sábado, 30 de março de 2013

Os caminhos do espírito


A Mística Espanhola:
São João da Cruz (1542-1591)


Constitui uma das grandes referências da espiritualidade cristã. "A Subida do Monte Carmelo", obra fundamental de São João da Cruz, é um comentário do autor aos seus próprios poemas.

Só por graça de Deus a vida humana pode chegar a uma vida divinizada. Só isso é a salvação.
A condição essencial para a união com Deus é o "desapego" e a liberdade de espírito. Deus é o centro da alma que está no íntimo de cada homem. O problema é que o homem dá mais atenção às coisas exteriores do que à fonte de si mesmo.

São João da Cruz dirige-se particularmente aos que estão dispostos a abdicar dos seus desejos e vontades. Para ele, o caminho constitui-se por três níveis diferentes:
1- Os principiantes (a via purgativa, os primeiros sinais de Deus);
2- Os aproveitados/contemplativos (a via iluminativa, começam a haver "notícias" de Deus;
3- Os perfeitos (a via unitiva, atingem um grau avançado na união com a divindade).

Neste caminho o homem tem de passar por duas "noites escuras": uma dos sentidos e uma do espírito, ambas compreendendo uma fase ativa (conduzida pelo próprio) e uma fase passiva (conduzida por Deus). Para passar pelas "noites escuras" é necessário um sentimento de fé, de confiança no caminho, pois que as vantagens não se vislumbram imediatamente.

Na fase dos sentidos tem de haver um "desapego" das coisas, se bem que isso não implique necessariamente duma abdicação dos objetos (bens). A satisfação dada por esses bens substitui um sentimento de algo mais profundo. Quanto menos coisas houver na alma (aqui equivalente a mente, consciência), mais a luz divina nela brilha.

A proposta é, portanto, em vez de acumular bens ou conhecimentos, há que se esvaziar, ficar sem nada. A santidade não tem a ver com intelectualidade, antes, é um estado de realização do ser.

Face a estas ideias, um reconhecido problema do ensino atual, é a aposta numa extrema intelectualização, no quase exclusivo desenvolvimento mental, em vez de um desenvolvimento integral. Hoje fomenta-se demasiadamente a tecnicidade e o especialismo - homens muito inteligentes, mas pouco humanos.

Deus tanto está no prazer como no sofrimento. Independentemente de se estar alegre ou triste, bem ou mal, a alma deve estar em paz para que esse sentimento de Unidade seja possível.

Carlos Rodrigues

Referência Bibliográfica:
BORGES, Paulo, Seminário de Filosofia da Religião, Faculdade de Letras da universidade de Lisboa, 2011/2012, 2º semestre.

5 comentários:

Unknown disse...

Numa altura em que o mundo está cada vez mais cheio de coisas e o homem vive tão "empanturrado" de si próprio, difícil parece ser o caminho para o "desapego"... mas, cheios de tudo, tudo nos falta, se vazios de Deus. Obrigada pela reflexão.

MJC disse...

Mais um excelente apontamento de Carlos Rodrigues.
Obrigado pelo estímulo à reflexão que a sua leitura sempre proporciona.

Um abraço.

Manuel João

luis santos disse...


De acordo com ambos, também me parece um ótimo texto para reflexão. Obrigado. Retive igualmente no texto a ideia de "desapego" sem a necessidade de abdicação do que faz falta... Também me parece que esta sociedade de excessivo consumo terá obrigatoriamente, mais cedo ou mais tarde, de arrepiar caminho, sendo gradualmente substituída por outra relação do homem com a natureza. E até, neste sentido, o texto terá o seu interesse. Que se continue o Estudo. Abraços.

Anónimo disse...

Em momentos de particular tristeza e de alguma solidão procuram-se caminhos... nessas alturas nem sempre se consegue ter o discernimento suficiente para se reflectir com clareza sobre tais caminhos - que bom o surgimento de uma Luz (divina, em qualquer das formas que possa assumir e manifestar-se)que nos ilumine e nos preencha os espaços - vazios!
O seu texto ajudou-me a alguma relexão! Agradeço por isso!

Anónimo disse...


Não conhecemos bem a dimensão do nosso discernimento e da nossa clareza, mas cremos que um certo "esvaziamento" (que não o vazio), uma certa paz de espírito, ajudam a pôr a tristeza e a solidão no seu devido lugar.
Obrigado por nos ajudar a refletir.