O vôo é largo, é longa a rota
quando é amargo um beijo adoça
e um abraço reconforta
descemos sempre à nossa porta
(...)
Luís Represas, O Vôo da Garça


terça-feira, 30 de agosto de 2011

Vale a pena ver


Walter

(Para ampliar clique na imagem)

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Atravessamentos


Fernanda Leite Bião*

Como os raios que atravessam a natureza insólita,
Um dia fui atravessada por uma flecha brilhante.
Com a mão no peito, coração a tremer,
Não sei se morria ou vivia.
Abri os olhos e tentei ver,
A sombra cobria minhas pupilas.
Tomada de uma energia estranha,
Me descobri assim meio boba
E aqui estou, ainda atravessada.
Nunca mais a mesma
Para sempre diferente
Coração que pulsa, vida para a vida.

______________
* Psicóloga, Orientadora Profissional e Professora de Psicologia e Formação Humana. E-mail: fernandabiao9@hotmail.com

domingo, 28 de agosto de 2011

Vidas Lusófonas


No Brasil, o nordestino Hélio Pólvora
convida o nordestino 

LINS DO REGO

a instalar-se em

  VIDAS LUSÓFONAS  

onde já moram 140.

Naquela casa
tudo está a acontecer,
cada vida / cada conto.
  Por isso já recebeu 
mais de 24 milhões de visitas.

sábado, 27 de agosto de 2011

Universidade Nacional de Timor-Leste (UNTL) pretende contratar docentes oriundos de outros países lusófonos

A Universidade Nacional de Timor-Leste (UNTL), neste momento a única instituição pública de ensino superior deste país, objetiva contratar em regime temporário, para o ano letivo de 2012, docentes oriundos de outros países lusófonos.

Por meio dos recursos do Fundo soberano para o Desenvolvimento do Capital Humano de Timor-Leste, oferece remunerar cada docente com US$ 3.500 dólares por mês, pelo período de 10 meses, de fevereiro a novembro, com recesso em julho. Também assumiria passagens de ida e volta.

Como requisitos mínimos, exige o título de mestre e a disposição de lecionar 3 disciplinas por semana, por dois semestres, a alunos de Bacharelato/Licenciatura.

A UNTL está firmando parcerias institucionais no Brasil para consolidar o processo de seleção e preparação desses quadros. Não obstante, de modo a divulgar a demanda, desde já torna públicas as áreas em que entende haver maiores carências:

- Na Faculdade de Ciências Sociais, cadeiras de introdução (1º ano) às seguintes disciplinas:
Administração Pública
Ciências Governamentais
Desenvolvimento Comunitário/Serviço Social
Políticas Públicas

- Na Faculdade de Ciências Sociais, cadeiras de introdução (1º ano) às seguintes disciplinas:
Gestão
Estudos do Desenvolvimento
Comércio e Turismo

Interessados podem contactar Francisco Figueiredo de Souza, diplomata da Embaixada do Brasil em Timor Leste, pelo e-mail: frasouza@gmail.com

(Walter Caetano Costa,S. Paulo, enviou para Diálogos Lusófonos)

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

ENCONTROS COM AGOSTINHO

NAMORANDO O AMANHÃ
(2ª. Edição)
7. RECADINHOS PARA OS PORTUGESES

       É preciso que antes de tudo, Portugal cuide de si próprio; que não se ponha com ideias de passar para aqui e acolá, sem cuidar primeiro da sua terra. Que tomemos, todos nós, o exemplo que tiveram aqueles que construíram Portugal. Assim como eles tiveram que construir Portugal como se fosse um cais à beira da Europa, donde podiam partir os navios, assim nós agora temos que reconstruir Portugal para que os novos navios, desta vez aviões, ou desta vez nós nem voamos, apenas o nosso sonho e a nossa vontade possa levar a navegações muito mais importantes do que aquelas que se fizeram no passado, muitíssimo mais importantes. As outras foram apenas para descobrir novas culturas e foram para descobrir novas terras. Nós agora, as navegações que vamos fazer serão para levar a todo o mundo aquilo que é fundamental na cultura portuguesa.

         É preciso que a economia não seja mais o que tem sido até agora, uma economia de caça e uma economia de guerra. É preciso que seja uma economia de convivência.

         E é preciso que os governos não sejam para mandar às populações fazer aquilo que lhes agrada a eles mas, pelo contrário, para perguntarem às populações de que coisas é que eles têm mais vontade, mais desejo, e conseguir harmonizar todas as vontades de tal maneira que tenham recursos suficientes para que isso realmente possa existir, possa realizar-se no mundo.

         E finalmente que as crianças se possam educar em liberdade na vida, correndo àquilo que gostam e aprendendo aquilo que prefiram.

         E ainda mais uma coisa que para os portugueses foi fundamental que é o de poder olhar a vida, não com a ideia que já viveram todos aqueles dias, como hoje sucede a tanta gente que se levanta da cama para fazer nesse dia que alvorece a mesma coisa que fizeram na véspera e já estão achando que a coisa é realmente insuportável, já estão tendo aquilo que eu chamo que é o destino da Europa e Portugal, com todo o cuidado, não caia na mesma coisa; porque o destino de todo o europeu que se mete na cama é de acordar na véspera, não é no dia seguinte, ele acorda na véspera para fazer de novo aquilo que já tinha feito anteriormente.

         E é preciso que não vamos cair disso. É preciso que nós, pouco a pouco, com vontade, com atenção a tudo quanto há, vamos tentando modificar a cada passo as coisas.

         E ao que parece, não é legislando para todo o país que nós conseguimos resolver o problema.

         Deixemos os governos legislarem para todo o país. Provavelmente, estão fazendo, no meio de tudo, alguma coisa de bom.

         Mas é preciso que nós vamos em pequenos grupos, como estamos aqui, organizando a vida naquilo que podermos na nossa própria terra, limando aquilo que seja mais áspero, tentando realizar uma vida que se não totalmente para nós, pelo menos sirva para os mais novos.

         Viemos à bocado, durante a viagem, conversando sobre o que é terrível haver tanta criança que, porque os pais têm que trabalhar deste ou daquele modo, estão como que abandonadas na vida.


