sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Uma arqueologia de Pascoaes



Quando Guerra Junqueiro, após a leitura de Embryões, mandou dizer a Teixeira de Pascoaes que se deixasse de versos, lançou sobre o seu livro de estreia – que, 120 anos depois, enfim se reedita em fac-simile – um imenso anátema. O noviço queimou então quantos exemplares pôde reunir e renegou tacitamente um livro assim deixado à disputa dos bibliófilos. O severo juízo final de Junqueiro e o holocausto após o tirocínio comunicaram-se impressivamente à fortuna crítica futura da obra.

Embryões – logo o título indica – é o livro de um principiante. Não será, pois, de estranhar que versos frustes ou incipientes se inscrevam nas suas estrofes. A candura do lirismo deste primeiro Pascoaes, permeável ao romantismo tardio, revela-se, por exemplo, na expressão solipsista do sentimento saudoso, na interpelação da Natureza obsidiante, na atracção pelo remoto e pelo exótico. Ainda que a cadência e a ambiência do seu poema inaugural, “Eras passadas”, sugiram já a fulguração da Elegia do Amor, não raro, neste livro, as imagens cedem aos estereótipos e sucedem-se em réplicas que se extremam na repetição de rimas.

Tanto basta para o encerrar no rol curioso dos documentos raros? Não creio. A si mesmo o poeta se absolve no soneto dedicado “A M…”, ao confessar que abandona a sua fraca lyra quando quer medir a noite do Infinito. Em 1916, n’A Alegria, a Dor e a Graça, com Pascoaes já firmemente creditado como criador e Junqueiro incensado na ara da consagração, Leonardo Coimbra, após lembrar que a capacidade artística depende de dois factores, a receptividade e a exprimibilidade, dá os dois grandes poetas como desiguais possuidores destas qualidades: em Pascoaes é mais espontânea a receptividade e mais difícil a expressão; em Guerra Junqueiro é mais lúcida a expressão e mais intelectual e atenta a receptividade. A prevenção do filósofo auxilia a ponderação de um juízo sobre Embryões, porquanto o acabamento estético não atinge nunca em Pascoaes, mesmo no mais tardio, ao menos de modo constante, a refinação refulgente em Pessoa, Pessanha ou Régio.

Tomando a literatura como expressão do sobrenatural segundo a lição de Teixeira Rego, já prenunciada em Sampaio Bruno, de cuja morte se comemora este ano o centenário, e actualizada por Álvaro Ribeiro, Pascoaes via no poeta o profeta ou o vate – o visionário que vaticina – segundo a distinção, n’Os Poetas Lusíadas, entre a poesia espontânea, Verbo enamorado das cousas e dos seres que nele se reflectem e vivem, cedendo instintivamente ao ritmo da sua expansão natural, e a poesia culta, que, obediente ao preconceito formalista da escola, ostenta, aprisionada, o luxo do seu vestuário. A esta luz, as referências, em Embryões, a Dante e a Beatriz, mais do que desculpável pretensão erudita, podem bem ser a chave autêntica de um reconhecimento.

Na História Secreta de Portugal, António Telmo define Pascoaes como o poeta da Natureza. Um dos veios que já em Embryões se relevam é o da ressonância cósmica com que o sentimento, alegre ou doloroso, dos seres e das coisas se amplia na ideação do poeta, invadindo a noite do Infinito que, como se viu, ele quer medir. Aqui, desde logo, germina o pensamento sentimental que Pascoaes elucida n’O Homem Universal. Nota significativa de quanto em estado larvar se surpreende no livro de 1895 reside no registo reiterado do medo infundido pela presença de entes naturais ou sobrenaturais, que n’As Sombras, obra madura de 1907, Pascoaes, segundo Telmo, dominará pela invocação.

A leitura de Embryões, onde poemas vinculados como “As geleiras do Norte” e “O Egito” preludiam, pela dualidade contrapolar do simbolismo cosmológico, uma visão larga do chiaroscuro da Saudade, pode ser encarada como uma arqueologia de Pascoaes, isto é, como um discurso sobre os princípios operativos e especulativos da sua obra. Neste sentido, o soneto “Valjean”, onde o herói huguesco é saudado como metamorfose imensa do Universo, mais do que um eco entusiástico da leitura de Os Miseráveis, ou do que o prenúncio de “Victor Hugo”, artigo publicado na 1.ª série de A Águia, antecipa a polémica sobre «O Sentido da Vida», onde Valjean, criatura do Reino Psíquico, culmina, na visão de Pascoaes, um evolucionismo espiritualista movido pela sucessão sacrificial dos reinos mineral, vegetal e animal. E se a consciência moral depositada em “A engeitada” anuncia já a beleza indignada e condoída dos quadros de Para a Luz, o derradeiro terceto de “As geleiras do Norte”, onde se acusa o jesuitismo e a negra Inquisição, prefigura o anticlericalismo pascoalino, vincado nos textos da campanha saudosista e jamais abandonado pelo poeta.

