sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Cheiro de Café

Não há nada que mais me pareça com a crônica que o cheiro do café.
É uma metáfora olfativa, sinestésica; não deveria explicá-la. Fico tentado a encerrar o texto por aqui. Continuo.Afinal posso até escrever contos curtos, mas ainda não optei por treinar as crônicas curtas, embora elas pareçam correr no meu dia a dia. Quem sabe eu tente ainda escrevê-las.
O cheiro do café: matutino, fresco, suave, de leve amargor... Caminhando pelo condomínio pela manhã, fazendo academia, assistindo ao noticiário matutino ou tentando se fechar do mundo num escritório/gabinete é sempre esse gostinho que chega às narinas trazendo um novo dia, as novidades do dia. Mesmo os barulhos da cidade chegam com o café e, antes dele, o seu cheiro.
A crônica seria esse agradável sabor de fragrância noviça e breve. Relativamente pontual e tão ligada ao presente. Logo surgindo e logo esvaecendo, mas sempre retomada.
A crônica, a despeito de ser chamada gênero menor, tem seu mistério. Mesmo quem não gosta de café, gosta de seu cheiro, mesmo quem não aprecia literatura ou não tenha hábito de ler, curte uma crônica. Se bem usada, a crônica traz para literatura o leitor iniciante, como o cheiro do café chama para a mesa, convida para uma boa conversa e, mesmo não o bebericando, a mesa fica rodeada e o diálogo flui.
A crônica, atrativa... logo o leitor prova de toda literatura: haicais, sonetos, poemas mais longos, contos, romances...


Belém/Tailândia, 26 de Janeiro de 2011.

Abilio Pacheco, professor, escritor

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

d´Arte – Conversas na Galeria XXII

NDEBELE II

Symmetry Óleo sobre tela Autor António Tapadinhas
50,5 x 42,5cm Moldura de madeira, 2,5cm de espessura, pintada a óleo
O meu quadro tem figuras geométricas, que recriei a partir dos originais, utilizando a simetria que está sempre presente em todos os desenhos que tive a oportunidade de ver. A moldura que fiz leva os motivos do quadro para além da tela, transportando-o para o ambiente que o cerca.


Os pintores nativos fazem os seus murais e a decoração das casas, utilizando desenhos geométricos com cores fortes e contrastantes. Utilizam símbolos, mas muito raramente, animais ou figuras. As mulheres têm a possibilidade de poder decorar a sua casa e é, seguramente, uma das poucas prerrogativas que elas têm de se expressar individualmente.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A ponta da árvore visível ainda


A não fome.
A sede seca na boca.
Alma que gela nos espaços do tempo…
a visão turva pelo chover intenso
e o fogo extinto queimando ainda dentro.
… as cinzas espalhadas pelo sopro do vento...

Coração teimoso, gritando, já rouco,
e a voz suplicante…
… os ouvidos sangrando…
Gira o mundo na orbita do infinito,
planetas e estrelas impondo-se no caminho.
As mãos vazias calejadas do esforço,
unhas que faltam pelo escalar do monte…
… que monte...

Monte-montanha tocando de leve a ponta do céu que foge,
Nas feridas o pó, a terra, o sangue…
O ar que falta no excesso do ar que se expande,
explodindo o que existe na falta do sonho.
… ar flutuante…

Um quê de ácido corroendo a pele,
vincando sulcos pelos tecidos até ao osso.
A alvura da parte dura resistindo ao golpe,
O borbulhar dos tecidos moles padecendo no tempo.
Segundos que são minutos… horas… momentos infindáveis
… incontáveis…
O tempo caindo como lama grossa do alto dos muros.
As unhas que faltam entranhadas nas paredes da vida,
E a vida que falta agonizando… moribunda…

Do lado de lá do muro, a ponta da árvore visível ainda,
muro de onde escorre o barro do tempo
e árvore de onde cantam seres encantados.
A dor crescente por dentro do corpo
e o coração, teimoso, sempre gritando

… mesmo que rouco…

Cléo.
24/1/2011

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

FACES

AEROPORTOS


Aeroportos e aviões.
Um dia perdido por entre esperas intermináveis, descolagens e aterragens.
São Paulo, o aeroporto de Guarulhos fala quase tantas línguas quantas as existentes na Terra.


Aeroportos. Já estive em uma boa vintena deles e posso dizer que de todas as dimensões e feitios. Desde Heathrow, em Londres, um gigantesco aeroporto internacional, quer no referente ao tamanho quer à complexidade em que se constitui como um grande nó inter-continental, de onde partem ligações aéreas para praticamente todo o mundo, constantemente agitado pelas máquinas que sobrem e descem de e para díspares direcções, desde esse, dizia, até aquele que não será erro considerar o antípoda, como é o caso da aerogare de Santiago, na Cidade da Praia, em Cabo Verde, o qual abandonei por uma espécie de portão de quintal, mal acabada a aventura de recolher as bagagens a contento, num armazém de amarelo desmaiado, atravessado ao meio por uma linha de bancos de ripas de madeira, sobre os quais foram literalmente atirados os volumes que não raramente estão a mais ou a menos, por entre aquela oposição devo acrescentar que também já deambulei por aeroportos de média dimensão mas inseridos nos circuitos internacionais e inter-continentais, como, por exemplo, o de São Salvador da Bahia de Todos os Santos ou o de La Valetta, em Malta, assim como em outros mais pequenos mas de expressão além nacional, o de Agadir é, para tanto, um postal, outros tão só com papel regional, como o aeroporto de Iguaçu, no Paraná, onde a pista ainda é avistável a partir de varandas e terraços abertos ao ar atmosférico, provavelmente devido ao calor, mas todos eles eficazes e modernamente organizados, à semelhança de um qualquer grande aeroporto internacional, só que em ponto mais pequeno. E a propósito, embora seja um aparte alienígena a estas páginas, digo que, de todos quantos conheci, aquele de que mais gostei foi o de Brasília, em forma de disco voador e um verdadeiro espectáculo em termos de funcionamento, quer no âmbito das acessibilidades, quer no respeitante à comodidade de em pouquíssimos passos usufruirmos dos serviços necessários e da manga que, em todos os voos, nos leva ao aparelho; aliás, um aeroporto à altura daquela que, na minha modesta opinião, representa uma ideia de cidade do futuro, um espaço feito à escala do máximo proveito para os beneficiários que são os seus habitantes.
Mas, como eu estava dizendo, já estive em muitos aeroportos diferentes e aquilo que sempre neles me impressionou ou, para conferir maior precisão ao discurso, mais me impressiona, trata-se, afinal, de algo que nada tem de diverso daquilo que sucede em tantos outros sítios; é o facto de por lá trabalharem pessoas que dão corpo às suas vidas profissionais invariavelmente sob os olhares dos milhares e milhares de outros que por aí passam.
Ainda hoje não sei explicar porquê, mas quando, à volta dos meus dezassete anos de idade, laborei um bom número de meses no escritório de uma agência prestadora de serviços, sentia o embaraço de desempenhar as minhas funções perto de uma janela e ao alcance de todos os mirones que, por vezes, me observavam enquanto escrevia à máquina ou atendia este ou aquele cliente. Não sei se me irritava o estar ali e os outros lá fora ou se, o que me perturbava, era simplesmente a inevitabilidade de ser o alvo de quem se atrevesse a espreitar. Sei que a situação me era incómoda e recordo-me de dias mais taciturnos em que me remetia para uma secretária de fundos que tinha a particularidade de estar, em parte, camuflada por um armário metálico com gavetas de ficheiro. Ser estafeta, na rua, ou cobrador, como aconteceu mais tarde, isso era uma coisa. Mas trabucar indefeso perante o olhar alheio…
E o curioso é que, inconscientemente, sempre me perguntei se aqueles que o fazem com tal se agradam. Eu destaquei o inconscientemente pois, se o não tivesse feito, certamente estaria para aqui a sustentar tontices. Claro que há ilustrações para todos os gostos; ele haverá quem goste e quem desgoste e ainda os indiferentes. Eu é que, por esta ordem, me posiciono no meio, ainda que tenha conhecimento de alguém que abençoa a oportunidade de, um dia, ter estado naquela condição de funcionária exposta ao público.