         Eles não tiveram e não têm aquilo que é importante para a criança ter que é a experiência dos mais velhos e a companhia, nos momentos difíceis da sua vida, como é, por exemplo, a ida para a escola. A quase toda a criança custa muito passar a ir à escola e quando mudam de escola, exactamente a mesma coisa. E ao passo que dantes, por condições de vida, elas tinham sempre algum apoio em casa, hoje, na maior parte das vezes, elas estão como que sozinhas na vida, só raramente vendo os pais.

         E vendo nas terras como é que nós, a pouco e pouco, poderemos ir mudando esse ambiente e levando até aqueles que têm o poder a fazerem alguma coisa que vá nesse sentido e que ajude, por que entenderam o que é preciso, aquilo que as populações querem.

         Neste momento, eu não estou nadinha interessado, vamos dizer, no geral de Portugal, ou no geral da cultura portuguesa. Estou interessado a ver o que se pode fazer em cada momento.

         E nem imaginam o gosto que foi para mim receber o vosso convite. Que não viria por minha iniciativa a Alhos Vedros, coisa nenhuma, deixaria, como nas outras coisas que a vida desse o seu sinal. Ela deu o sinal.

         E aqui estou pronto a voltar aqui, muitas vezes, para vos dizer o que se vai fazendo nesse adiantar e na tal fundação “Mensagem”.

         Que não creio que ela possa resolver os problemas sozinha. Claro está, são muito mais graves e poderosos do que quaisquer recursos que nós possamos conseguir.

         Tenho uma outra ambição.

         Há outras fundações já em Portugal. Vamos a ver se é possível um dia coordenar o trabalho dessas fundações todas de maneira que não se gaste o dinheiro todo numa só coisa que está toda velha, ficando outras coisas sem recursos, mas sim repartindo as possibilidades que houver pelas necessidades que vierem a surgir.

         E talvez uma outra coisa ainda.

         Eu digo que há uma fundação muito mais importante do que aquelas todas a que nós conhecemos o nome, a Fundação Gulbenkian, ou a Fundação Oriente, a Fundação António Almeida, no Porto, ou a Fundação Eugénio de Almeida, de Évora.

         Sabeis qual é essa fundação?

         É aquela que foi criada por Afonso Henriques.

         Portugal, para mim, é ao mesmo tempo e sobretudo, a Fundação Afonso Henriques.

         Não quero saber, de maneira nenhuma, de que política é ou não é determinado governo, exactamente como quando vou à Gulbenkian, ou a outra fundação para apresentar um projecto e para ver se eles dão os meios necessários para o realizar, eu não pergunto a quem me atende se ele é deste partido ou de outro partido. Eu apenas quero que ele estude o projecto que lhe dei e que me diga, se segundo os regulamentos internos da fundação que eu não quero, de maneira nenhuma, alterar, a coisa pode ser satisfeita ou não.

         Eu então quando vejo projectos destes, vossos ou de qualquer outra localidade, para que nós não tenhamos recursos, tenha que procurar recursos, depois de procurar nas outras fundações que existem, estou pronto a dirigir-me à tal Fundação Afonso Henriques a apresentar o projecto e ver se aquele conselho de administração que politicamente é o Governo, está ou não está disposto a conceder um recurso e a facilidade suficiente para que essa coisa se realize.
(continua)

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

d´Arte - Conversas na Galeria LII

Praia da Rocha I Autor António Tapadinhas
Acrílico sobre Tela (em construção)

Passei uns dias maravilhosos numa cidade que agora faz parte do meu itinerário mais procurado: Portimão! É lá que vive o meu neto Rafael, conforme se devem lembrar…
Fui convidado para fazer lá uma exposição de pintura. Aceitei imediatamente, pois assim fico com mais um pretexto para voltar.
De acordo com o meu hábito, em cada mostra, faço especialmente para a ocasião, pelo menos uma tela, com um dos seus locais mais emblemáticos. Em Portimão, a Praia da Rocha é a praia mais conhecida internacionalmente. Esta uma das razões da sua escolha; a outra, pura e simplesmente, a sua beleza.
O tamanho de tela é o maior possível em razão do espaço disponível, o suficiente para capturar a luz e o carácter da paisagem que escolhi.
No meu desenho, delimitei os traços básicos: linha do horizonte, formações rochosas, cores e sombras mais evidentes, tufos de vegetação, os pinheiros e o oceano…

Praia da Rocha II Autor António Tapadinhas
Acrílico sobre Tela (em construção)

O primeiro objectivo foi cobrir toda a tela com as cores dominantes, tendo em atenção que, desta vez, o céu e o mar vão perder o protagonismo que normalmente têm nos meus quadros.
Chegado a este ponto, vou encerrar os trabalhos. Amanhã, com novos olhos, poderei analisar com maior acuidade o que foi feito.
Para uma primeira sessão o avanço é considerável e, melhor ainda, estou muito satisfeito com o resultado!