Uma semana depois do Congresso “A Arte de Ser Português no centenário da sua publicação”, no âmbito de um fecundo Triénio Pascoalino que muito fica a dever à dedicação de Sofia A. Carvalho, o lançamento de Embryões, com autorizado prefácio de António Cândido Franco, acentua a perenidade de Pascoaes.

Pedro Martins

[Teixeira de Pascoaes, Embryões, Câmara Municipal de Amarante, 16 + 133 pp.]

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

ESTUDO DO RIO E DO CÉU E DAS OUTRAS COISAS GERAIS QUE ENTRE ELES SE ENCONTRAM



por Risoleta Pinto Pedro

Filosofia & Presépio

“ […] A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.
[…]”
Alberto Caeiro


Em Filosofia & Kabbalah, de António Telmo, um livro em renascimento neste tempo de Natal, através da sua reedição ampliada enquanto IV volume das Obras Completas, diz o filósofo, nesta minha velha amiga, a edição de 1989 da Guimarães:
“No quadro original da filosofia de língua portuguesa, isto é, nas expressões nossas de amor à sabedoria, existem «luzes», como diria o poeta, capazes de nos fazerem ver. E uma dessas luzes é o sentimento português e brasileiro de Deus como Menino, o qual já Unamuno dizia caracterizar o nosso Cristianismo. Terá havido quem, ao ler o poema VII do Guardador de Rebanhos, se tenha sentido indignado com a malícia, que roça a blasfémia, como aí é tratada a Trindade Católica. O que aí há, porém, é ensino de boa teologia cristã e um desaprendizado ou desfazer das imagens religiosas que, por via directa ou indirecta, a educação clerical prendeu ao inconsciente. “

Afirma mais à frente:

“À visão original do mundo chamei eu, linhas atrás, visão infantil do mundo. E está certo, desde que, recordando o que Fernando Pessoa escreve em Páginas de Doutrina Estética sobre Afonso Lopes Vieira, não se atribua às crianças a imaginação que o adulto julga que elas têm. A definição foi já dada: «ver» pela primeira vez o que se repete, deter-se maravilhado perante as coisas e os seres como se nunca tivessem sido vistos. E então tudo surge aos nossos olhos «como fenómeno», como o que não estava ali e de repente «aparece» e mostra no aparecer tudo o que é. Assim, na imaginação infantil, não há imaginar ou sentir: através dela o espírito actua como um fiat. O Menino Deus é o «Guardador de Rebanhos» e o filósofo que vai com ele de mãos dadas pelo campo é, como diria Heidegger, «O Pastor do Ser». “

E é aqui que toca, para mim, neste tempo de advento, o essencial: cada vez que refaço ou actualizo ou enceno, em cada ano, a constelação presépio, nunca o meu olhar é igual. O presépio tem a força mágica de pintar ou dotar os meus olhos de uma visão nova: o menino, sendo o mesmo, nunca é igual, e o mesmo com os outros arquétipos. Não só no lugar que ocupam relativamente uns aos outros e a mim mesma, mas eles próprios mudaram. Ou foi o meu olhar.
Não conheço melhor definição de presépio:
“E então tudo surge aos nossos olhos «como fenómeno», como o que não estava ali e de repente «aparece» e mostra no aparecer tudo o que é.”
Um físico quântico não diria melhor.
Num documentário sobre a realidade do ponto de vista quântico que vi há tempos, existe uma cena em que uma mulher se levanta de manhã e ao correr os cortinados para olhar a rua, subitamente tudo se reagrega, como um cenário que não estava lá, mas a que os olhos dão vida.
Assim é o meu presépio, a “visão original do mundo”, nas palavras de António Telmo.
Para todos, um muito Feliz Advento! Novo, novinho, a estrear. De tão repetidamente original.



Votos de um Natal, Advento, Solstício ou Renascimento à medida do que for, para cada um, a ideia da felicidade ou apenas suave e intensa serenidade. Que o menino sábio universal  se espreguice e desperte dentro de nós ao ritmo que a cada um aprouver. Para felicidade das almas em corpos saudáveis e tranquilos. 
R


quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

MISTÉRIO


Às vezes
- raras - o estrangeirismo solicita a tua presença
escondida
atrás das obrigações: descobres não haver esconderijo
                               nem mistério.