Um amigo meu, certo dia, enquanto esperava o check in, no aeroporto da Portela, em Lisboa, quis o mistério que ele sorrisse para uma empregada do balcão da British Airways.
Ela franzira os olhos e escancarara os lábios, adiantando o rosto na direcção dele, quando se viu forçada a bisar a pergunta relativa à preferência entre os lugares para fumadores e não fumadores.
Por fim, dentes brilhando, ele limitou-se a responder que nunca fumara.
Meses mais tarde casaram.

São Paulo, 28 de Julho de 1995 e Londres, 8 de Agosto de 1996

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Hóspedes

Hóspede na inutilidade perco
a paciência em obviedades:
ao responder anseios interiores
rasgo paredes com palavras
alarmadas ao milagre e refaço
a noite divulgada ao acaso: junto
o teor do expediente e o declino
em versos: no inverso da jornada
esqueço a escala crescente
das necessidades:


hospedo a maldade
ultrapassada.


Sobram cicatrizes em calosidades:
esquecer ainda é o maior mistério.

(Pedro Du Bois, inédito)
http://pedrodubois.blogspot.com

domingo, 23 de janeiro de 2011

Raúla

Gigante Caído, Acrílico sobre Tela 30x40cm,
Pintura de António Tapadinhas

Deambulando por aqui e por ali vão-se encontrando coisas.
Umas alegres e o riso solta-se, outras tristes e a alma guarda-se.
Na bissectriz de ambas labuta a mente.
Cresce, latejando.
Outro dia, conheci uma árvore.
Gostou de mim, penso, pois abriu a alma e disse-me em clima de confidência:
«Raúla é o meu nome»
«Muito prazer», disse eu.
E agradeci a confiança de me mostrar a sua dimensão conversável.
Não se ficou por aqui. Sentindo-se tranquila – e sem ninguém por perto que pudesse interromper ou violar o clima de confidência – foi por ali fora dizendo:

«Eu já fui muitos(as). Iluminava-me ao clarear de cada dia e recolhia-me com cada poente em que não conseguia verbalizar a doçura que me invadia. E tinha sempre os olhos postos no dia que ia nascer. Amanhã. Nos intervalos, enquanto o dia se consumia, falava com meus irmãos disfarçando a voz no voltear da brisa. Havia a proximidade do mar e o bafo da maresia impelia-nos a dançar. E nós dançávamos, mesmo que para isso tivéssemos de inventar um vento que nos animasse. Do alto da minha copa, em momentos de reflexão acarinhando a alma, avistava o mar. No meio do mar, um pouco lá ao fundo, brilhava uma ilha. Terra, no meio do mar. Linda! Ponto de apoio partida-chegada-partida p’ra mais além, abarcar o longe, torná-lo mais perto. Um dia – há sempre “um dia...” soando a desgraça – agitou-se o mar. Criaram-se ondas agitadas, enormes, e, num movimento incontrolável (para mim), cobriram a ilha, submergindo-a.
Terá desaparecido? questionei-me. Não! Mudou apenas de estado e passou a pulsar, inteira, dentro do mar.
E o mar, que o sabe e a sabe, ficou maior. Mais relativo também.
Também comigo aconteceu. A desgraça...

Chegaram um dia as máquinas e, sem dizerem nada, começaram a derrubar os meus irmãos. Caíram ao meu lado aos milhares (1), e eu, por cada um que caía, ia morrendo um pouco também até pensar que não havia mais nada em mim que pudesse morrer. Julguei-me morta também.

Enquanto assim me recolhia e abstraía, fui-me tornando fraca. A fraqueza invadiu as minhas defesas e fiquei mais vulnerável do que nunca. Da minha fraqueza se aproveitaram. Invadiram-me e violaram-me e eu, ferida, abri-me para que melhor e mais fundo me atingissem. As feridas cobriam já o meu tronco, ramos, folhas, e eu não reagia. Morria lentamente sem saber, sabendo.

Um dia logo pela manhã, ia já longa a agonia, duas aves graciosas escolheram o delicado entrançado dos meus ramos mais altos para iniciar a construção do ninho que protegeria os seus ovos e garantiria a sucessão com novos filhotes.
Chegava-se a hora, o tempo urgia, para eles.
Insinuava-se o macho, em intermináveis paradas nupciais, exibindo a exuberância da sua plumagem, gorgolejava a fêmea rendendo-se, receptiva.
Sob o meu olhar desarmado, desenhava-se o repetido mas sempre novo e mágico ritual que garantiria a continuidade, a renovação e o futuro.
Senti um calorzinho pelo tronco acima e a seiva ganhou um novo fluxo.
Ainda que extremamente débil, senti que readquiria um sentido para a vida, que valia a pena passar além da dor e continuar a maravilhosa aventura que, apesar de tudo, constitui o viver.
Passados dias neste torpor doce, reagindo e recuperando, senti impor-se dentro de mim uma decisão inabalável. Olhando a toda à volta, proclamei na minha voz de árvore: Não morro!
Reactivei defesas, estanquei feridas e alindei-me o mais que pude. Agora estou aqui, renovando-me a cada estação e dando frutos mesmo sem que me peçam. Inda agora aqui cheguei...


E assim, aquilo que pretendia fosse um simples passeio contemplativo e retemperador, acabou por se saldar numa maravilhosa lição sobre a atitude perante a vida, até mesmo nos revezes com que ela por vezes nos surpreende.

Foi um prémio à atitude de, num momento mágico e feliz, ter havido a capacidade de sair de dentro do casulo fechado em que tantas vezes se blinda o ser individual que a cada um assiste e, abrindo-se, aceder à possibilidade de escutar as vozes que vogam soltas na brisa.

(1) – Referia-se ao abate do saudoso Pinhal do Castanho

MJ

sábado, 22 de janeiro de 2011

Apresentação do nº2 da revista Cultura ENTRE Culturas


O nº 2 da revista Cultura ENTRE Culturas será apresentado no dia 25 de Janeiro, pelas 18.30, na FNAC - Chiado, pelo Prof. Dr. António Cândido Franco (Univ. Évora), bem como pelo Director, Paulo Borges, e pelo Director artístico, Luiz Pires dos Reys.

Este número tem como tema "Encontro Ocidente-Oriente" e publica ensaio, poesia, fotografia e pintura.

Colaboradores nacionais: Carlos João Correia, Paulo Borges, Rui Lopo, Ricardo Ventura, Duarte Braga, Maria Sarmento, Ethel Feldman, Sylvia Beirute, Donis de Frol Guilhade, Flávio Lopes da Silva, Miguel Gullander, Miguel Real e Abdul Cadre. Colaboradores estrangeiros: pintor Rômulo de Andrade (Brasil), fotógrafo João Paulo Farkas (Brasil), Dzongsar Khyentse Rinpoche (Butão), monge e cientista Matthieu Ricard (França-Nepal), professores Françoise Bonardel (Sorbonne - França) e Giangiorgio Pasqualotto (Universidade de Pádua - Itália), poeta Vicente Franz Cecim (Brasil), psicólogo Sam Cyrous (Uruguai-Brasil).

A revista publica ainda poesia e textos de Raimon Pannikar, Rumi, Longchenpa, Simeão, o Novo Teólogo, T. S. Eliot e Vergílio Ferreira, bem como dois textos do recentemente falecido pensador António Telmo, entre eles o último que escreveu e deixou inédito.
Uma revista de Todo o Mundo ( arevistaentre.blogspot.com ).

O próximo número é dedicado a Fernando Pessoa, com um caderno especial sobre Fernando Pessoa e o Oriente, contendo muitos inéditos transcritos do espólio.

À venda nas melhores livrarias do país e na Livraria Couceiro (Santiago de Compostela).