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

... Tudo isto é Fado

DO ESTADO DE GRAÇA
AO ESTADO SEM GRAÇA NENHUMA

DIZ-SE que o governo que o povo que nele votou quis se encontra ainda no chamado estado de graça, que é um tempo, uma espécie de interregno na capacidade de estar de olho aberto. Pelo menos será uma boa desculpa para os oficiais da opinião publicada abanarem as orelhas e dizerem de ar seráfico-desportivo: «lo que pasa es que no pasa nada». Isto, em castelhano, porque os moços ainda não aprenderam mandarim.
A cumplicidade dos meios de comunicação social com o governo que temos é evidente que não advém duma angelical responsabilidade perante os perigos da «crise», porque a sê-lo teríamos visto a mesma cumplicidade com o governo anterior o panorama era exactamente o mesmo e tínhamos poupado uma data de massa; também, que se saiba, não faz parte das medidas da celestial troika. Pode é fazer parte da moral do tempo que passa, porque isto, meus amigos, lá dizia aquele nosso vate que via apenas de um olho: «mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança…» E ele não dizia, mas digo eu: isto está pela hora da morte e o melhor é fazer pela vidinha.
Tempos houve em que se olhava para os meios de comunicação social como pilares fundamentais da democracia, nelas assentava a essência da liberdade de expressão. Aos jornalistas, por isso mesmo, chamou-se-lhes cães de guarda, pois guardavam o tesouro que era a liberdade daqueles que em tudo vêem um pote de que querem servir-se e lambuzar-se. Mas veio Serge Halimi, nos finais dos anos 90, com o seu brilhante ensaio Os Novos Cães de Guarda, dizer-nos que o Pai Natal não existe. Com Citizen Kane já tínhamos visto os perigos dos magnatas do jornalismo, mas isso era lá com os camones; com Halimi vimos os jornalistas, as suas sombras e os seus armários.
Com uma pequena réstia de espírito crítico e uma ideia mesmo que difusa do dever de informar teríamos tanto ácido sobre as acções destes governantes que o governo seria olhado como se fosse uma daquelas frigideiras onde se confeccionam farturas nos arraiais populares, isto falando dum grupo de rapazes de que já deveríamos estar fartos, que ao povo nenhuma fartura deixam e para os amigos toda a fartura guardam.
As luminárias do palavreado mostram-se agora surpreendidas com o regresso do TGV, que andaram a combater por encomenda partidária durante anos. Actualizem-se meninos, actualizem-se. Vão ter de fazer a mesma campanha, mas agora a favor. Sabem? Do meu ponto de vista, se o TGV não for feito, Portugal será reduzido à mais insignificante das excrescências. Aproveitem agora para falar verdade e verão que não custa nada. Vocês sempre souberam e o lobby dos transporte rodoviários também que o TGV é um projecto que ligará Lisboa à Sibéria e à China, fazendo baixar os gastos de combustível e os custos dos transportes de mercadorias.
Ó Amorim, deixa-te de birras. Afinal estavas à espera de quê? 

Vendas Novas, 21 de Agosto de 2011
Abdul Cadre

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Manaus





Fotos do Monumento à Abertura dos Portos às Nações Amigas, localizado no Largo São Sebastião, em frente ao Teatro Amazonas, bem como uma foto da Igreja de São Sebastião, no centro de Manaus, capital do Estado do Amazonas.

Hidemberg Alves da Frota
Agosto/2011

(nota: clique em cima das fotos para ampliar)

domingo, 21 de agosto de 2011

Visita do Papa a Espanha



Crenças ao Desafio

António Justo

O Papa reúne-se em Madrid com a juventude do mundo para dialogar sobre os problemas que flagelam a humanidade de hoje, enquanto a rapaziada, lá fora, briga sobre os custos da sua viagem, sobre as faltas da Igreja na Idade Média, negando-lhe até a liberdade de ter opiniões diferentes das suas.

Uma maneira fina de desviar para canto problemas que a todos toca. Falar do folclore é mais fácil que de conteúdos. Perturbar o desenvolvimento de celebrações, como a Jornada Mundial da Juventude, torna-se uma maneira fácil de chamar a atenção a si e de ocupar os Media sedentos de actos superficiais polémicos. Assim, se consegue que a mensagem passe desapercebida.

“Num mundo da violência e do consumismo… famintos de justiça, misericordiosos, de coração puro, pacíficos”, os jovens, declaram querer “ser embaixadores da paz no mundo”.

Bento XVI apela aos professores das universitários afirmando que as Universidades, para lá das ideologias, são o lugar ideal para “procurar a verdade real acerca do Homem”. Um discurso diferente do dos governos!...

Em Madrid, o papa também apelou à juventude para que dê “uma resposta radical a uma espécie de Deus eclipsado”.

A “Jornada Mundial da Juventude“ (16-21 de Agosto) pretende visibilizar uma face diferente da de casas a arder em Londres, autos incendiados em Berlim.
Dum lado uns apostam num amor aparentemente ingénuo, do outro, outros apostam numa razão exacerbada e provocante. Se todos querem um mundo melhor, porque se atacam? Tudo em guerra em pretexto da defesa da sua paz.

Parece haver muitos incomodados por verem manifesta publicamente uma fé que querem ver praticada apenas nas traseiras da sociedade.

A mera presença do chefe de mais de mil milhões de católicos põe em pé de guerra as ideologias. Eternos descontentes não concedem aos católicos o direito de receberem o seu irmão mais velho na fé. Parecem colocar na balança da sua sentença apenas o valor económico sem considerarem, além de outros, o aspecto turístico, a promoção mediática da nação nem os valores morais e sociais. Nesta perspectiva ter-se-ia de acabar com campos de futebol, visitas de Estado e de Dalai Lamas, protecção policial para pessoas em perigo, etc.; no seu argumentar, tudo isto causa despesas públicas que poderiam ser disponibilizadas para os pobres. Usam-se argumentos como armas de ataque ou escudo de defesa. Quem hoje chora os gastos com a viagem do Papa não estará longe de amanhã chorar os gastos com os pobres, doentes e velhinhos. A razão quando é forte cega! Ou será que querem a praça pública só para si. Se hoje é o dia dos crentes religiosos amanhã também haverá um dia para os crentes do laicismo.

É desconsiderado o bem que a Igreja faz no mundo com projectos sociais com apoios de milhares de milhões de euros a desprotegidos. Críticos do catolicismo regateiam  o dinheiro que se gasta na viagem do Papa argumentando que indirectamente também a financiam através dos impostos e acrescentando a necessidade dos pobres. Como se a realidade social não fosse complexa e se pudesse reduzir a credos sociais ou políticos e como se os católicos também não financiassem a sua ideologia custeando abortos, e, em comum, guerras através dos seus impostos. Somos todos cúmplices. Cada um de nós tem a sua quota-parte no bem e no mal da sociedade. Quando o meu dedo indicador aponta o mal dos outros, os outros quatro apontam para mim!

“Não só de pão vive o Homem.” A presença do Papa, embora para muitos contraditória, não deixa de ser um testemunho de caridade, solidariedade e entrega ao bem, realizado pela maior instituição de caridade do mundo.

A Igreja incomoda o cidadão solicitando dele uma conduta espiritual elevada e este vinga-se dela não lhe querendo reconhecer a sua natureza humana pecadora.

Assim, exige-se uma Igreja sem erros como se ela fosse uma instituição de anjos e não de humanos.