A estrangeira se revela
entre noites mal dormidas
e o choro da criança.

                Depois enxergas
                o lado visitante
                e te acolhes no esquecimento.


Pedro Du Bois
in, Tânia: Poemas, Projeto Passo Fundo, 2015
( blog: pedrodubois.blogspot.com )


terça-feira, 8 de dezembro de 2015

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

THE WONDERLAND 

Aqui há gato, o mesmo é dizer, nestes assuntos, engenharia financeira. 
O primeiro-ministro anunciou que no próximo ano será possível reduzir os impostos e, simultaneamente, aumentar o investimento público em cinco por cento. 
Certamente, tal só será viável com um aumento do défice público. 
Será isso compatível com a necessidade de manter o défice orçamental abaixo dos três por cento que nos é imposta pela integração no Euro? 

Cá para mim, isto é mais uma manifestação daquele velho hábito de falar para não estar calado. 


Mas depois quando lemos que os cortes previstos vão direitinhos para a educação, a saúde e os assuntos sociais, ficamos cientes que a ideia continuará a ser que os mais pobres paguem o despesismo de quem vive à sombra do erário público e que, para nosso regalo, se traduzirá em coisas tão prementes e economicamente estimulantes como dez estádio de futebol. 



Em contrapartida temos a contestação estudantil na rua. De Norte a Sul e um pouco por todas as universidades públicas, os alunos dizem não ao pagamento de propinas, pelo menos ao aumento que se pretende para valores máximos à volta dos oitocentos euros. Convenhamos que em Portugal seria muito difícil suportar um ensino superior inteiramente gratuito e não sei se tal seria aconselhável e não só por motivos que se prendem unicamente com o ponto de vista e interesses dos discentes. 

Mas é claro que o financiamento do ensino superior público é um problema sério e bom seria que entre nós se compreendesse que não deixaremos o limbo do desenvolvimento enquanto não tivermos uma formação de elites ao melhor nível do que há por esse mundo fora e isso, atendendo à nossa realidade, só se conseguirá com políticas, propósitos e medidas que, necessariamente, acarretarão o gasto de muito dinheiro. 

Logicamente, a parte de leão deve caber ao estado já que estamos a falar de um interesse geral. Contudo, se o directo beneficiário der um contributo, não me parece que haja nisso algo de errado. Obviamente, salvaguardando as possibilidades daqueles que sendo capazes de obter bons resultados, não possuam os meios financeiros para o fazer. 
Quanto aos valores, o bom senso acabaria por resolver o caso. 



Bom senso que é precisamente aquilo que não parece existir, quando o grande acontecimento será o regresso de um arguido à bancada do maior partido da oposição. 
Ele há a presunção de inocência e isso é incontornável. Mas também há o decoro. 
E o homem, se tivesse vergonha na cara, estando de consciência tranquila, como jura a pés juntos, retirar-se-ia para o recato da sua vida privada, defender-se-ia com os meios que tem à sua disposição – então há ou não há confiança na justiça? – e calmamente esperaria o resultado final que seguramente se traduziria na conclusão da inexistência de indícios e provas do crime ou, perante julgamento, na absolvição. 
Depois retomaria a vida pública e, aí sim, deveria ter a coragem para aguentar as primeiras vagas de desconfiança e a inteligência suficiente não só para as fazer esquecer, como ainda para deixar bem claro que, sem ressentimentos, continuaria capaz de zelar pelo bem público. 
Assim, não; em quatro, dois juízes mostraram-se convencidos de existirem fortes indícios de ter cometido os actos criminosos de que é acusado e não é que o rapaz parece querer vir disposto a empunhar o estandarte da luta contra esse universo tenebroso? 

Com todo o respeito, cheira-me à salazarenta táctica da virtude imposta pela censura e com os exemplares que temos no nosso jornalismo, nem é preciso qualquer velhote com um lápis azul na mão. 



Pois hoje foi dia de passeio para a Matilde. 
A recepção ao novo aluno fez-se do jogo da caça ao tesouro. Deu direito a diploma e tudo. 


Foi um encanto ver o pardalito a contar à irmã como decorreu a manhã. 



Periclitante mas lá vai. 
Eleições no Kosovo em que as forças concorrentes não tiveram que andar sob a vigilância dos acólitos armados. 
No fim, ambos os partidos mais votados se mostraram satisfeitos com os resultados. 

Seria tão bom, uma democracia na antiga Jugoslávia. 



Mas a grande head line está na capa e em oito páginas da revista norte-americana Time que publicou uma reportagem sobre os clubes nocturnos e a prostituição em Bragança, ali elevada ao ponto da rota do alterne europeu. 