Assinaturas:

Pedidos à editora: 1 Ano (2 números) / 2 Anos (4 números) Portugal: € 30.00 / € 55.00; Europa: € 35.00 / € 65.00; Extra-Europa: € 40.00 / € 75.00.
Pagamento: cheque ou transferência bancária

Âncora Editora - Avenida Infante Santo 52 - 3º esq. 1350-179 Lisboa
tel + 351 213 951 223 fax + 351 213 951 222
e-mail: ancora.editora@ancora-editora.pt
web http://www.ancora-editora.pt


arevistaentre.blogspot.com

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

1º Lançamento da Revista-"Aventuras de Jerílio-1ºepisódio-Tudo Começou em Máfio", em Portugal!


Dia 22 de Janeiro, sábado às 19h, será o lançamento da minha revista: "Aventuras de Jerílio no séc. 25 - 1º episódio.Tudo Começou em Máfio" com sessão de autógrafos pelo autor, oferta de bandanas desenhadas a quem comprar a revista, beberete e belisquetes, passagem de filmes, música ambiente selecionada, o Luís Carlos também falará do seu último livro.
Sessão de poesia dedicada à crítica do políticamente correto, tragam as vossas poesias mais politicamente incorretas e a melhor ganhará uma revista.
Os Murais de Brasília de que também participei sobre a direção de Delei do Grupo Operação Plástica, lançaram um calendário que será também apresentado neste evento.
Os Arquivos Guerreiro que agora completam 10 Anos garantem um ambiente de Festa e Alegria Geral.


Saudações,
--
Luís Cruz Guerreiro

Mais informações em: www.azulejariaguerreiro.com
ou pelo telefone: 212048677.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

d´Arte – Conversas na Galeria XXI


Universo Autor António Tapadinhas
Óleo sobre tela 100x75cm

Ndebele I
Na viagem que fiz à África do Sul, dois aspectos marcaram-me duma maneira especial: os animais selvagens que tive a oportunidade de ver e as comunidades nativas que sobrevivem, com a sua identidade, até aos nossos dias. Não há qualquer semelhança entre observar os animais em liberdade e no Jardim Zoológico. Depois de poder comparar as duas situações, temos a sensação de que os animais do Jardim Zoológico têm vergonha do cativeiro em que se encontram... Com as comunidades nativas, estranhamente, não tive essa sensação: mostram-nos sem pejo as suas casas, os seus trabalhos, a sua actual maneira de viver.
O povo Ndebele, cuja história se perde nas brumas do tempo, vive actualmente perto da cidade de Pretória. As pinturas das casas deste povo guerreiro, os utensílios e adornos que as mulheres usam, com o seu significado religioso, místico, talvez até mágico, foram os elementos formais e plásticos que utilizei, na criação desta obra.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011


Olá amigos.

Inicio na 6ª feira um novo projecto direccionado para mulheres de todas as idades.

http://sementesdamor.blogspot.com/2011/01/circulos-femininos-ser-e-sentir-mulher.html

Para as amigas que estejam por perto, convido a participarem...
Para os outros amigos, peço que divulguem a actividade :)

No link a informação vem mais detalhada.

Obrigada!

Abraço grande.
Cléo

Estar no Sal

Museu das Bandeiras, GO
Fonte da foto: Wikipédia (Museubandeiras.jpgthumb)

No cotidiano das pessoas as expressões populares são usadas para dizer o que se deseja com poucas palavras, ou com idéias figuradas. As citações ou ditados muitas vezes são repetidos por anos a fio, ficando a origem perdida no limbo dos tempos.

No Centro-oeste do Brasil, é comum se dizer: “Ele está no sal”, quando alguém está numa situação difícil, sem solução. A história dessa expressão remonta ao Brasil Colonial.

Quando Bartolomeu Bueno da Silva Filho descobriu ouro em Goiás, às margens do Rio Vermelho, fundou ali, em 1727, o arraial de Santana. A descoberta atraiu tanta gente que em pouco mais de dez anos o arraial virou vila . Metade da população era de escravos comprados para a batear o cascalho dos rios e para os serviços gerais.

A produção de ouro crescente e a sonegação evidente fizeram com que a Coroa edificasse na então Vila Boa de Goiás, uma Casa de Fundição (1751) para controlar e legalizar o ouro apurado, e um edifício de dois pavimentos (1761-1766) para funcionar como Câmara e Judiciário no piso superior e Cadeia no inferior. A obra, projetada pela Coroa portuguesa e levantada sobre uma antiga cadeia construída pelo fundador do arraial, foi tão bem feita que até 1950, ano em que foi desativada para dar lugar ao que é hoje o Museu das Bandeiras, nunca teve relatado caso de fuga.

Numa das celas (a enxovia) ficavam os presos que aguardavam julgamento. Era um espaço onde cabiam uns quarenta detentos. O piso era calçado com grandes pedras brutas, extraídas do rio. As paredes de 80 cm de espessura, de taipa de pilão, socada com pedras, eram revestidas de grossas ripas de aroeira, madeira dura e resistente. Na cela dos condenados a parede chegava a um metro e meio de espessura. As janelas eram vedadas por grossas grades de ferro, por onde os prisioneiros recebiam a comida, sempre à vista dos guardas. Na ala dos condenados as grades eram duplas. Não havia porta. O acesso à cela se fazia por um alçapão que ficava no piso superior. Os presos desciam por uma grande escada que ficava presa no alto do teto da cela, por uma forte corrente. O mobiliário se resumia em colchões de palha e um barril onde depositavam os dejetos. Esvaziá-lo era tarefa disputada pelos prisioneiro, pois era também a oportunidade de sair daquele ambiente infecto e, no trajeto para o rio, onde se lavavam, respirar ar puro. Para desinfetar a cela , periodicamente, jogavam grandes quantidades de sal para suplicio dos detentos. A enxovia funcionava como castigo. A partir dessa época toda a vez que alguém ia para a cadeia, mesmo que fosse por pouco tempo, passou-se a dizer “Ele está no Sal”. Com o passar dos séculos a história foi esquecida, mas a citação ficou para sempre na memória oral do povo.

Aqueles prisioneiros que tinham delitos leves eram soltos após o julgamento. Os de crimes de média gravidade eram transferidos para a cela dos condenados, onde cumpriam a pena. Aqueles que haviam cometido crimes graves e/ou hediondos eram enforcados em praça publica (Campo da Forca). Em meados do século XIX, após a morte de um inocente, D. Pedro II aboliu a pena de morte no Brasil.

Maria Eduarda Fagundes
Uberaba, 17 de janeiro de 2011-01-17
(In, dialogos_lusofonos@yahoogrupos.com.br )

Fonte dos dados:
Wikipédia
Visita "in loco"
Livro: Museu das Bandeiras - A História Viva ( Hamilton brito Moraes)

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

FACES

MALTA

O arquipélago que constitui a república de Malta é um conjunto de três pequenas ilhas e uma mão cheia de ilhéus. No primeiro caso, a ínsula homónima e, por ordem de grandeza, Gozo e Comino; no segundo, aquilo a que os naturais chamam de St Paul Islands e uma outra que parece ter-se separado de Comino, além de algumas formigas em redor da maior parcela.
Predomina a palidez das formações calcárias salpicando um acastanhado solo de um longo período seco estival, contudo, em quase todos os vales que se estendem entre as pequenas colinas secundárias que fazem estes pedaços de terra emersa, onde os moinhos de vento permitem esventrar o subsolo, a água faz o milagre do verde, umas vezes com tamareiras, outras, porque alguém deste planeta já pisou a Lua, com os plásticos e as armações de estufas próprias a um país em pleno desenvolvimento.
Terá sido alhures um território arborizado? A esparsa vegetação mediterrânica que, hoje em dia, se observa, não autorizará uma afirmativa peremptória, ainda que, a um outro nível, seja visível que a hominização das paisagens tem delapidado alguns depósitos rochosos, ao ponto de deixar profundas rochas rectangulares, tanto em Malta como em Gozo que, uma vez abandonadas, curiosamente, foram adaptadas à produção agrícola.
As estradas que atravessam e cruzam estes terrenos sofrem breves ondulações e apenas a costa do lado da Golden Bay é escarpada, na restante, aqui e ali, dedeada por reentrâncias com poucos e pequenos areais, o manto argiloso entra pela espuma das ondas, como se se tivesse solidificado pelo efeito de uma mãe de rendeira.