Exige-se que a Igreja esteja calada, como se para ela não valesse a liberdade de expressão.

Exige-se que a razão e a verdade se reduzam à opinião como se esta fosse objectiva.

Exige-se que a Igreja se oriente por estatísticas demoscópicas e pelas verdades da praça sem se conhecer a sua filosofia e mística.

Exige-se uma tolerância à Igreja que se não tem para com ela.

Exige-se uma Igreja da mudança como se a mudança constituísse um valor em si e como se as verdades de hoje não constituíssem, em grande parte, as ficções/erros de amanhã.

Estes intolerantes da religião constituem o polo oposto dos intolerantes muçulmanos que não reconhecem a realidade de valores laicos vendo neles obra diabólica.

Quando a medida da tolerância é reduzida à própria opinião, a liberdade já se encontra a caminho do cativeiro. Só uma plataforma comum baseada na fraternidade e na complementaridade poderá levar à compreensão mútua.

Organizações de crentes laicos ou religiosos têm o mesmo direito de expressão na sua qualidade de pessoas individuais ou colectivas. A liberdade de expressão deve ser independente da devoção, seja ela laica ou religiosa.

Em nome da tolerância procura cimentar-se o ódio contra católicos. O preconceito dos perseguidores de bruxas de ontem, são continuados por arautos dum laicismo iluminado e militante. Estes queimam os adversários na fogueira da razão e enterram-nos na cerca da sua opinião. É fácil ser-se forte contra a vulnerabilidade. Repete-se o jogo do Lobo e do Cordeiro; quem suja sempre a água são os outros: “Se não foste tu, foram os teus antepassados”. Como se a água já não se encontrasse turva pelas nossas crenças e razões.

A intolerância camuflada justifica os novos inquisidores sob o pálio de palavras mágicas como laicismo, liberdade, progresso e democracia. Intolerantes da tolerância sentem-se os cães de guarda duma concepção de Estado dogmática própria, à sua imagem, e semelhança, que querem anti-religioso como se sociedade e Estado fossem a mesma coisa. Por trás da religião, da política e da opinião há muita desonestidade. Torna-se fácil e moderno atacar quem não se defende. Os corajosos críticos do Papa revelam-se cobardes perante os muçulmanos e perante a exploração institucionalizada. O medo pode muito e tem as suas razões!

Porquê tanto combate em nome da crença/opinião? Uns esperam na vinda do salvador e outros no mito de que a Ciência tudo virá a explicar. A realidade, como a verdade, é a-perspectiva pressupondo uma consciência de complementaridade e interdisciplinaridade na sua abordagem. Somos todos precisos. Mesmo as minhocas e as toupeiras beneficiam a terra embora à primeira vista pareça que não.

António da Cunha Duarte Justo

sábado, 20 de agosto de 2011

"Os Upanisads" e a Filosofia Clássica Indiana


Etimologia:
Upa – junto de; ni – em baixo; sad – sentado. “Estar sentado ligeiramente abaixo do mestre”.

“Os Upanisads” são textos que refletem sobre a cultura Védica, mas que simultaneamente assinalam uma rutura com o período anterior. Também têm por significado “o que podemos fazer no interior de nós próprios”. Nos “Upanisads” encontramos sistematicamente, embora não exclusivamente, textos que tentam explicar a origem das coisas. São eles o principal ponto de referência da doutrina de Adi Sankara (788-820), o autor que mais marcou o desenvolvimento da Filosofia Clássica Indiana.

Vivekãnanda (1863-1902),  nome que significa aquele que consegue dissociar mentalmente a realidade do ilusório, foi um dos grandes pensadores sobre a escola de Sankara. O Hinduísmo como um sistema magnífico de crenças e tradições, deve-se, sobretudo, a este autor. Foi um estudioso das filosofias ocidentais na Universidade de Calcutá. E é um estudioso de textos sagrados da Índia: hinos védicos, Ramayana, Mahabarata…

Resumindo:
Princípio filosófico primordial – equivalência entre ãtman / brahman
Atman – um corpo vivo que respira = self = sentimento de si.
Brahman – realidade. O que existe em si e por si.
É esta a síntese suprema de Sankara: a mesma identidade entre Atman e Brahman. Ou seja, aquilo que existe no interior de cada um é a própria realidade.
Ser, Consciência, Felicidade Suprema (beatitude, bem estar), os principais objetivos.

Num texto das Upanisad - Taittirtya Upanisad – diz-se que nós não temos só um corpo, mas sim 5 corpos:
1-     annamaya kosa (1ª camada) – o corpo que resulta da comida (o corpo físico)
2-     prãnamaya kosa (2ª camada, cobre o primeiro corpo) – corpo de que resulta a respiração (o corpo que sente, o corpo subtil), do qual não se pode descrever a essência
3-     manomaya kosa (3ª camada) – corpo que resulta da fusão dos outros dois corpos
4-     vijñamaya kosa (4ª camada) –  corpo que tem a capacidade de compreender
5-     ãnandamaya kosa (5ª camada) – a consciência, a camada que nos dá a felicidade.

Por exemplo, António Damásio (O Sentimento de Si. Lisboa: Ed. Europa-América) demonstra-nos duma forma exemplar que a consciência é independente da linguagem verbal. O Si não é aquilo que nós vemos no espelho… A consciência, o sentimento de si, não está dependente da nossa massa corporal, ou seja, da linguagem, da verbalidade, das emoções, da massa corporal…

Como trazer o corpo de felicidade suprema (ãnandanaya kosa) para o primeiro estado em vez de ser o último? Para Sankara isso consegue-se através da meditação, do Yoga. Para si, o texto de referência é sempre os “Upanisad”. Em última instância, aquilo que Sankara pretende demonstrar é que a realidade última está em nós. A experiência do Si é a mesma experiência da realidade. Nós somos Tudo e Todos.

Carlos Rodrigues

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

ENCONTROS COM AGOSTINHO

NAMORANDO O AMANHÃ
(2ª. Edição)

6. BRASIL, EXEMPLO DE MUNDO E OBRA PORTUGUESA

Meus amigos, quando os portugueses chegaram ao Brasil já havia um tratado que se chamava o Tratado de Tordesilhas que marcava uma linha, a partir da qual o Brasil era todo praticamente dos espanhóis e havia umas tirinhas de Brasil para o lado dos portugueses.