O ai jesus da malta do costume é que não se fez esperar e o governo retaliou com o cancelamento da publicidade ao euro que aí vem naquele órgão de comunicação social. 


Tristemente, há aqui uma ironia amarga. 
É que se deu a conhecer um dos atractivos para os bandos de hooligans que se adivinham a propósito da maior realização futebolística de sempre no nosso país. 



Yasser Arafat não consegue dominar nem se consegue separar dos grupos terroristas mais fanáticos e violentos. 

Qualquer solução consistente para o problema israelo-palestiniano terá que passar por cima dele? 



É tão estranho este mundo em que nós vivemos. 


Alhos Vedros 
  14/10/2003

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

REAL... IRREAL... SURREAL... (161)

Albrecht Dürer 1471-1528
Betende Hande (Mãos em Oração) 1508

No passado dia 4 de Dezembro realizou-se o 6.º CENÁCULO - Tertúlia Poética do CACAV, em que foi leiloada uma reprodução emoldurada desta obra para financiar a edição do livro das Poesias Inéditas ditas nestas Tertúlias e pelos poemas colectivos criados em cada uma delas. A seguir a Poesia deste Cenáculo:

VI CENÁCULO - V POEMA COLECTIVO

ODE AOS AMIGOS
Pode nem sempre ser por festa e alegria
Mas será sempre conforto,
Porque o amigo verdadeiro
Tem sempre o fogo interior
Como uma candeia na noite
Sempre pronta a iluminar
E então o amigo
É luz, é amor
É o porto sempre ali
Para nos abrigar
É o irmão escolhido por mim
A minha alma gémea
É um mar sem fim
É a razão de sermos gente
Neste dilúvio de corredores
“- Viva Dona Aurora que lindos olhos de amores.”
E a amizade é intemporal
Neste mar poético, sabor a sal
Neste encontro e reencontros com alegria e amor
Os amigos são como um aeroporto uns partem outros chegam.

Selecção de António Tapadinhas


domingo, 6 de dezembro de 2015

Diagnóstico - "Natureza"


Polifonia cromática pela aurora que rompe o mundo.
Os sons e as cores uniram-se para os homens se beijem uns aos outros.
Céus osculados e ternos da vida, no brilho do olhar humano
Avançam com a aurora cintilante no rasto rameloso que cresce no despertar 
De quem irrompeu de um sonho.

( quanto maior for o brilho no olhar de um homem durante o dia, maior é o rasto deixado por ele no outro dia quando acorda. As ramelas nunca enganaram ninguém, nunca corromperam a sua fiel humanidade.) 

É a busca fraterna e em paz universal que faz os homens beijarem-se.
O humano é um sítio coberto de todas as caligrafias possíveis
E as cores e sons universais uniram-se para que os homens se beijem.
E beijem, nesta eterna aurora cíclica de nove meses rompendo a terra.

O coração de todos os relógios do mundo batem a uma só voz.
Ósculos na madrugada que avança subtil pela saliva do homens que se amam.
Despertadores de cabeceira engenham mecânicos um novo dia (mecânico?)
E ei-lo 
Aí está 
Já está
Criou-se tudo...


Diogo Correia

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Poema de Amor


a meu amor lindo sempre Solange
a Caldeira Duarte autor de" Mataram as Searas" Chiado Editora 1-12-2015

 tenho que bordar o oceano com a ternura desta carne cor de rosa no azul
dos dedos que escrevem o branco caminho da tua vinda em Agosto, rendas
claras da tua saia rodada para viajar pelos lugares das tuas ondas de carinho
comerei as cerejas secas e doces de inverno dos teus seios ausentes das minhas
mãos com flor de laranjeira das saudades do chá do enamoramento escrevo
o poema na tatuagem do corpo no corpo sagrado,

José Gil
1-12-2015


quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Cerrado com Neve





Cerrado com Neve
Kity Amaral
óleo sobre madeira
2001
Passárgada


Ele tem um quê de Natal, Bélgica francofônica misturada com Minas Gerais.
Tudo do Agora.


Abreijos cheios de Luz!