Malta é uma pequena ilha, castanha e sequiosa –para os estrangeiros, uma terra de fantasia.
Quando os autocarros rolam pelas estradas e nós, pensando em velhos piratas, vemos o mar azul todo poderoso, então compreendemos a razão de ser dos santos cristãos pintados em pequenos altares encravados acima do espelho retrovisor e entendemos a devoção de um povo que, tal como o ar que respiramos, nos rodeia por onde quer que andemos.
De certeza que os malteses vivem sem as idolatrias de qualquer fundamentalismo, mas sente-se que são crentes, pois, de outra forma, que significado poderíamos atribuir ao colorido das procissões, com as imagens dos santos ondulando sob o efeito da brisa e o acompanhamento de bandas de música? As bandeiras flutuando, amarelas vermelhas e laranjas, empatando o trânsito e fazendo com que a nossa deslocação demore mais que o habitual.
Aparentemente existem diversos tipos de malteses. As mulheres têm cabelos pretos e olhos escuros, ou são louras, não tanto como as britânicas mas mais como as berberes. Os homens são similares aos variados rostos mediterrânicos, quer da parte norte quer da sua margem sul; alguns têm o aspecto da presença colonial britânica e muitos deles –talvez a maioria?- resultam de uma antiga mistura que esta ilha, desde a mais remota noite dos tempos, provavelmente anteriores à sedentarização, tem possibilitado entre os dois lados deste mar que é lago, tal como o Infante D. Henrique, de Portugal, viu que era.

Não há miséria visível em Malta.
À vista desarmada, sem um grande nível de consumo, as necessidades básicas estão resolvidas, pelo menos, naquilo que poderemos descrever como o mínimo necessário.
Alguém me referiu uma estatística que, a ser verdadeira, é claro, só poderei apelidar como desconcertante; perto de noventa por cento da população tem residência própria e à volta de metade dos habitantes possuem uma segunda casa.
Há falta de mão de obra em alguns sectores e muitos são os casos em que o tempo disponível possibilita um outro emprego.
A ausência de grande ostentação de modo algum está em contradição com padrões de conforto acima da pobreza.
“-Poor’s, only the foreigners.” –Afirmou-me uma narradora.
Estamos longe de um país rico, mas não será pelos malteses que virá mal ao mundo.

Paola, doce Paola para quem saborear os algodões salpicantes do azul mediterrânico do teu vestido de noite

a menos que não se afoite
e se não queira perder nestas ruas de cidades brancas.

Sliema dorme, sob uma Lua esplendorosa, embalada pelo dedilhar da espuma nas rochas da beira-mar

e eu vou para os braços da minha loucura que termina no júbilo da osmose dos corpos encantados.

Sliema, Agosto de 1993

Do vazio de não te ter comigo

Abraço-me os abraços que não dei,
guardando em mim o silêncio de amores contidos.
Pelo meio sobra um imenso espaço vazio….
Vazio da saudade, vazio do querer… vazio do desejo…

Observo a falta daqueles que não tenho.
Tenho e não tenho, pelo existir que sou por dentro.
Permaneço fiel ao caminho que sigo,
sendo eu vida e morte em cada momento.

Ao longe soam sinos em torres de igrejas,
Lembrando a terra, o pó, a pedra que guardo comigo.
Abraços dados e aqueles que faltaram
… abraços…

Abraços que me dou na ausência dos abraços que preciso.
Abraços que me dou, no vazio de não te ter aqui comigo.


Cléo.
16/1/2011

sábado, 15 de janeiro de 2011

DE TRÁS DO TEMPO. ISTMOS

Fios de azeite ateados desbravam interiores obscuros de casas pobres de povo vestido de escuro.
A labareda da lareira reforça o esforço de claridade perante o breu.

Como istmos,
os favos e a colmeia.

Madrugada, aurora, manhã, tarde, crepúsculo, noite.
Noite?
De novo a madrugada.
Uma nova e plena madrugada.


MJ

15.01.11

Filosofia e Saudade

14. José Marinho (1904-1975)-Teoria do Ser (1961)

. Um Absoluto que está para lá de toda a experiência da relação: não cria, nem é criado. Como a experiência de alguma coisa que é constante, vertical, sem princípio nem fim, sem nascimento nem morte. Uma visão universalista.

A Visão Unívoca - Os olhos com que se vê são os olhos com que se está cego. O Espírito ou a Visão Unívoca é de uma união e cisão simultânea - o uno que cinde e a cisão que une. A ambiguidade da Visão Unívoca como intrínseca à própria existência.


15. Eudoro de Sousa (1911-1987), Origem da Poesia e da Filosofia

. Os primeiros homens, os primitivos, caracterizavam-se por uma indistinção entre 3 planos: Divindade, Humanidade, Animalidade. Há uma expriência religiosa primordial em que não há nomeação. Os primeiros rituais não têm relação com o intelecto, mas sim com o corpo. A experiência primordial é dançante.

O Homem que procura mediações é um homem que está no plano do profano, que está ainda separado e que se quer religar. Valoriza-se essa maneira de ser do homem primitivo.

Luis Santos

Referência Bibliográfica:
-Síntese de Apontamentos, Aulas de Filosofia em Portugal, Prof. Paulo Borges, 2009

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

d´Arte – Conversas na Galeria XX


Mercado Jemaã El Fna Autor António Tapadinhas
Tinta da China sobre papel 20x25cm

Sempre que visito um país, tiro apontamentos sobre os aspectos que mais me impressionam. Na minha terceira visita a Marrocos, fui finalmente a Marraquexe, a porta do deserto, e à praça que é o centro do mundo.