O português desembarcou e coitados dos espanhóis. Estavam seguros de que o português ia respeitar a linha.

E eu costumo contar a seguinte história.

A primeira vez que um português dormiu no Brasil, olhou para os lados e quando viu que toda a gente estava a dormir e ninguém dava por nada, foi com todo o cuidado, pegou no meridiano de Tordesilhas e pôs um bocadinho mais para lá..

Foi andando assim ano após ano.

Meus amigos, levou duzentos e cinquenta anos a carregar o meridiano aos bocados.

E quando achou que já era de mais que os espanhóis, apesar de não entenderem nada da ciência dos portugueses e de julgarem que os portugueses eram como o ambiente deles e ficavam quietos, quando viram que já era de mais, então resolveram falar aos espanhóis e dizer-lhes:

“-Até agora temos feito uns mapas que não eram exactos, sabem? A gente não sabia bem como eram as coisas, mas agora chegamos a um ponto em que já sabemos como é que é. E vamos ver se então fazemos um acordo entre nós. Há uns territórios que são indispensáveis a vocês espanhóis, há uns territórios que são muito úteis para nós e o melhor é trocarmos uns com os outros e ficarmos todos em boa paz.”

E os espanhóis disseram:

“-Óptimo!”

“-Então aí vai o mapa.” –Mandaram para o Rei. “-Para Vossa Majestade ver como é que é, se concorda ou não.”

E mandaram o mapa.

E como tinham pouca confiança que o Rei espanhol entendesse o que era o mapa e visse o que era para um lado e para o outro, eles puseram um fio no meio do mapa, a marcar aquilo que davam aos espanhóis e aquilo que dos espanhóis queriam receber.

O Rei olhou para o mapa e naturalmente disse para a mulher:

“-Menina!... Que gente generosa são estes portugueses. Olha o que eles nos dão e olha o bocadinho que eles querem para eles.”

E assinou o Tratado que se chamou Tratado de Madrid, em 1750, duzentos e cinquenta nos depois de Cabral ter abordado o Brasil.

O mapa era falso.

O mapa tinha inchado extraordinariamente as terras que os portugueses davam aos espanhóis e Mato Grosso que é do tamanho de Angola e Goiás que tem mais de dois mil quilómetros de Norte a Sul, eram umas tirinhas de terra que estavam ali em frente da América espanhola.

E foi assim que o Brasil tem o território que é hoje.

O Brasil foi a maior coisa que se fez no mundo que é a receita para todo o mundo se entender.

Eles ali juntaram, uns por cima, outros de qualquer maneira, eles ali juntaram o quê?

Os portugueses juntaram o Oriente que já lá estava –todos aqueles índios tinham vindo da Ásia. Numa altura em que no mundo houve grande frio, a água gelava, não caía em chuva, o nível do mar desceu e era possível passar por terra, sempre da Ásia para a América do Norte. Aquela gente foi descendo, quarenta mil depois de terem iniciado a marcha, eles chegavam ao Brasil mas eram parentes dos chineses e japoneses, eram, portanto, gente do Oriente- depois chegaram os portugueses e atrás dos portugueses muitos outros europeus que foram representar o continente, digamos, dos brancos e depois como era preciso gente para trabalhar a terra, os portugueses foram e trouxeram os africanos, contra a vontade deles, trouxeram para o Brasil e juntaram ali a África.

Então o Brasil é fundamentalmente o primeiro país do mundo, imaginado pelos portugueses e pelos portugueses realizado, para reunir gente dos três grandes continentes do mundo, da Ásia, da Europa e da África, povoando a América em que só havia, naturalmente, esse do Oriente que eram os índios.

E que vai suceder no futuro?

Meus amigos, vamos olhar o que é a Europa.

Hoje diz-se, Portugal está integrado na Europa.

Então vamos supor que amanhã, um de nós, feiticeiro, sujeito extraordinário no mundo, podia cercar a Europa com um muro e dizer:

“-Portugal fica do lado de cá do muro à espera de criar uma boa porta para entrar na Europa.”

Não podia demorar muito, porque hoje sabe-se que daqui a quinhentos anos, se ninguém entrar na Europa, se ficarem só aqueles que lá estão, como não nascem meninos, não vai haver mais europeus. Os meninos não estão nascendo na Europa. Como se costuma dizer, a natalidade é negativa.

Os que lá estão estão envelhecendo cada vez mais, daqui a pouco morre tudo, não nasce mais ninguém e eu até às vezes digo que deviam começar a fazer ao lado do jardim zoológico, em Sete Rios, um jardim para ter os restos dos alemães e ingleses para as crianças poderem estudar.

Bom, felizmente não vai suceder nada disso. O que vai suceder é que vai imigrar muita gente para a Europa.

E que gente vai emigrar?

Vão emigrar latino-americanos, aqueles que os portugueses fizeram no Brasil e os espanhóis fizeram na América espanhola; vão emigrar, já estão emigrando, muitos africanos, do Norte de África e do resto de África e vai correr muita gente chinesa do Oriente.

Então podemos dizer, amanhã que vai ser a Europa?

Vai ser um novo Brasil.

Não a falar só português. Vai falar várias línguas e depois se vê quais são as línguas que vão ficar mais usadas por tofda aquela gente.

Mas é outra vez gente de todos os continentes, gente de todas as culturas, gente de todas as cores que se vai juntar ali e fazer alguma coisa nova que é uma nova Europa, ajudá-la a fazer-se por aquilo que os portugueses e de algum modo os espanhóis criaram no mundo.

Mas a Europa é uma terra que sempre tem procurado espalhar-se pelo mundo.

Amanhã vai espalhar-se.

Então a ideia que podemos ter do mundo é que, amanhã o mundo, em toda a parte haverá gente de várias culturas e haverá gente de várias raças, quer dizer, o mundo, um dia, vai ser todo ele, aquilo que este pequeno povo sonhou para o Brasil.

E essa ponte se vai fazer do modo que eu quiser.

