sucesso de um Iraque livre depende, em grande parte, a paz mundial. 



Bem, mas agora vou-me despedir do calor da noite com um cigarro de olhar as estrelas. 
Depois lerei antes de me deitar. 

Alhos Vedros 
  24/09/2003 


NOTAS 

(1) Russel, Bertrand, HISTÓRIA DA FILOSOFIA OCIDENTAL, Vol. II, pp 282 e ss 
(2) Sokal, Alan e Bricmont, Jean, IMPOSTURAS INTECTUAIS, pp 177 e ss 
(3) Valente, Guilherme, TEMOS UMA ESCOLA QUE MENTE, pp 47 e ss 


CITAÇÕES BIBLIOGRÁFICAS 

Russel, Bertrand, HISTÓRIA DA FILOSOFIA OCIDENTAL, Vol. II, Tradução do Professor Dr. Vieira de Almeida, Círculo dos Leitores, Lisboa, 1977 
Sokal, Alan e Bricmont, Jean, IMPOSTURAS INTELECTUAIS, Prefácio à Edição portuguesa pelos Autores, Tradução de Nuno Crato e Carlos Veloso, Gradiva (1ª. Edição), Lisboa, 1999 
Valente, Guilherme, TEMOS UMA ESCOLA QUE MENTE, Notícias Magazine de 21/09/2003, In “Diário de Notícias”, nº. 49122, de 21/03/2003

segunda-feira, 20 de julho de 2015

REAL... IRREAL... SURREAL ... (141)


À Rússia, aos Asnos e aos Outros, Chagall, 1912
Óleo sobre Tela, 156x122 cm


 Quem não é tocado pelos poemas pintados de Chagall, nunca foi criança.


António Tapadinhas

domingo, 19 de julho de 2015



MIRADOURO 25 / 2015

(esta rubrica não respeita as normas do acordo ortográfico)


Alternância ou Alternativa


Parece cada vez mais evidente que o que está em causa na Europa é muito mais do que a eventual saída da Grécia da União Europeia ou do Euro, da mesma forma que por cá as perdas são muito maiores do que os direitos, regalias e exclusão social traduzidos na emigração em massa e no empobrecimento da esmagadora maioria dos portugueses.
Não, o que está verdadeiramente em causa em toda a Europa é a sobrevivência da própria Democracia e o seu exercício. Depois desta ofensiva continuada partiram-se os últimos cacos que ainda restavam da confiança nas Instituições.
Ninguém mais acredita nas Instituições – quer se chamem governo, presidente da república, assembleia da república, união europeia, … - ou nos “políticos” (nunca os mandantes políticos em exercício mentiram tanto e tão despudorada e impunemente) e daí deriva o alheamento cada vez maior dos cidadãos pelo chamado “processo democrático” e o seu funcionamento. As soberanias nacionais existem cada vez mais e tão só no papel que não na capacidade de decidir dos destinos dos povos e países. A angústia das pessoas situa-se, cada vez mais, não em torno da escolha de em quem acreditam antes em que será menos mau.
A situação é muito grave e perigosa e pensar-se que o retrocesso chegou ao fim é uma patranha em que não se deve acreditar. Apesar de nos últimos anos, ainda que a níveis e ritmos diferentes de país para país, o retrocesso civilizacional equivaler a várias décadas, é possível retroceder ainda mais e consequentemente ficarmos pior, da mesma forma que é possível travar a ofensiva e recuperar. Tudo dependerá da forma como exercermos a cidadania, da disponibilidade para missões e compromissos, das escolhas que fizermos e, em suma, da história que formos capazes de escrever.
Precisam-se novos intérpretes.
Intérpretes que sejam intelectualmente honestos e com sentido de estado, com espírito de missão que não satisfação de ganância e interesses, com capacidade de diagnosticar correctamente a origem e extensão do mal, definir terapias apropriadas e capacidade concretizadora para as realizar.
Precisamos de intérpretes credíveis.  
Precisamos de Estadistas.
Sabemos que tantos anos de corrupção instituída e generalizada fez rarear esses perfis mas, ainda existem por aí alguns. Em nome da possibilidade de um melhor futuro seria indispensável que estivessem dispostos a avançar e que tivéssemos o discernimento, independência e coragem de os escolher e apoiar assumindo cada um o papel que lhe cabe na construção dessa transformação que se chama alternativa.

