"Firme, forte, bem enraizada, a última azinheira e a sua dríade ou Espírito da Natureza, qual Deusa Mãe Terra, saúda-nos e pede-nos para defendermos mais as árvores, em especial as mais velhas, raras e sagradas..." (Pedro Teixeira da Mota)



quinta-feira, 2 de julho de 2015

PLANTAS SELVAGENS E ESQUECIDAS NA ALIMENTAÇÃO E NA SAÚDE


Croniqueta sobre o potencial de Aidos da Vila



Fico muito grato ao meu amigo Dr. Valdemiro Gonçalves Pereira, economista reformado, naturalista e eminente biófilo, por me ter convidado para uma ação de formação no seu Jardim Botânico “Aidos da Vila” em Vilarinho de Bairro – Anadia.
Aidos da Vila goza de uma centralidade invejável, a 30 km a norte de Coimbra e a outros 30 km a sul de Aveiro, situado em pleno centro geográfico da Bairrada. A quinta tem apenas um hectare mas é altamente favorecida por um microclima versátil, um solo silicoargiloso muito fértil com pH neutro e uma generosa toalha freática. A estes valiosos atributos há que juntar a sapiência e o entusiasmo do seu proprietário que incessantemente investiga e experimenta novos processos de adaptação de plantas de todos os continentes, dilatando a biodiversidade do seu precioso espaço. Gonçalves Pereira, que iniciou há 22 anos este projeto autofinanciado, adequa as condições do solo às preferências alcalinas ou ácidas das várias espécies e cria uma verdadeira sociologia vegetal em que as plantas se consociam e se protegem mutuamente conforme as suas características específicas.

Visitar este Jardim Botânico através de um percurso guiado proporcionado pelo seu autor, constitui um deslumbramento para os sentidos e uma lição mais profícua do que, porventura, qualquer curso de botânica facultado em vários meses de áridas teorias. Sei do que falo pois, sendo também um biófilo tenho já um palmarés notável no tocante a visitas de jardins botânicos de todo o mundo. Realço os principais que vi nas seguintes cidades: Havana (Cuba), Santo Domingo (República Dominicana), Washington, Rio de Janeiro, Buenos Aires, Londres (Kew Gardens), Mainau – Lago Constança (Alemanha), Paris (Jardin des Plantes), Madrid, Roma, Genebra, Edinburgh, Reiquejavique (Islândia), Malta, Christchurch (Nova Zelândia), Melbourne, Sidney, Pyongyang (Coreia do Norte), Kandy – o mais antigo do mundo (Sri Lanka), Hainan (China), … Como é natural, visitei também os jardins botânicos de Coimbra, Porto, Serralves, Faial, Funchal, Tropical da Ajuda (lastimavelmente muito abandonado) e o da Faculdade de Ciências de Lisboa, integrando a respetiva Liga dos Amigos. 

Tudo isto para dizer que nenhum me encheu tanto as medidas como este dos Aidos da Vila. Poderão pensar que exagero, pois comparar este jardim com os Kew Gardens é como comparar o Papa com o cura cá da terra. Mas explico melhor! É que Aidos da Vila, pelo facto de ter apenas um hectare, proporciona uma visão de conjunto e uma perspetiva de superior utilidade porque se centra fundamentalmente em preparações fitoterápicas e na produção de inovadores alimentos biológicos a partir do solo.

Isso ficou bem patente no almoço vegetariano que deliciou todos os participantes no dia 20 de junho de 2015. Nunca imaginei que as barbas de milho verde ficariam tão bem numa salada crudívora, nem que as pétalas das flores de feijoa eram tão doces. Para não referir o paté de tremoço e abacate, o puré de fava com beldroegas, o estufado de feijão vermelho, com broa de milho, couve-galega e rábano-silvestre, o bolo de flor de sabugueiro, a limonada com oximel, o hidromel e as infusões de plantas aromáticas. Tudo isto proveniente daquela quinta de um só hectare.

Para verem que não exagero nas minhas apreciações, acrescento que Aidos da Vila junta cerca de 700 espécies oriundas de todos os continentes, incluindo 60 fruteiras exóticas e mais de 500 aromáticas, medicinais e tintórias.

No percurso efetuado deu para provar (impensável em qualquer jardim botânico estatal), groselhas e framboesas de várias cores e sabores, mirtilos, abacates, invulgares citrinos e, é claro, também damascos, pêssegos, ameixas, cerejas…

Fui anotando, sem qualquer seriação rigorosa, algumas espécies à medida que íamos caminhando e que registo apenas como mera curiosidade: lúpulo, erva-benta, cavalinha, equinácea, mandioca, ínula, konjac, saponária, camélia japónica, camélia chinesa (chá), pé-de-leão, Menta spicata e inúmeras mentas, nigela, mirangolo, sapoti, jabuticaba, ulmária, Armoracia rusticana, Lippia alba, canforeira, caneleira, tupinambo, angélica, consolda, santolina, tomilhos, aipos, borragem, hissope, fisális, espargo, levístico, pimpinela, salva, alcaparra, mostarda-negra, … …

Com curiosidade observei os dois eucaliptos citriodora e apanhei umas folhinhas para mostrar aos alunos de fitoterapia da Universidade Sénior dos Coruchéus, lembrando um episódio que ocorreu há alguns anos no Campo de Tiro de Alcochete. As referidas folhas tinham fama de serem afrodisíacas e os magalas despenavam literalmente a única árvore que havia no citado quartel. Certa vez, o Presidente da República, Mário Soares, em visita à Unidade, recebeu do respetivo Comandante um envelope com três ou quatro preciosas folhas e agradecendo, logo retorquiu “Vou dar à minha Maria para fazer um chazinho!”

Aidos da Vila é também notável por ser um centro ecológico autossuficiente em termos de energia e de abastecimento de água. Estão instalados na residência vários painéis solares e fotovoltaicos que permitem eletricidade e águas quentes com fartura. Existem ainda fornos solares e tradicionais, extratores de essências, alcoolaturas e açúcares substitutos da sacarose. Os biocompostores, instalados faseadamente, decompõem a matéria orgânica proveniente dos vegetais e do estrume dos animais domésticos da quinta, constituindo um belíssimo exemplo prático do que é o modo de produção biológico.

Notável é também a parte dedicada à apicultura com produção de mel de excelente qualidade, cera, pólen, própolis, oximel, hidromel, vinagre de mel e pasta vegetal dourada (azeite, mel e nozes).

No laboratório de bioquímica, Gonçalves Pereira, procede a aturados ensaios relativamente aos métodos de germinação a partir do seu banco de sementes. Com rigor, aqui se observa, estuda e respeita a planta em todo o seu ciclo de vida, ou seja, da semente à semente. Produz ainda licores, azeites e vinagres aromáticos, cosméticos, florais, sabonetes e perfumes. Em estudo está o fabrico de biojoias e de artesanatos variados com destaque para a utilização do linho e do bunho.

Concluindo, lanço um repto a todos os que me leem para que os estabelecimentos de ensino aproveitem este paraíso da natureza e os conhecimentos práticos e teóricos que ele propicia. Aproveito também para sugerir veementemente visitas programadas e participação nas ações temáticas formativas que ciclicamente vão tendo lugar neste encantador espaço botânico.

Junho/2016 

MIGUEL BOIEIRO

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