terça-feira, 14 de julho de 2015

O DIÁRIO DA MATILDE - O MEU PRIMEIRO ANO DE ESCOLA

A DISCIPLINA É NECESSÁRIA 


Sabeis vós que o pequeno Zé Maria passou a tarde de Sábado, entre nós, para o que nos vimos na necessidade de montar a cama de campanha que tanto nos serviu para a Margarida e a Matilde; o bebé precisaria de fazer a sesta. 

Quem gostou da ideia foi esta minha filha mais nova. 
Desde a noite de Domingo que, para lhe dar o beijinho de quando a seguir os pais se deitam, vejo obrigado a debruçar-me numa espécie de gaiola sem tecto. 


Dormem os amores mais novos e a casa deixada às notícias, na TSF. 



Terminou aquele que foi o Verão mais quente dos últimos vinte e cinco anos. 
Foi, em termos naturais, a persistência de elevadas temperaturas que por diversas ocasiões ultrapassaram os quarenta e poucos graus em grande parte do território, desde o fim da Primavera até ao momento. 
E a este forte e longo período seco estival juntaram-se os fogos com dimensões nunca antes vistas e para que os ânimos, também eles, ainda ficassem mais acalorados, esteve ao rubro o processo que se desenvolve em torno da investigação sobre a eventualidade de crimes no domínio do abuso e exploração de menores. 

Foi a estranha e dantesca estação deste reino do homo maniatábilis que se normalizou e instalou no aparelho de estado nos últimos anos. Um território seco a ferro e fogo, enquanto nos media se assistia ao achincalho de magistrados e da magistratura, ao mesmo tempo que surgiam as mais variadas pressões para alterar leis e regras processuais, caricatamente elaboradas e aprovadas com o beneplácito de muitos desses detractores. 

O rasto deste Verão é um país em recessão económica e sem projectos de futuro, onde as apostas que se impunham na educação e nas reformas da administração pública e na fiscalidade estão a deixar que se acumulem gerações mal formadas tanto para o saber como para o trabalho, bem como aumenta o peso da máquina do estado sobre a sociedade. 


O poder político, esse esteve em peso na final da Taça da UEFA, em Sevilha que o Futebol Clube do Porto venceu. Presidente da República, Primeiro-Ministro, Ministros e Deputados, até a Primeira Dama esteve presente, todos juntos a comemorar, pois então, radiantes a cumprimentar nada mais nada menos que Pinto da Costa, símbolo deste Portugal no seu melhor. 



Depois há destas coisas. 
Segundo a capa do “Público” de hoje, noventa e cinco por cento dos candidatos ao superior entraram. As vagas que faltam, sobram relativamente ao número de candidatos para a segunda parte das colocações. 
No país com os maiores níveis de iliteracia e as piores performances no domínio científico, entre os parceiros da União Europeia, conseguimos a proeza de criarmos uma espécie ensino superior de massas. 


Faz-me recordar aquelas atoardas da época revolucionária, quando era possível escutar – era voz corrente, em alguns meios – que na Rússia – assim os mais velhos designavam a União Soviética nesse tempo de discussões políticas – até os pastores tinham um curso. 



Na aula desta manhã, os alunos receberam a visita do Senhor Padre Carlos, segundo a Matilde, para distribuir uns papeis sobre a catequese. 

De resto, os trabalhos foram preenchidos com desenhos, pinturas e recortes. 

Como houveram meninos que fizeram do chão o depósito das aparas, foram obrigados a limparem a sala no fim dos trabalhos. Por isso saíram com uns minutos de atraso. 


A Matoldas lá vinha sorridente, toda satisfeita. À semelhança da irmã mais velha, também o pardalito frequentará aquela hora semanal de iniciação – será que se pode dizer assim? – à formação católica. É essa a vontade da mãe e foi esse o acordo que assinei para poder casar com ela. 
Não me parece que haja algo de errado nisso. O cristianismo encerra em si uma mensagem universal de paz e tolerância entre os homens. 

Coisas de que a Humanidade não se pode demitir. 



Agora silêncio, vamos escutar a noite 
que os doces sonhos esperam por nós. 


Alhos Vedros 
  23/09/2003

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