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

“Meu Psíquico Eu Insectífero E Biológico Ao Mesmo Tempo”

Embrulho-me com frio extremo em um mui apertado casulo psíquico
Metamorfoseio-me às pressas e pressionado pelo estresse quotidiano
Transmuto sem me dar conta de que continuo aparentemente o mesmo
Negoceio a mudança de forma atrás de acções financeiras na bolsa de valores
Pode-me chegar a doer a cabeça por falta de óculos de ler ao perto
Continuarei a ser um insecto armado e polivalente e multifacetado
Mantenho a intenção de me encaixar na maneira psicótica de ser de terceiros

Corro ou voo mesmo contra o tempo e a favor da ventania forte vinda do norte
Não me assusta o meu estado de lagarta precoce ou sem experiência alguma
Porquanto polinizo outras mentes com palavras ensacadas e pesadas ao quilo
Até as pulverizo lá do alto enquanto viajo aereamente e mentalmente
Vivo uma vida plena de tantos acontecimentos e de uma magia incompreendida
Interpreto meus vãos reflexos ao espelho como se não estivesse a eles atento
Alugo disfarces em uma casa de motivos carnavalescos e visto-me de abelha

Mudo a pele física de xis em xis tempo e altero minha maneira de ver e ser
Fico translúcido por momentos e da invisibilidade sopro balões de inspiração
Movo-me em tom meio fantasmagórico e deixo um rasto espiritual na parede
Amalgamo ao minuto o pensamento e as ideias amarroto-as sem dó algum
Grilo amiúde quando me entrecruzo como outros de filosofia reciproca
Segredo para o ar novos e velhos conceitos sem me aperceber da quantidade
Passeio com as ninfas imaginárias de braços dados em jardins celestiais

Fujo dos insecticidas a sete pés e viro-me para produtos ditos biológicos
Alimento-me à toa de ilusões e de desilusões larvares e afins mal saio do ovo
Eclodo primeiro a rastejar no seio da realidade e viro-me para outras soluções
Dou uns enérgicos passos movimentados de dança-de-salão com bichos-da-seda
Deixo que as longas asas de borboleta me nasçam no centro das iris dos olhos
Quase me arrepio de vez ao sentir ser parte de um uno criador de tudo isto
Abro os braços de um lado ao outro do universo e abraço todos de uma só vez …

Escrito em Luanda, Angola, a 29 de Novembro de 2015, por Manuel de Sousa, em Homenagem aos Insectos do Planeta Terra, e sobretudo, às Abelhas, às Borboletas, às Formigas e a outros Polinizadores da Natureza, e ao seu tão importante papel e impacto na divulgação, na proliferação, na polinização, na fecundação e na expansão da vida por este nosso único e mágico mundo terrestre…

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

HOJE HÁ CIRCO, AMANHÃ NÃO SABEMOS 

Por cá não são necessários atentados terroristas para dizimar o portuga. Morre-se nas estradas como nos conflitos do Médio Oriente. 
Neste Sábado que passou, perderam a vida em acidentes de automóveis mais portugueses que as vítimas do último grande atentado terrorista em Bagdad. 

A nossa cultura cívica não incorpora a ideia de que não podemos, de modo algum e em nenhuma circunstância, pôr em risco a vida do nosso semelhante. 

São vergonhas da nossa face. É claro que o português dos tempos do salazarismo era maioritariamente analfabeto. Mas quase trinta anos depois da escola democrática, entristece que as novas gerações continuem a ultrapassar com traços contínuos e a acelerar desmedidamente em asfaltos molhados ou dentro das localidades. 

Mas não admira, não. 


Como escreveu o ministro adjunto do primeiro ministro, o Euro 2004 é o grande desígnio nacional que trará “(…) um contributo importante para a viragem do país rumo a um novo ciclo de progresso e bem estar.” (1) 
Prometo enviar um fac-simile do jornal a todo aquele que, compreensivelmente, duvidar das palavras que acabei de transcrever. 


E não deixa de ser caricato que neste mesmo número daquele diário, em que alguém, em editorial, se escandaliza com os novos manuais escolares do português de décimo ano que fazem do lixo televisivo objecto de estudo, as primeiras quatro páginas do jornal sejam dedicadas precisamente ao futebol. 

A impressão que nos fica é que nos espera um país de empregados de mesa. 



Na aula de hoje os alunos voltaram a trabalhar a palavra menina que copiaram diversas vezes, tanto na forma de maiúsculas como de minúsculas. A este respeito, fizeram ainda recortes da figura alusiva e complementaram o turno com desenhos sobre o mesmo tema. 


Fora dos aspectos didácticos, a Professora disse a três meninos que têm direito a lanche a meio da manhã, a expensas da acção social escolar e distribuiu um pedido de autorização para que os educandos tenham acesso ao programa de saúde e higiene oral e também a autorização para que amanhã possam deslocar-se à Moita no âmbito da recepção aos novos alunos. 

Em ambos os casos, a nossa resposta foi positiva. 
No primeiro caso, apenas declinámos a dose de fluor quinzenal, uma vez que, por prescrição do seu pediatra, a Matilde toma um comprimido diário daquele revitalizante. 