Em Roma, sê romano!
Parecia estar a atender o chamamento do muezim para a oração da noite: nesse momento estava a fechar a porta do quarto, onde deixara as malas, ansioso por sair dos portões do Club Med, que me isolava do mundo fervilhante de Marraquexe apenas entrevisto na pequena viagem de autocarro.
Antes de chegar à rua, já a cidade nos impõe o seu sortilégio: o barulho denso dos automóveis e motorizadas, e o bater ritmado dos cascos dos cavalos no asfalto martelam-nos os ouvidos; os cheiros dos gases de óleo e gasolina queimados, misturados com o odor mais consistente dos animais invadem-nos as narinas.
Na rua, a visão é do caos com uma só ordem: a desordem. Na avenida, larga como um campo de futebol sem marcações, circulam carruagens puxadas por parelhas de cavalos, carroças puxadas por burros, táxis, autocarros, motorizadas, bicicletas, todos a tentar fazer a ultrapassagem do vizinho da frente. Nesta competição, nem sempre ganha o mais forte: o automóvel mais moderno, arrisca-se a todo o momento a ser ultrapassado por um burro esperto, que consegue passar a carroça entre o intervalo dos carros. Nos poucos sinais que existem, quando cai o vermelho, os que estão na frente param - é esse o seu mal. Os que vêm atrás aproveitam e vão-se colocando sucessivamente à frente do que já parou. Os que estão junto ao sinal vêem aparecer o verde e reagem primeiro: ganham assim uns lugares na partida, ficando a corrida relançada, com hipóteses de vitória para todos.
Depois de andar algumas dezenas de metros, a confusão parece aumentar. Nós, peões, já não temos passeios e os motoristas parecem ter enlouquecido: não há rua, nem sentido de trânsito. Estamos na praça Jemaã El Fna, com superfície semelhante ao Terreiro do Paço, onde desaguam Tejos de ruas estreitas, de carros e pessoas.
Num dos lados, há uma muralha de tendas de comida, autêntica paleta de cores quentes: açafrão, caril, malaguetas, pimentos. Mais para o centro, a multidão ornamenta a praça em canteiros circulares de homens, que apreciam o trabalho dos ginastas em jogos de forças combinadas; alguns ouvem grupos musicais que tocam música tradicional, constituidos por um violino e dois ou três tambores; outros preferem rir-se das habilidades dos macacos amestrados a imitar pessoas; outros escutam, atentamente, alguém que diz não sei o quê, com grande convicção e energia; outros, ainda, gostam do terror atávico causado pelas serpentes que parecem dançar ao som do pífaro do seu encantador. Por entre os grupos andam homens de fatos encarnados e verdes, com pratos de metal amarelo, grandes chapéus na cabeça, a tocar em pequenos tambores, que oferecem a sua beleza para figurar numa fotografia, a troco de algumas moedas. Outros arranjaram uma estratégia mais simples para ganhar dinheiro: tocam um tamborzito, fazem uma careta e, se nem sempre provocam um sorriso, quase sempre arrancam uma moeda.
Metade da praça é disputada, a palmo, por peões, que tentam passar na terra de ninguém que a qualquer momento pode ser atravessada por um veículo vindo de qualquer ponto cardeal.
Estranhamente, não se ouve buzinar os automóveis: talvez o barulho dos motores, o bruá da multidão, os guinchos dos animais, o toque dos tambores, o silvar das serpentes, não o deixem ouvir, ou, com maior probalidade, o nosso cérebro se recuse a registar esse som, por mais habitual, dando prioridade a tudo o que é novo: cheiros, línguas, cores, gente, animais.
É difícil (impossível, direi), ser apenas espectador: logo que olhamos para alguma coisa, o vendedor atento, pergunta-nos a nacionalidade, e oferece o objecto, por um determinado preço. Ser português, neste caso, é uma vantagem, porque acham que nós somos pobres como eles. Conversamos, discutimos, num linguajar franco-anglo-luso-espanhol; quase nos insultamos, porque é assim nas grandes famílias. Depois de consumado o negócio, é assinado o tratado de paz. Por mim, apetece-me sempre abraçar o meu novo amigo, que teve a gentileza de vender um objecto por um preço tão acessível.
Ainda estava a fazer as contas com a minha esferográfica e já ele me estava a propor a sua troca por um espelhinho, com um aro de metal…
E tem sido assim todos os dias… mesmo no dia 11 de Setembro de 2001, nesta terra, não muito longe daquela que viu nascer três grandes religiões.
Nos escombros e trevas que a televisão teima em mostrar, há uma luz que ilumina e elimina o nosso terror: do outro lado, afinal, estão homens como nós.
Eu, agora, vou para o meu quarto e juro que vou pensar numa estratégia, para comprar pelo melhor preço um casaco de cabedal que vi numa loja.
Guerra, qual guerra?

Poema

Lucas Rosa


terça-feira, 11 de janeiro de 2011

FACES

por



Luís F. de A. Gomes



Para a

Júlia Maria Martins Nunes e a

Ghezine Almuth Weller



"De maneira que a vida certa (...) seria que cada um pudesse viver a sua vida e cada um dos outros pudesse ter esse espectáculo extraordinário de ver pessoas diferentes à sua volta (...)."



Agostinho da Silva



In "Namorando O Amanhã"



TRIVIALIDADES






UMA ESTADIA ATRIBULADA


Marcámos um quarto num hotel em Meknes por três ou quatro noites. Queremos descansar um pouco.
O recepcionista foi lento e hesitante. Todos os aposentos estavam reservados, lamentou-se, mas era praticamente impossível a nossa permanência, começou por dizer e só perante a insistência ele logrou um sinal e desapareceu por uma porta nas suas costas.
Entrou em cena a empregada encarregue das marcações, jovem anafada e decorada em sorrisos, de óculos e com roupagem ocidental.
Foi simpática e prestável. Rasando o milagre, encontrou uma solução provisória. Deu-nos uma chave tão só para essa noite, mas deixou em aberto a hipótese de mudarmos para outra acomodação na manhã seguinte, pelo que, então, eu deveria indagar sobre a necessidade de fazermos ou não a troca.
Preço razoável, aceitámos. Com interesse, na cidade, há um museu e o túmulo do mullay Ismail.
Após o banho vital da manhã, ainda em jejum, dirigi-me à funcionária da véspera. Teria de fazer rodar as malas e erguer os sacos?
-Oh! Je suis désolé, monsieur, mais vous na pas de chambre. Votre chambre était déjà réservé et nous n’avons pas quelque outre.
-Comment? Mais hier vous m’avez dit que nous avons une chambre. Seulement était prévu une changement si le notre était occupé pour outres personnes, les premières a faire la marcation. Ces ce que vous m’avez dit, ces tout ce que je veux, je ne veux plus rien.
-Oh monsieur, mais nous sommes…
-Ça ne m’intéresse pas madame. Hier vous m’avez dit que aujourd’hui j’avérai une chambre pour moi et ma femme. Je ne veux plus rien et je ne peux pas resté la bas. –E apontei a porta de saída.
-Je suis désolé monsieur…
-Et je veux ce que vous m’avez dit hier. Vous m’avez dit qu’il a une chambre pour moi et ma femme. Ces tout ce que je veux.
Dormi essa e outras duas noites em Meknes, também ela uma cidade branca, espalhada entre os montes do médio Atlas.
Marrakesh, Agosto de 1991


domingo, 9 de janeiro de 2011

Filosofia e Saudade

13. Fernando Pessoa (1888-1935)

A Filosofia é a arte de imaginar universos falsos.

No plano do pensamento estamos sempre entre uma tese e uma antítese, uma tomada de opinião e o seu contrário, posição e oposição. Embora haja sempre uma tentativa de transgressão, de solução, desta antinomia.

Pessoa coloca-se muito num plano de descartamento, de desilusão, do que foi construído - todas as opiniões são igualmente justificáveis e não justificáveis. Tal como em Agostinho da Silva há lugar para um pensamento paradoxal.

Existem forças afirmativas e negativas como constitutivas do mundo. Há uma tensão ontológica entre estas 2 forças que constitui tudo.

Criação é igual a ficção, a ilusão. Ser é simultaneamente ilusão e falsidade. A ideia construída de Deus está igualmente num nível de ilusão. Mas há uma consciência que escapa a toda esta forma de ilusão. Uma consciência que se cria pela desconstrução de todos os imaginários falsos.

A negação está acima da afirmação, porque nega a ilusão. A forma suprema de negação é o não-ser que, todavia, não é pensável. Não-ser é o que transcende o Único. Não-ser é o que precede o Ser.

Portanto, o não-ser é superior ao ser, mas simultaneamente deve-se ser tudo, de todas as maneiras, já que se é nada. A matéria é a mais fraca das mentiras, por ser o que está mais próximo do ilimitado, do imanifestado.

Haver ser é o mistério ontológico que encerra todos os mistérios, coisas, morte, deuses. “Este mistério, este terrível haver ser…”.

Luis Santos

Referência Bibliográfica:
-Síntese de Apontamentos, Aulas de Filosofia em Portugal, Prof. Paulo Borges, 2009
-Rafael Baldaia, Tratado da Negação (1916?), In Fernando Pessoa, Textos Filosóficos, Ed. Nova Ática.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Livre União:

Por uma certeza inesperada

De há mais de dois mil anos

Dei comigo de madrugada

já fora de todos os planos



Infinito (dizia eu) pra onde vou

Desponta dentro de mim

Tudo aquilo que houver sendo - o sou

Porque assim sendo não há fim



Eu próprio cultivando tudo aquilo que pensava

Dava-me ao tempo de intervalos de longa duração

para dar bons passeios por onde tudo passava

de nada tudo e do resto... em livre União


eduardo espírito santo

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

“Sombreadas Faces De Nãos E Sins”


Fechado e aberto estou simulado…


Sacei-o-me imaginando…

Sabôres derretem-se-me na boca inerte…


Observo só…

Estou solitário…

Tenho alguém escondido na orla…


Vivo de olhar…

Inspiro-me de têr e de ar…

Enlevo-me de tão rarefeita sagacidade…

Anulo-me perante a natureza atómica…


O momento é todo seu e de outros…

Eu talvez…

O sonho tambem…

A janela fica aberta para o Mundo…

Já da paisagem nada direi!...