Com uma condição. A tal condição de fazermos da estrada que existe com buracos, uma pista da qual se vai levantar voo para todos os lados.
(continua)

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

d´Arte - Conversas na Galeria LI

Mercado Autor António Tapadinhas
Óleo sobre tela 50x40cm

O mercado que se realiza no segundo domingo de cada mês no Pinhal Novo, depois da construção da estação de caminho de ferro, tornou-se um dos maiores do país, um autêntico hipermercado ao ar livre, onde a população de toda a região compra e vende de tudo um pouco.
A partir duma fotografia histórica, datada de 1908, que mostra a zona fronteira à capela e a importância que já tinha nessa altura o mercado, fiz uma tela de grandes dimensões que foi comprada pela Junta de Freguesia de Pinhal Novo.
Foi nesse local que foi captada a imagem que serviu para a execução desta obra. Para não ferir susceptibilidades, ou levantar suspeitas sobre as minhas intenções, levei comigo o meu irmão que se colocava em locais estratégicos para eu fotografar aquilo que realmente me interessava. Os ciganos não sei porquê, não gostam muito de ser fotografados ou, ainda menos, que tirem fotografias às suas companheiras...
A pintura base aplicada é o cadmium yellow, para todas as cores terem o brilho do sol e a tela respirar Verão por todos os poros.
O céu, o sol, a saia da vendedora, os eucaliptos, garantiram-me os necessários contrastes com as cores primárias e complementares, para a cena ter a vivacidade electrizante que o local transmite ao mais indiferente.
Espero que o cheiro dos animais, das bifanas e dos couratos, misturados com a poeira que paira no ar, não afaste os menos sensíveis a estes prazeres típicos da região caramela.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Cura

Nunca como hoje o ser humano procura a cura para as suas doenças físicas ou mentais. Através de toda a panaceia de intervenções externas, medicamentosas, cirúrgicas e outras. Mas afinal o que é a doença? A resposta a esta pergunta varia de acordo com o grau de consciência de cada indivíduo. Por cura entende-se, para a maior parte da humanidade, como sendo o desaparecimento visível dos males e disfunções corpóreas e mentais. Mas se o ser humano ainda ignora a composição total do que ele é, ignorando onde começa e acaba, será o mesmo que o proprietário de um imóvel com cinco pisos apenas prestar cuidados de manutenção aos três mais inferiores, querendo manter todo o imóvel em perfeitas condições. Será apenas uma questão de tempo para lhe começarem a surgir moléstias aqui e acolá. Este é o estado em que a maioria desta humanidade de superfície se encontra. Logicamente apesar de todo o investimento na procura da cura os seres humanos cada vez apresentam mais desequilíbrio e vai aumentando o número de novas doenças. Que será que se passa afinal? Será que quando a doença se torna visível ou sentida não terá tido inicio nos outros pisos há mais tempo? Três perguntas, três respostas que poderão ajudar: 1- Quem sou? 2- De onde venho? 3-O que faço aqui?

 Presentemente grande parte da humanidade não está interessada em estudos ditos filosóficos ou espirituais, não tem tempo, como diz, prefere as respostas rápidas, fáceis, muitas vezes acreditando que com o dinheiro tudo se resolve. Necessitamos de bater bem lá no fundo do poço, para que a aprendizagem se inicie.

A.A.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

(nossas línguas) Casamansa - o crioulo, uma língua que sintetiza o português e as culturas locais

O Senegal teve um grande presidente, Leopold Senghor, poeta e humanista. Senghor foi um grande amigo da língua portuguesa e defendeu que o português fosse ensinado em África. No Senegal o ensino do português ocorre no ensino secundário.

Senghor tinha outra particularidade, era um grande admirador de Amália Rodrigues. Num texto da jurista e amiga da pintora Maluda, Maria de Lourdes Simões de Carvalho,  intitulado "Maluda A busca da harmonia perfeita -  O Império e o Velho do Restelo", diz-nos a autora, que quando Senghor visitou oficialmente Lisboa(1975), ela propôs-lhe um elaborado programa, que incluía visitas a museus e eventos culturais. Mas o poeta africano assegurou, com candura: "Ma seule priorité est de connaître Amália". Então Maria de Lourdes telefonou a Maluda (1934-1999, pintora portuguesa, nascida em Goa, que viveu por muitos anos em Moçambique) para interceder junto da fadista. Uma hora depois, Senghor, incrédulo e emocionado, subia as escadas da Rua de São Bento onde Amália o esperava. Estava-lhe reservada outra surpresa. Maluda apareceu com Sigrid Jahns que, na Universidade de Frankfurt, defendeu uma tese sobre "Senghor, poeta e estadista". O ilustre senegalês comoveu-se: na sua frente tinha Amália, seu ídolo, uma pintora de renome e uma erudita alemã que sabia tudo da sua vida"

Termino este breve registro sobre o HOMEM que foi Senghor, com uma reflexão de Maria de Lourdes Carvalho. Comenta a autora que "a herança partilhada pelos países de língua portuguesa desmente a tese do 'Velho do Restelo', que se opunha às descobertas, invocando os perigos da aventura marítima e o muito que havia a fazer em terra. Ousar é o maior legado dos heróis do mar."



Ousemos!


Saudações, 
Margarida


P.S.: Do contato com os Portugueses do séc. XV aos finais do séc. XIX em Casamansa surgiu o crioulo, uma língua que sintetiza o português e as culturas locais. O crioulo falado em Zinguincho uma cidade do Senegal, localiza-se no sul do país na região de Casamansa, é do mesmo tipo que o de Cacheu (Guiné-Bissau, país que fica a poucos kilómetros desta cidade) com alguns termos acreolizados do francês, sendo contudo inteligível mutuamente com os crioulos guineenses e caboverdianos.


A seguir passo o "Pai Nosso" no crioulo de Casamansa:

No Pape ki stana seu
Pa bu nomi santificadu
Pa bu renu thiga
Pa bu bontadi fasidu riba di tera suma na seu
Partinu aos pom di kada dia
Purdanu no pekadus, suma no ta purda kilas ki iara nu
ka bu disanu no kai na tentasom
Ma libranu di mal
Amen

Fonte: Dicionário temático da lusofonia, Fernando Cristóvão,Maria Helena Amorim,Maria Lucia Garcia Marques, Susana Brites Moita

domingo, 14 de agosto de 2011

Pensamentos?