Escusado será dizer que este género de assistência sanitária é válido e muito importante. 


Uau! Mas amanhã há passeio. 



Claro está, a Liga Árabe pede que as forças de ocupação (sic) abandonem o Iraque e devolvam o governo aos iraquianos. 

O que eles querem não sei, mas sei que não querem uma sociedade aberta naquele país e muito menos um estado pacífico e empenhado na paz entre israelitas e palestinianos. 

Isso seria a morte anunciada daquelas tiranias. 

E nós, não queremos que a democracia vença? 



Tanto quanto queremos voar em redor da Lua que hoje traz um véu de humidade. 
Fica-lhe tão bem o irisado do halo que a rodeia… 


Alhos Vedros 
 13/10/2003 


NOTA 

(1) Arnaut, José Luís, EURO 2004 UMA APOSTA GLOBAL, p. 5 


CITAÇÃO BIBLIOGRÁFICA 

Arnaut, José Luís, EURO 2004 UMA APOSTA GLOBAL, In “Público”, nº. 4952, de 12/10/2003

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

REAL... IRREAL... SURREAL... (160)

The Ten Cent Breakfast, Willard Metcalf, 1887
Óleo sobre Tela, 38,7 x 55,9cm 

" OS AMIGOS "

Amigos, cento e dez, e talvez mais,
Eu já contei. Vaidades que eu sentia:
Supus que sobre a terra não havia
Mais ditoso mortal entre os mortais!

Amigos, cento e dez! Tão serviçais,
Tão zelosos das leis da cortesia
Que, já farto de os ver, me escapulia
Às suas curvaturas vertebrais.

Um dia adoeci profundamente. Ceguei.
Dos cento e dez houve um somente
Que não desfez os laços quasi rotos.

Que vamos nós (diziam) lá fazer?
Se ele está cego não nos pode ver.
- Que cento e nove impávidos marotos!


Camilo Castelo Branco

domingo, 29 de novembro de 2015

 
 
MIRADOURO 39 / 2015
esta rubrica não respeita as normas do acordo ortográfico



(foto de Edgar Cantante)
 
 
Agora é o agora e o agora é o já.
De modo que o amanhã é, de facto, longe de mais.
Daí o exercício necessário.
Daí o tear dos fios da vida.
Os nós e os laços.
O querer e não poder.
O poder mas não querer.
O adiar.
Adiar, que não esquecer.
*
Ao ver o frenesim das pessoas a sair do barco em hora “de ponta” uma criança perguntava a outra:
«já reparaste que só com dois olhos conseguimos ver tudo isto?»
e a outra criança sorriu, sorria.
Não disse, mas pensava:
«E com um só coração conseguimos sentir tudo. O que vemos, o que percebemos e o que pressentimos.»
Não falou do que percebeu nem do que pressentiu porque o fim da tarde estava lindo, a temperatura amena, a cumplicidade apetecia e por haver coisas difíceis de explicar.
*
Porquê a lembrança destas crianças agora ?
A mecânica não se revela mas a memória não se coíbe.
Mesmo sem saber, sei.
O regresso à infância recompõe o território das possibilidades.
Ou atascamos no lodo do que nos prende(u), ou voamos em renovados céus  do que sonhámos, do que sonhamos.   
*
Se o hoje é pardo e incerto e o ontem é o de onde vimos e sem regresso, é no agora que se faz amanhã, mesmo que se longe de mais, que tudo se joga  e é por isso mesmo que é para lá que vamos.
E somos.
 
Manuel João Croca
 
 

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

L U Z


Um único fósforo aceso
pode incendiar
uma vasta floresta
torna-te aquilo
que já És em essência,
Luz,

e poderás contagiar
e Iluminar
uma vasta multidão


António Alfacinha



quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Vai um cafezinho?





Quem, senão nós?
Quando, senão agora?
Onde, senão aqui?


Foto de Lucas Rosa


(Na foto, Diogo Correia, poeta, músico, artista de variedades.)

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Amor ao Fado


Partilho com todos vós este meu suave poema declamado
que poderão ver e ouvir em Poema da Semana neste link:




terça-feira, 24 de novembro de 2015

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

CHOVE EM BAGDAD

Ena pá, a Matilde teve um Domingo de galderice. 
Saiu de manhã para a primeira aula de catequese a que se seguiu a presença na missa, tendo então recebido o convite para almoçar em casa dos avós da sua amiga Joana Alves que, segundo a mãe, foi prontamente aceite. 
Para além da brincadeira, claro está, faz parte do pacote uma ida ao circo. 