O segredo sabê-lo-ei reter…

Viverá apertado na garganta…

Seja como espinha…

Ou seja como osso entalado…

Porque dele só sentirei a comichão…

Que guardarei como tesouro autêntico…


Estou quase absolêto…

Vou absorto…

A lugar que não sei…

Vamos indo a dois juntos…

Mãos e almas agarradas…

Vem nelas uma esperanca inegável…

Há fogo de artificio e explosÃo nas expressões…


As faces dançam mascaradas noite adentro…

Tudo entra e tudo sai…

Vulcões feitos pessoas rugem…

Os passos são trocados e confusos…

Ouve-se a surdina do despique físico…

As montanhas roçam umas nas outras e nos vales…

Paisagens vão e vêm de lá para cá…

E algo novo renasce num sim de mim…

Sente-se o rosnar da selva nos cérebros de ambos…


Escrito em Luanda, Angola, a 6 de Janeiro de 2011, por manuel duarte de sousa, inspirados nas palavras da Poetisa Angolana Amélia da Lomba e nas Pinturas Fantásticas de um dos maiores Mestres da Pintura Africana, o Pintor e Poeta Malangatana, de Moçambique e Cidadão do Mundo…, a quem se Homenagia aqui e cuja morte recentíssima, nos deixa a todos consternados e desalentados…

Estamos Juntos na voz de todos os Lusófonos de Bem e de Boa Intenção e solidários com a Família enlutada…

Ao DEUS MAIOR de todos nós, que o receba de ALMA aberta, de volta, ao/em seu Universal Cósmico Sagrado Seio…

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

d´Arte – Conversas na Galeria XIX


Malangatana
Quando estava a preparar a minha exposição “d´arte”, tive notícia da morte de Malangatana. Não podia ficar indiferente. Admiro o pintor, tive o privilégio de o conhecer e ficar seu admirador e amigo.
Tenho para mim que a melhor maneira, talvez a única, de homenagear um artista é apreciar a sua obra. Por isso, aconselho vivamente quem me lê, a ver ou rever, algumas das suas pinturas ou esculturas. Malangatana era, é, um dos mais prestigiados pintores mundiais da actualidade, que com a sua morte deixou mais pobre o mundo lusófono. Na Casa da Cerca, em Almada, está patente uma exposição de obras do artista.
Muito novo, foi preso pela PIDE, juntamente com outros “perigosos” elementos, como, por exemplo, José Craveirinha, por pertencerem à “organização terrorista FRELIMO”. Saliento este facto da sua vida porque dentro da grandeza do seu coração não cabia o ressentimento e muito menos o ódio. Era Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, foi galardoado pela Unesco, pela Holanda, na confirmação do seu princípio que a cultura não tem fronteiras e deve ser encarada com dignidade por todas as raças.
Como ele dizia, a cultura é mulata.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Noites Mestiças


As Noites Mestiças já fazem parte da agenda dos amantes da boa música mestiça feita em português. A edição de 2011 vai decorrer mensalmente no Musicbox e começa já no dia 7 de Janeiro, 23h. A banda de Reggae Urbanvibsz e a Soundsytem Mwamba Lost vão abrir estas noites. A aposta continua numa nova geração lusófona que mistura músicas do mundo de uma forma fresca e única.

As Noites Mestiças nasceram em 2007 e estrearam-se no Cabaret Maxime durante várias noites. Em 2008 aconteceu durante o segundo semestre do ano no Instituto Franco Português e em 2009 teve lugar na Arruda dos Vinhos no espaço DI-Box.

Participaram ao longo das edições artistas como Guto Pires, André Cabaço, Lindu Mona, Teresa Gabriel e Yohanes Krieger, Melo D, Bob da Rage Sense, Mundo Complexo, Canela, NBC & The Funks, Tonecas, Pedro Moreno, Mingo Rangel, entre outros.

Chegou a vez do Cais do Sodré respirar os ritmos, costumes, cores, sons e os sabores naturais desta Lisboa mestiça!

Início do Espectáculo - 23H
Bilhete: 8€ (com oferta de 2 euros de bebida)
www.zoomusica.net

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Interligação de Universos (11)

………………………………. fala- me sobre a palavra e multidimensionalidade.

- Na dimensão em que vos encontrais a comunicação faz-se de acordo com a capacidade do vosso cérebro, que está preparado para receber, analisar e armazenar informação, apenas e só dentro do limite dessa mesma dimensão. Ignorando e não estando preparados para sair do casulo em que estais encerrados quaisquer projecção multidimensional será coarctada, limitada e catalogada dentro das possibilidades das vossas capacidades. Terá a lagarta que morrer para surgir a borboleta? Podem ambas coexistir? Quaisquer projecções de outras dimensões não poderão ser objecto escrito ou falado, pois o receptor, neste caso o vosso cérebro irá converter, desvirtuando e adaptando, confinando-as dentro do vosso casulo. Assim a lagarta jamais poderá falar do voo da borboleta, mas também esta terá dificuldade em transmitir por não ter receptor compatível. Assim, a palavra está limitada, pois o estádio de borboleta que se libertou do casulo, só é entendido vivenciando-o, não podendo ser convertido em palavras. Um dia, a lagarta cansada de rastejar vai querer voar e aí saberá que só o fará fora do seu casulo, abdicando do que a prende a esse nível, o querer, o possuir, o ter. Iniciará então um processo de abandono total, activo, de entrega ao Novo, àquilo que não sabe o que é, mas que a levará à multidimensionalidade, à Ascensão. Vai morrer para si própria, entrando gradualmente no estado de apenas Ser. Serão então a lagarta e a borboleta projecções multidimensionais do mesmo ser nos primeiros estádios evolutivos? Seremos todos nós projecções fragmentadas do nosso EU multidimensional? As respostas encontram-se no interior de cada Ser.

António Alfacinha

domingo, 2 de janeiro de 2011

Sobre os Judeus Portugueses

Muitos dos Judeus Portugueses de Amesterdão, antigos cristãos-novos, eram filhos e netos de cristãos-velhos, fruto dos inúmeros e bem documentados casamentos entre as duas comunidades, num esforço de assimilação conforme à legislação manuelina, particularmente pelas famílias nobres portuguesas que, atraídas por vultuosos dotes, emprestavam os seus pergaminhos aos antigos Filhos de Israel (era corrente dizer-se, sem exagero nenhum, que não havia nobre português que não tivesse sangue hebraico)

Hoje esta realidade – fruto da migração interna nos séculos XIX e XX – abarca seguramente o conjunto da população portuguesa, tornando os portugueses o mais hebraico dos povos europeus. De resto os estudos genéticos assim o comprovam.

(Adaptado do texto "Anusim(1) portugueses: O farol de Amesterdão" de Samuel Galazak no http://dasserpentes.blogspot.com/2009/12/anusim-portugueses-o-farol-de.html)

(1)ANUSIN é o termo hebraico usado para designar os marranos e significa “FORÇADOS”. Benei-anusim significa filhos ou descendentes daqueles forçados a se converter, ou marranos.
MARRANO, o termo pode ter suas raízes na palavra árabe “máhram”, que significa “coisa proibida”. Com essa palavra designam o cervo (porco), já que este animal era proibido tanto para os muçulmanos como para os judeus. Na Espanha, a palavra é usada para chamar o leitão, ou cervo (porco) jovem. Para mais denegrir os judeus, que forçados a se converter ao cristianismo ou à morte na fogueira como opção pela conversão, eles chamavam a estes conversos de novos-cristãos ou marranos.
Os marranos do Nordeste brasileiro tinham um significado completamente diferente na palavra. Encontram a raiz na junção de duas palavras hebraicas: MAR (amargo) + UNA (nós). Desta união surge a palavra MARANU que significa, em hebraico, Nossa Amargura.
Adaptado de http://www.blogdoatheneu.org/blog/?p=1141

Margarida Castro
(in, dialogos_lusofonos@yahoogrupos.com.br )

sábado, 1 de janeiro de 2011

Sugestão de visita à Torre dos Clérigos



Espero que todos estejam a ter umas Boas Festas na companhia das vossas famílias.
Aproveito a Quadra Natalícia para vos enviar um pequeno vídeo que fiz há dias sobre o “ex libris” da cidade do Porto: a Torre dos Clérigos.
É uma sugestão para quando tiverem oportunidade de visitar o Porto!