Manuel João Croca   


sexta-feira, 17 de julho de 2015

Etnografar a Arte de Rua (XI) Graffitar a Literatura





















Graffitis fotografados por Luís Souta, 2015.
Rua das Rosas, Bairro das Portelas, Cascais.


Este é um dos cinco novos mural paintings que a vila de Cascais “adquiriu” no âmbito da 2ª edição do “Muraliza - Festival de Arte Mural”, que aí decorreu entre 29 de Junho e 6 de Julho do presente ano. Uma interessante iniciativa que procura «reforçar o estatuto de Cascais como berço de todas as expressões artísticas de rua em Portugal».

O autor deste graffiti urbano é o italiano Millo. Pintou a fachada lateral de um conjunto de quatro lotes – casas sociais, da tipologia espoliadora de varandas. Essa linha de prédios, de três andares, fica situado muito perto do bairro onde resido. Por isso, tive a sorte de o ver, durante uns dias, concentrado no seu labor artístico: de trincha na mão, em cima de uma grua, dando corpo a esta ‘criança’ montada no seu cavalinho de madeira azul e vermelho, em primeiro plano, e, em fundo, uma moderna cidade, clonada de edifícios-caixotes, a preto e branco.

Ali passei várias vezes para o fotografar. A arte de rua tem esta peculiaridade: permite, a qualquer um, assistir, in loco, ao decorrer do processo criativo. Tal não é possível quando o pintor trabalha no seu ateliê, resguardado dos olhares do público que só conhecerá o produto, depois de acabado, quando exposto. Eduarda Dionísio no seu romance As histórias não têm fim (Cotovia, 1997, pp. 194 e 195) mostra-nos como esse privilégio fica reservado àqueles com quem o artista partilha a intimidade:

«Quando Helena chega a casa, o pintor está precisamente a assinar o último quadro, uma tela enorme, a que falta para encher a parede do fundo da exposição que se inaugura dali a dois dias e que está quase montada, um quadro que portanto não figurará no catálogo. (…)

Depois de assinar o quadro, ele retoca ainda um canto, passa laca de garança por cima dum vermelhão, em transparência. Já podem vir buscar o quadro quando quiserem. É só ela telefonar. (…)

Acabei o quadro, diz. Podes telefonar para a galeria quando quiseres.

Abraçam-se e beijam-se como há muito tempo não faziam. Riem os dois pouco mais ou menos como antigamente.

Ele diz
posso fazer-te o retrato?

E naquela mesma tarde pôs outra tela no cavalete, nem grande nem pequena.»

Eduarda Dionísio deve ter tido essa dádiva de seu pai, o pintor (e também escritor e professor) Mário Dionísio (1916-1993), um dos principais teorizadores do neo-realismo nas artes plásticas, que pel’ A Paleta e o Mundo viria a receber, em 1964, o Grande Prémio de Ensaio da Sociedade Portuguesa de Escritores. Esta obra tem sido dissecada em múltiplas sessões de “leitura comentada” que se vêm realizando na “Casa da Achada - Centro Mário Dionísio”, em Lisboa (Mouraria) http://www.centromariodionisio.org/ Este dinâmico Centro, de cultura e animação, é fruto do amor, gratidão e enorme admiração da filha pelo seu pai. Filha que herdou o património artístico e cívico de uma figura ímpar do século XX português, e ao dar-lhe continuidade, ampliou-o.

Luís Souta