E agora que na tarde os pássaros regressam ao lar, ela ainda não voltou. 
Rica vida, a do pardalito. 



Ao dia de ontem seguiu-se a luz do Sol. 

Enquanto fumei um cigarro à varanda, foi bonito de ver as velas, ao longe, evoluindo no estuário. 



Pois em Bagdad, as forças das trevas continuam a fazer ouvir os sons do terror. 
Mais um carro armadilhado, desta vez, tendo por alvo o Hotel Bagdad, o quartel-general da CIA naquela cidade. Uma dezena de mortos entre polícias e iraquianos e outros tantos feridos. 
As forças aliadas não enfrentam apenas os acólitos do antigo regime de Saddam Hussein. Tal como escrevi em Abril, o Iraque é o actual campo de batalha da guerra mais vasta contra o terrorismo internacional. (1) 
Ali já deixou de estar apenas em jogo a paz mundial; pelo confronto directo que lá acontece, neste momento, com a Al-Qaeda e afins, está igualmente em causa a vida, tal como a conhecemos, neste planeta. Aquela gente não se deterá em face do apocalipse. 
Referindo-se a essa constelação, faço minhas as palavras do Mestre Vargas Llosa que passo a citar:
“(…) Todos eles – uns poucos milhares de fanáticos armados, isso sim, com extraordinários meios de destruição – sabem que se o Iraque chegar a ser uma democracia moderna, os seus dias estão contados e por isso desencadearam essa guerra sem quartel, não contra a ONU ou os soldados da coligação, mas sim contra o maltratado povo iraquiano. Deixar-lhes o terreno livre, seria condenar este povo a novas décadas de ignomínia e ditadura semelhantes às que padeceram sobre a autoridade do Baas. Na verdade, perante este crime e os que virão – agora está claro que as organizações humanitárias e de serviço civil passaram a ser objectivos militares do terror – a resposta da comunidade de países democráticos deveria ser multiplicar a ajuda e o apoio à reconstrução e democratização do Iraque. Porque neste país está-se a travar actualmente uma batalha cujo desenlace transcende as fronteiras iraquianas e do Médio Oriente, e abarca o vasto domínio dessa civilização pela qual sacrificaram as suas vidas Sérgio Vieira de Mello, o comandante da marinha Manuel Martin Oar, Nadia Younes e tantos heróis anónimos.” (2) 



Sinal de alegria e esperança. 
Até ao momento foi bem sucedida a separação de dois siameses egípcios que estavam unidos pelas cabeças. 
A operação teve lugar nos Estados Unidos da América e foi levada a cabo por cirurgiões daquele país e alguns colegas compatriotas dos bebés pacientes. 

Valorizamos tão pouco esta nossa faceta de animais capazes de criarem o belo. 


Entre nós, investigadores da Fundação Calouste Gulbenkian descobriram uma nova fórmula para prevenir e curar a malária. 



Assim quisessem os homens 
o paraíso 

neste grãozinho perdido 
na imensidão do cosmos. 



Michael Schumacher sagrou-se campeão mundial pela sexta vez, com isso batendo o recorde cinquentenário de Juan Manuel Fângio que se cifrava nas cinco vitórias. 

Entre os que permanecem no activo, ele é, provavelmente, a primeira figura desportiva a nível mundial. 



Ah! Esqueci-me de registar. 
Arnold Shwarzeneger foi eleito Governador, na Califórnia. 

Só pode ser grande uma nação em que um imigrante, décadas depois, chega a tão elevado cargo. 



Agora que já jantámos, a Margarida lê uma história para a mãe e a irmã. 
Assim se faz a felicidade antes dos pardalitos se entregarem aos lençóis o que acontecerá daqui a pouco. 


Alhos Vedros 
   12/10/2003 


NOTAS 

(1) Gomes, Luís F. de A., A ESPADA E O BURACO NEGRO, pp. 103/104 
(2)Vargas Llosa, Mário, COM AS BOTAS CALÇADAS, p. 35 


CITAÇÕES BIBLIOGRÁFICAS 


Gomes, Luís F. de A., A ESPADA E O BURACO NEGRO, Nota de Abertura do Autor, Dactilografado, Alhos Vedros, 2003 
Vargas Llosa, Mário, COM AS BOTAS CALÇADAS, DN8, nº. 358, In “Diário de Notícias”, nº. 49142, de 11/120/2003

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

REAL... IRREAL... SURREAL... (159)

El Balandrito, Sorolla, 1909
Óleo sobre Tela, 100x110cm

A PONTE É O FIM
mudo calado
diz que és gente
silhueta
vestido de nu
olhos fixos
pedras argolas
estrada de água
escolhos e uma calçada
o vento
cruza-se no ar e nas margens
vences a exaustão
os olhos fitam o silêncio
o destino é o limite 
a ponte é o fim

Carlos Fernando Bondoso

Selecção de António Tapadinhas

domingo, 22 de novembro de 2015


MIRADOURO 38 / 2015
esta rubrica não respeita as normas do acordo ortográfico



INTER-RELAÇÕES
pessoas, objectos, animais.
cheiros, cores, sinais e
outras coisas mais.