Abre as portas sussurrando e permeando o pensamento de ninguém.


A.A.

Santa Clara


Foto de Lucas Rosa
(clique na foto para ampliar)

sábado, 13 de agosto de 2011

Letras Galegas para um reintegracionista

Amigas/os foristas,

Infelizmente, no Brasil pouco se conhece sobre a realidade da Galiza e sua luta pela sua identidade. Normalmente ignoram que a Galiza tem uma afinidade com a língua portuguesa e com a lusofonia. E desconhecem que devido ao jugo do Estado Espanhol, a lingua da Galiza, uma variante da língua portuguesa, está sendo substituída por outra. Morrendo aos poucos!
Devemos ficar felizes ao saber que, igual uma fênix, a Galiza está renascendo. Estão ressurgindo e resgatando a própria identidade. A própria cultura de todo um povo. Mas poucos , no Brasil, sabem que a maioria dos imigrantes que vieram da Espanha para o Brasil, vieram da Galiza. Com certeza que os primeiros que vieram contavam para os que vieram a posteriori que aqui, no Brasil, todos os brasileiros falavam galego e não castelhano!
Talvez muitos foristas, do Dialogos_Lusofonos, ainda não compreendam porque neste espaço da lusofonia, insistimos em destacar a Galiza e sua cultura. Por isso faço esta introdução , antes de partilhar com vocês o texto "Letras Galegas para um reintegracionista" (ver aqui), por José Paz Rodrigues.

Saudações

Margarida

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

ENCONTROS COM AGOSTINHO

NAMORANDO O AMANHÃ
(2ª. Edição)
5. CEPA DE GENTE CORAJOSA QUE AINDA DÁ FRUTO
Quando ele saía, eu disse:
“-Anda cá. Nós agora vamos atravessar a baixa da cidade que é a área dos bancos e das grandes empresas etc, e depois é que vamos ao castelo de São Jorge. E eu queria que você fizesse uma coisa. Quando vir na rua alguém com uma cara semelhante àquela que têm os homens dos painéis, você me diz, olha, ali vai um.”
Bom, o nosso amigo, como eu esperava, atravessou a baixa silencioso, porque ali, a maior parte das pessoas que andam metidas naquela máquina terrível de ganhar dinheiro e de fazer mais dinheiro em cima de dinheiro, têm uma cara coitados, como podem, não é? Uma cara de qualquer maneira e não aquela que deviam ter. Uma cara que agrade ao patrão, uma cara que agrade à empresa, uma cara que agrade àquele e quem eles vão distribuir impressos ou caixinhas da morte, a fregueses, etc, e não ter a cara própria que gostariam de ter. Então, efectivamente, ele atravessou aquilo sem falar.
Chegámos ao castelo de São Jorge, eu lhe mostrei a linha geral da cidade, ele gozou também e depois eu disse:
“-Já que estamos aqui, vamos ali às Portas do Sol e vamos descer por uma escada, de que eu gosto muito, para chegarmos a Alfama.”
E disse-lhe:
“-É pena ser Domingo, sabe? Porque assim, em Alfama, todas as tabernas devem estar fechadas, nós não podemos ir, como devíamos, a uma taberna.”
E tivemos muita sorte, porque sendo Domingo estando tudo fechado, havia uma taberna aberta.
Eu disse:
“-Você já não sai daqui sem beber vinho e comer pão ou um frito qualquer que lhe agrade para você saber exactamente o que é Alfama.”
Sentamos para comer, daí a pouco tempo toca.
Diz assim:
“-Ali está um com aquelas caras.”
-Ah sim, em Alfama claro, claro, claro… E noutras aldeias de Lisboa você também encontraria. Eu é que o desafiei a encontrar isso na Rua do Ouro. E aí, meu querido amigo, eu estava pronto a perder uma fortuna se você apostasse ao contrário.”
Ia ganhá-la que era o que eu faria, não é?
Efectivamente houve transformações na vida portuguesa e as pessoas que vão vendo as caras que desfilam pela Rua do Ouro, pensam que Portugal, coitado, não presta para nada. Os outros sim, foram os navegadores, foram os descobridores, foram os guerreiros.
E eu digo.
Meu caro amigo, para passar os Pirenéus a salto, no Inverno, na neve, para chegar à Suécia e fazer trabalho na Suécia ou na Suíça que ainda é pior, os portugueses tiveram essa coragem. Saíram de Portugal que lhes não oferecia nada que os pudesse prender, pelo contrário, os privava de tanta coisa, foram para a neve, morreram na neve; abandonados, passaram esses países de que não sabiam as línguas e as aprenderam e se tornaram indispensáveis e para isso foi precisa muita mais coragem do que para ir à China ou tomar a cidade de Malaca. Aqui eram as obras e o que eles fizeram durou meses e meses de angústia, de dureza, de suplício e eles aguentaram.
O que acontece é que não houve até agora, nestes tempos modernos, nenhum projecto pelo qual o português se apaixonasse.
O português não se pode apaixonar por qualquer coisa como se apaixona um alemão ou se apaixona um inglês. O português é de mais qualidade, só se apaixona por aquilo que vale realmente a pena.
E ao passo que os outros andavam apaixonados, na altura em que os portugueses foram para o mar, em trocar umas mercadoriazinhas da Holanda para a Inglaterra ou da Inglaterra para o Báltico, os portugueses não, só se apaixonaram por aquele projecto grandioso que toda a gente julgava impossível que eles realizassem e depois foram realizar outro de que a Comissão das Navegações nunca se lembra. Foram navegar para o Brasil, por terra.
(continua)





quinta-feira, 11 de agosto de 2011

d´Arte - Conversas na Galeria L

Cais de Alhos Vedros Autor António Tapadinhas
Acrílico sobre papel Canson 400/g

Já há muito tempo que não experimentava pintar aguarela à minha maneira.
Dito assim, não dá para entender sem uma explicação.
A pintura em acrílico pode confundir-se facilmente com a pintura a óleo, sobretudo se adicionarmos à tinta modeling paste ou gloss gel médium, que lhe dá uma textura viscosa, transparente e brilhante.
Para se poder confundir com aguarela é mais simples, basta juntar água.
Este pormenor do Cais do Descarregador de Alhos Vedros, foi tirado para um quadro de maiores dimensões, em tela. Como o achei muito interessante pelas suas cores vivas e pouco habituais na minha paleta, resolvi mostrar este trabalho.
Espero que gostem!

