"Cheguei finalmente à vila da minha infância (...) Paro diante da paisagem, e o que vejo sou eu."

- Álvaro de Campos


quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Vendas Novas, 24 NOV 2014

INTELIGÊNCIA EMOCIONAL?

Não levem a mal a observação que se segue. Não quero ser desmancha prazeres, apenas apelar à reflexão e ao espírito crítico. Penso que, para além de uma grande abertura de espírito, é bom termos em atenção que aquilo que muito se populariza tem por regra pouca consistência.

O conceito de inteligência emocional foi introduzido no digestivo marketing das ideias do pronto a pensar pelos psicólogos Peter Salovey (da Universidade de Yale) e John Mayer (da Universidade de New Hampshire), em 1990, para uso académico, como ferramenta de análise e compreensão do que é a inteligência, não para afirmar que há várias inteligências, que não há. Porém, em 1995, o jornalista do New York Times Daniel Goleman publicou o seu bestseller EMOTIONAL INTELLIGENCE: WHY IT CAN MATTER MORE THAN IQ e o “conceito” tornou-se viral, para usar uma expressão corrente na NET.

Ora acontece que a popularidade conseguida por este modismo não correspondeu nem corresponde ao seu valor científico e muito menos ao espiritual.

Não existe algo como inteligência emocional, o que existe é conduta emocional, hábitos emocionais, derivados dos sentimentos (predominantemente espirituais e de fraca repercussão orgânica) e das paixões (fortemente orgânicas).

A existir tal coisa como inteligência emocional, caberia perfeitamente na fusão das inteligências intra e inter-pessoal da nomenclatura – igualmente apenas de compreensão – proposta por Howard Gardner (Harvard 1980) na sua teoria das Inteligências Múltiplas. Todavia, este mesmo psicólogo, realçava a impossibilidade de aferição quantitativa das emoções, que o mesmo é dizermos que não se pode ser objectivo com a subjectividade.

A inteligência é só uma, os seus aspectos é que são tantos quanto nós queiramos entender e dizer: verbal, espacial, musical, cinética, etc. A inteligência conquista-se pelo entendimento e pela abertura de espírito e nenhuma técnica lhe vale. Para alguns é uma dádiva do alto, uma outorga; para muitos, uma trabalheira.


As “técnicas” ditas de aperfeiçoamento e ampliação do modismo alcunhado de inteligência emocional dificilmente produzirão o que prometem e muito facilmente contribuirão para poluir as estruturas da Personalidade, ao gerarem por ilusão ou censura uma cortina de ocultação da Besta que nos habita. Bem sabemos que não vale a pena escondê-la na cave nem abafar-lhe os berros, pondo a música alta. O processo é outro.

Abdul Cadre


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