º º º º º º º º º º º º º º º º º º º º º º º º º º º º º º º º º º º º º
Há o que apesar das qualidades se rejeita.
Há o que apesar dos defeitos se abraça.
E há o resto todo, todo o resto, que nem sequer se avalia.
Porque não se sabe, não se conhece, não importa.
No interpretar da realidade que se concretiza nem tudo é racional.
Nem tudo é pensado, nem tudo é pesado, nem tudo é filtrado.
Não! há a química que sem ela nada existia,
a energia trocada que se não pode evitar.
Não se pode mesmo!
E então, sendo “apenas” energia/sensação
entra inteirinha na equação e joga no resultado da relação.
Consegue-se entender ou exige-se que contem para se poder concordar ou não?
Talvez que não seja possível contar.
Talvez haja algo que mesmo que se “saiba” não tem explicação.
Talvez assim tenha de bastar.
Estará, pois, certo assim.
E é assim que vai continuar porque é assim que as coisas são.
Por um pouco que se conhece,
um imenso desconhecido que hoje é escuro e só amanhã, talvez, claridão.


Manuel João Croca


(foto copiada da net e que não consigo identificar o Autor) 

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Etnografar a Arte de Rua (XV) Graffitar a Literatura



Graffiti fotografado por Luís Souta, 2015.
Alameda dos Combatentes da Grande Guerra, nº 113Cascais


«O viajante reconhece o pouco que é seu,
descobrindo o muito que não teve e o que nunca terá»
(Italo Calvino, As Cidades Invisíveis, 1972: 29)


Mais uma porta do crew Altura, pintada no Muraliza 2015. Mais uma criação artística que nos recorda um lendário viajante – Marco Pólo (1254-1324), um livro encantador – As Cidades Invisíveis (1972) e um grande intelectual – Italo Calvino (1923-1985).

As Cidades Invisíveis, que recebeu o prestigiado Prémio Felrinelli, assenta num longo diálogo imaginário entre o veneziano Marco Pólo e o imperador mongol Kublai Khan, neto de Gengis Khan. Italo Calvino num outro livro (obra póstuma de 1992, organizada por sua mulher Esther, que redigiu também o texto introdutório), Seis propostas para o próximo milénio (Lições americanas), no 3º capítulo (Exactidão, pp. 89-91), fala-nos deles (o livro e a natureza dúplice desses diálogos): «o livro em que creio que disse mais coisas continua a ser As Cidades Invisíveis, porque consegui concentrar num único símbolo todas as minhas reflexões, experiências e conjecturas; e também porque construí uma estrutura multifacetada em que cada texto curto está próximo dos outros numa sucessão que não implica uma consequencialidade ou uma hierarquia, mas sim uma rede dentro da qual se poderão traçar múltiplos percursos e extrair conclusões plurais e ramificadas.»

Italo é «mais um escritor de short stories do que de romances» (como o reconhece em Lições americanas, p. 165). Também por isso o adoro ler. Textos curtos de uma síntese densa, a «escrita breve» que, no deleite da leitura, nos desinquieta, nos obriga a pensar… e a agir.

Italo Calvino, um dos maiores escritores italianos, nascido e casado em Cuba, conviveu de perto com outros vultos do século XX: Cesare Pavese, Elio Vittorini, Roland Barthes, Claude Lévi-Strauss, Jorge Luís Borges, Che Guevara… Com eles partilhou o amor à literatura, as cumplicidades do neo-realismo, a indomável vontade de resistência aos totalitarismos. Italo «o escritor dos destinos cruzados» (título de um trabalho jornalístico de Fernanda Pratas, para a revista Xis - Público, secção “Mulheres e Homens”, pp. 42-5) confessa: «Tendo vivido em tempos de ditadura, e tendo sido apanhado por uma guerra total (…) ainda tenho a noção de que viver em paz e liberdade é um tipo de felicidade muito frágil, que me pode ser roubado a qualquer momento.»

Não será igualmente assim que nos sentimos, nestes dias conturbados pela violência terrorista internacional do Daesh?

Luís Souta