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Inéditos - Pedro Dubois


SILÊNCIOS

                        Tanto conversamos
                        em silêncio

                 seus olhos perguntam
                 respondo olhares

           mágoas
           tristezas
           iras
           raivas

         surdas maneiras
de nos fazer entender
não estarmos juntos.



TER

Tê-la ao meu lado
              ter-me prisioneiro
tê-la como consolo
              ter-me desconsolado
tê-la entre tantas
              ter-me sozinho
tê-la no anoitecer
              ter-me na escuridão
tê-la no que inicia
              ter-me sem origem
tê-la como estrela
              ter-me sob as nuvens
tê-la no esplendor do vento
              ter-me como calmaria
tê-la na amplidão do horizonte
              ter-me em linha traçada.



REALIZAR

Realizo o sonho ao destino
ofertado. Retiro a irrealidade
e a contemplo em matéria
rio do segredo
descubro
avanço o tempo
à semeadura
e retorno em colheitas

a casa serve ao senhor
o estio ao crescimento da planta

depois do cultivo
sobre a terra
em inundações lavo a sombra
da irrealidade. Deposito
diante do homem
a sobra na satisfação
             do todo.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Origens

     
Fonte: Livro " Ambientes Açorianos", da época dos descobrimentos às das viagens e emigração, de Francisco Ernesto de Oliveira Martins 

Os Açores e a Madeira foram arquipélagos descobertos na primeira metade do século XV, e como os portugueses precisavam  ocupar essas terras periféricas, para manter o domínio sobre elas,  mandaram para lá gente do Continente e de países que tinham  relações com a Coroa Portuguesa. Os escravos foram, como no Brasil, mãos de obra doméstica e agrícola quando tentaram implantar o cultivo da cana-de-açúcar nas ilhas. Na Madeira, por uns tempos deu certo, até que a produção brasileira, concorrente, prejudicou o  seu comércio. Nos Açores o projeto pouco durou, tanto que a população africana muito cedo se extinguiu. Sobraram os  colonos estrangeiros que mantiveram com os portugueses da metrópole, pelos séculos seguintes,  miscigenações que deram origem ao povo açoriano. O relativo isolamento a que ficaram por muitos anos submetidos  facilitou  a pesquisa das origens. Hoje com a arribada dos portugueses de procedência africana, e a presença de alguns estrangeiros, descendentes ou não de emigrados açorianos,  o quadro genético paulatinamente se modifica. 

Até a algumas décadas atrás, o arquipélago dos Açores era uma terra de emigrantes. Os vulcões e a pouca disponibilidade de terras inviabilizava uma população crescente. Quando as famílias tornavam-se numerosas ou um desastre natural fazia faltar o pão, a solução era e emigração, espontânea ou promovida pelo Estado, como aconteceu em Santa Catarina (Florianópolis, e cidades costeiras) no século XVIII, com a chegada dos açorianos. Muitas familiais conhecidas, no Brasil, tiveram raízes nos Açores. De lá vieram emigrados como colonos, militares, padres ou aventureiros, todos procurando uma nova vida. 

No inicio da ocupação do Faial (Açores), minha terra natal, a população era quase inteiramente flamenga, tanto  que o primeiro governador, Joss Hurtter ( de Bruges), deu origem ao nome da cidade principal da ilha, Horta, por deturpação portuguesa da língua flamenga.´ Os açorianos de origem  flamenga são os Dutra descendentes de Joss Hurtter e do seu irmão Balduino Utra, os Silveira (descendentes de Willen Van der Haagen), os Grota (descendentes de Job Groot), os  Rosa (descendentes de Pieter Roose) os Arnequin (descendentes de Herrn Jannequin), os Bulcão (descendentes de Buscamp) os Cornélio (descendentes de Cornelius), os Vernes (descendentes de Tristão Vernes), os Terra (descendentes de Joss Van Aertrijcke ou Aard), os Brum (descendentes de Guilherme Brum), dos quais tenho como ascendente uma trisavó pela linha materna. 

Há também  familiais açorianas de origem biscaia, os Arriaga, de onde provém  o primeiro presidente da República portuguesa, o faialense Manuel José d'Arriaga Brum da Silveira; os Berquó de Mont-de-Marsan (França), os Bettencourt, Bitencourt, Betencourt ou  Bethencourt (oriundos da Normandia),os Labat (de Arrochela, França), os Bom Dia (da Espanha), os Curry, os Whyton, os Street (da Inglaterra),  os Garcia (da Galiza), e outros mais que não têm origem comprovada, como os Gutierrez e os Gondinho. 

Vindos de reino, os Baleeiros, os Ávila (das Astúrias para Portugal no século XV), os Taveira, os Cunha, os Andrade, os Farias, os Mendonça, os Nunes, os Fagundes, os Pereira, os Pimentel, os Avelar, os Pamplona (de Navarra a Portugal), ...e muitos outros que tomariam aqui todo o espaço, mostrando que,  na maioria e no sangue, somos acima de tudo de origem portuguesa, ou ibérica, se assim quiserem. 

Como açorianos, portugueses da periferia, fomos um povo sofrido, amante de suas raízes, sujeito aos desígnios de Deus e do Estado, impotente  e submisso  às forças da natureza. Para sobreviver, ou para desvendar os mistérios de uma terra desconhecida, arriscamos a vida nas mudanças e travessias, anulamos o passado, nos consumimos para fazer um futuro.  Herdeiros do novo mundo, muitos são, sem saber, fruto de uma epopeia ilhoa.

Maria Eduarda Fagundes  (faialense)
Uberaba, 22/07/11
MG, Brasil

Dados: Anais do Municipio da Horta ( Marcelino Lima)