Um abraço e votos de boas entradas em 2011.

Manuel Jorge de Sousa
Porto, Portugal

(in, dialogos_lusofonos@yahoogrupos.com.br)

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Ribeirão Preto merece coisa melhor

Sem fazer muita força poderemos constatar a existência de estereótipos em nossa cidade:

- Boba alegre: ou “patricinha desmiolada”. Tem o hábito de falar ao celular enquanto dirige(?) e dá gostosas gargalhadas enquanto não enxerga o trânsito ao redor. Geralmente é loira de farmácia e anda em bandos. Outra variedade do grupo “Sem noção”.

- Botinudo: também conhecido por “agroboy”. Destaca-se pela pouca discreção de seus caminhaozinhos urbanos e pelo berreiro que deles emana, no maior volume possível: “O destino levou minha amada, por favor tenha pena de mim...”. Quase sempre é fruto de dinheiro novo.

- Bundão: mantém uns prudentes 50 m de distância do carro à frente, não importando as circunstâncias: “ouviu dizer” que assim é melhor. Sua mãe é lembrada sempre que se atreve a entrar em uma preferencial. Também acredita que fazer uma curva a mais de 20 km/h é capotamento na certa.

- Cachorro louco. Motoboys, mototaxistas e motoqueiros em geral (motociclista é outro papo). Indivíduos revoltados que desforram sua frustração nas portas e nos retrovisores alheios, quando não estão se matando em acidentes de trânsito absurdos. Em países civilizados sua existência somente seria aceita nas prisões.

- Cafageste: estaciona em vagas para deficientes físicos quando na realidade se comporta como um deficiente mental. Não é privilégio das classes abastadas nem de algum dos vários sexos conhecidos. É, de longe, o mais desprezível.

- Criminoso: o meliante que dirige embriagado ou o que “acha” que dá para passar por um sinal já vermelho. Merece açoitamento público. É a mais democrática manifestação do brazilian way of drive.

- Dono do mundo: trafega ocupando todas as faixas possíveis, e considera insulto pessoal qualquer tentativa de ultrapassagem.

- Foragido da escola: muito frequente, desconhece barreiras socias, de sexo ou outras. Desafia as leis da Fìsica ao frear no meio de uma curva ou ao se esquecer de fazê-lo em algum momento.

- Hello Kitty: praga urbana moderna. Começou com o baixo custo das motocicletas de pequena cilindrada. O capacete cor-de-rosa com um adesivo da Hello Kitty reflete o estado de amadurecimento emocional da criatura a pilotar. Pertence ao grupo “Sem noção”. Coisa de pobre.

- Jeca-tatu: motoristas que saem da pachorra de seus grotões para se sentirem inseguros no feérico tráfego de Ribeirão. Desastre certo.

- Madame deslumbrada: sub-espécie do grupo “Sem noção”, composto por profissionais do casamento que não se tocam de que não estão dirigindo no quintal de casa. Coisa de novo-rico.

- "Pois é": condutor de ruínas que largam pedaços de lataria pela rua, geralmente sem paciência com os outros, como se estes fossem responsáveis pelo miserê ostentado. Se apenas os veículos sem condições fossem retirados de circulação já seria um alívio. Se os motoristas idem também o fossem seria o paraíso, mas aí já é pedir muito.

- Rohypnol: leva uma eternidade para notar que o semáforo ficou verde ou que a fila andou. Deve ser moda por aqui.

- Sem noção: transcende gênero, classe social e idade. É aquela gente que aciona o pisca-pisca (quando muito) e faz uma manobra irracional, como estar na faixa mais à esquerda de uma rotatória e de repente resolver virar à direita (o argumento “mas eu dei seta” é de chorar). Também conhecido como mula-sem-cabeça. É o que mais se vê.

- Troglodita: acha que pode resolver toda e qualquer diferença no grito ou na porrada. Um caso exemplar do que a falta de sexo pode fazer com a cabeça de algumas pessoas.

- Velho de chapéu. Um clássico ora em extinção, para nosso relativo sossego.
Faltou o verbete “omisso”, mas ele diria respeito mais à Transerp e às autoridades ditas responsáveis do que aos lamentáveis condutores acima descritos.

Ficou alguém de fora? O espaço é seu, manifestem-se.

Paulo Arruda

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Manhã cedo da alma

Dedicado a
“por vezes a lareira”
de José Félix

Em Dezembro,”por vezes a lareira”

na manhã cedo

da alma inteira, o homem

no homem das emoções

profundas rente á parede

num desassossego de angustia



vago luar ainda nos sonhos

desta noite, entre a solidez

das cerejas destruíram a falta

de afecto como a tarde de

sol, batendo no outro sol do

desassossego do poema

no cuidado da limador que

comigo escreve sem metafísica

no interior da sombra dos teus

seios íntegros de Inverno

numa linguagem requintada de

tantos beijos, olho-te e

só vejo os seios da terra trabalhada

como o relógio do

descanso – vivo na realidade interior,

fascina-me a minha mão

a tua mão agora na rocha e na escarpa,

vamos subir

José Gil
http://joseamilcarcapinhagil.blogspot.com/

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Filosofia e Saudade

12. Leonardo Coimbra (1883-1936) - O Criacionismo

Fundador e Professor da 1ª Faculdade de Letras do Porto. Formado em Matemática e Filosofia. Grande sensibilidade literária e poética. Deputado. Duas vezes Ministro da Educação.

Elabora uma hermenêutica sobre todos os pensadores seus contemporâneos (Antero, Bruno, Pascoaes, Junqueiro), mas afasta-se de todos eles.

O Criacionismo:
A realidade é sempre pensamento. A actividade mental vai determinando a realidade. A realidade está sempre a ser determinada. O espírito determina-se a si próprio na medida em que vai determinando a realidade.

Até 1923, tenta unir o pensamento libertário com o Criacionismo. Depois, aproxima-se cada vez mais do Cristianismo, até aderir ao catolicismo pouco tempo antes de morrer em acidente de viação. Passagem de livre pensador a cristão ortodoxo.

Nele, o Homem é fundamentalmente um ser saudoso: uma saudade imanente e transcendente. Uma nostalgia da realidade, onde o Amor é a nota de Unidade com Deus. Quanto mais Amor mais consciência. A matéria não é senão o soro do espírito. Há vários níveis de amor e de consciência.

O homem vive com saudade do Paraíso (o Mito do Génesis). É saudoso de um estado em que a sua consciência ainda não se tinha precipitado para a exterioridade e materialidade. Uma saudade metafísica.

Luis Santos

Referência Bibliográfica: Síntese de Apontamentos, Aulas de Filosofia em Portugal, Prof. Paulo Borges, 2009

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

d´Arte – Conversas na Galeria XVIII


Flor de Amendoeira Autor António Tapadinhas
Óleo sobre Platex 15x15cm
(clique sobre a imagem)

Inverno
Com o trabalho tudo correu bem, o último quadro foram ramos floridos – tu verás, entre as minhas obras talvez a que fiz com mais paciência e melhor, pintada com calma e uma maior segurança das pinceladas.
Estas palavras foram escritas por Van Gogh, numa carta ao seu irmão, depois de concluir um quadro, para oferecer ao seu sobrinho e afilhado, Vincent.
A obra, com o título, “Amendoeira em Flor”, óleo sobre tela, 73x92cm, está em Amesterdão, no Rijksmuseum Vincent Van Gogh. Todos os críticos, nos seus comentários, consideram este céu, o mais intenso, o mais brilhante, que o artista alguma vez pintou. Tinha a intenção de colocar aqui o quadro, mas fiquei completamente baralhado: se se derem ao trabalho, verificarão, nas centenas de reproduções que há no Google, as diferenças gritantes que existem entre cada uma delas.
Brevemente, estarei no local para saber qual é, afinal, o verdadeiro azul do mestre (quando escrevi o texto ainda não tinha visitado o museu). Por agora, mais do que a queda de neve ou os gélidos ventos, imaginem as andorinhas pairando no ar, com o inconfundível aroma das amendoeiras em flor, anunciando a chegada da Primavera…
Pode escutar o concerto para violino e orquestra, “As Quatro Estações – Inverno”, em que, logo no início, os acordes dissonantes da orquestra lembram os gélidos ventos e a queda de neve, com o violino em escalas descendentes e harpejos, imitando o canto dos pássaros ávidos do calor do sol - como nós!

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Passeio dos Namorados*





* Passeio dos Namorados,
no balneário de Jurerê Internacional, em Florianópolis (Ilha de Santa Catarina).
Dezembro de 2010.
Com um abraço muito fraterno!

Hidemberg

domingo, 26 de dezembro de 2010

Dois Natais, duas Festas dos Loucos

Paulo Borges

Máscaras

Há dois Natais. Um que tem uma face pagã e outra cristã. Em termos cristãos, nele se celebra o nascimento de Cristo na terra ou, segundo os místicos, na linha de Eckhart, o nascimento do divino na consciência (como escreveu Angelus Silesius: “Que me importa que Cristo haja nascido ontem em Belém, / Se não nasce hoje na minha alma?”). Em termos pagãos, a celebração que foi cristianizada é a do solstício de Inverno, ou seja, o renascimento simbólico do Sol Invictus após a sua simbólica morte: ou seja, o renascimento do próprio mundo, quando a energia vital que há nos seres e nas coisas, após declinar e se recolher, inicia um novo ciclo de expansão. O Deus cristão foi depois visto como um Deus crucificado, apontando um caminho de ascese e renúncia ao mundo, em prol de uma salvação sobrenatural, acessível apenas aos homens, destinados a uma eternidade separada dos animais que lhes serviram de companhia, alimento, matéria-prima e força de trabalho. Todavia, como se assinala na inspiração franciscana do Presépio, Cristo veio ao mundo numa gruta, figura das profundezas da Natureza, primeiro que tudo aquecido e protegido pelos animais, uma vaca e um burro: poderoso símbolo de uma fraternidade divino-humano-cósmica, ainda por cumprir, como igualmente se expressa no “Jardim das Delícias”, de Bosch, ou nos quadros de Chagall, entre outros.

Este Natal, pagão ou cristão, implica sempre um (re)nascimento iniciático, uma metamorfose da consciência e das energias profundas do ser, um mundo ao arrepio das convenções, rotinas e usos comuns, em que a libertadora experiência do sagrado consiste em rir daquilo a que se está apegado como mais sagrado (o “sagrado de transgressão”, de que fala Roger Caillois). Não é por acaso que, ainda na Idade Média cristã, o Natal coexistia, no período da libertas decembrica, com as Festas dos Loucos, celebradas de meados de Dezembro até à Epifania, em 6 de Janeiro, com comida, bebida e danças dentro das igrejas e em cima dos altares, missas paródicas com burros a zurrar, homens vestidos de mulheres e mulheres vestidas de homens, crianças entronizadas como Imperadores dos Inocentes, a quem os adultos e a hierarquia eclesiástica tinham de obedecer, etc. Progressivamente proibidas nas igrejas, acabaram por originar o Carnaval moderno, tendo sido a forma medieval e cristã do mundo às avessas que é ritualizado em muitas tradições e culturas como forma de recordar e vivenciar o regresso cíclico do cosmos ao Caos primordial ou ao Tempo das Origens onde tudo é puro, sagrado e possível e a liberdade, a metamorfose, o jogo e a festa predominam sobre a rígida delimitação do sagrado e do profano, do divino, do animal e do humano e dos papéis psicológicos, sociais e cósmicos, com a vida orientada para o trabalho e a produção. Correspondendo ao solstício de Inverno, as Festas dos Loucos herdam a memória de mais antigas festividades pagãs, de sentido carnavalesco, como as Saturnais, onde se celebrava o regresso à abundância e inocência da Idade do Ouro, com a troca de presentes e o travestimento de homens e mulheres. Festividades ainda bem presentes no Nordeste transmontano, de cuja inversão da ordem estabelecida se acredita depender a renovação das energias humanas e cósmicas, a fertilidade das mulheres, dos animais e dos campos. Como ainda hoje se diz em certas aldeias de Trás-os-Montes, por ocasião das tropelias e mascaradas praticadas nas Festas dos Rapazes e outras: “É Natal, ninguém leva a mal!”. Um Carnatal, como pude presenciar…

Estas festas, tradicionais e iniciáticas, podemos entendê-las, para além da óbvia catarse das pulsões reprimidas, como convites à transmutação da consciência que assume e liberta a sua iluminada ou divina natureza primordial, anterior a qualquer estado, condição ou limite, anterior a qualquer máscara, ego e personalidade e sua projecção de um mundo ilusoriamente considerado como exterior, real e objectivo. O Louco simboliza bem, como na carta do Tarot, essa natureza primordial da mente, não egocentrada, sem centro nem periferia, tão livre e infinita como o espaço, tal um zero metafísico e pré-existencial que, por não ser nada, pode a cada instante imaginar-se e tornar-se tudo, como assume Bernardo Soares no “Livro do Desassossego”. Aquilo que todos somos: Todo o Mundo-Ninguém.

O Louco ou a Criança. Porque a Festa dos Loucos é a festa da coroação das crianças como detentoras da suprema autoridade, com a inversão das funções e relações habituais entre as classes etárias e sociais. A exemplo do ensinamento de Lao Tsé, Cristo e Agostinho da Silva. Tal como acontecia e acontece na Festa do Espírito Santo, sua directa herdeira no Ocidente, fundada pela rainha Santa Isabel e levada para os Açores, Brasil e América. Preservada ainda hoje no Penedo, perto de Sintra, com a mácula da tourada à corda. A Festa onde Agostinho da Silva viu a simbólica antecipação do futuro que todos desejamos: a libertação de todas as prisões, a igualitária partilha da abundância, a coroação e a sacralização da infância, ou seja, da inocência, da liberdade e da imaginação criadora.

Este é o espírito e o simbolismo profundo do Natal, do Presépio, da Árvore de Natal, imagem do axis mundi que liga Céu e Terra e passa em cada uma das nossas colunas vertebrais. O simbolismo da troca de prendas, da festa da infância e da abundância, da comunhão na alegria, na solidariedade e na despreocupação.

O outro Natal é o que hoje temos à nossa volta, a deturpação deste e do seu espírito num ciclo de civilização em que o crescente vazio interior de mentes sem imaginação, amor e sabedoria se busca ilusoriamente compensar por um produtivismo e consumismo galopantes e ávidos, que alimentam uma economia regida por especuladores e agiotas, financiam guerras, trucidam milhões de seres vivos e envenenam e enchem de lixo o planeta para uma Consoada e um dia de Natal de embrutecimento e esquecimento da vida triste e opressiva levada em quase todos os restantes dias do ano. No fundo, e ainda, uma grande Festa de Loucos, mas não de Loucos sábios e livres, antes de Loucos patológicos que buscam libertar-se com aquilo que mais os escraviza, ofusca e aliena.

Importa contudo ir além do moralismo estreito e estéril e ver, através dum Natal e duma Festa de Loucos, o outro Natal e a outra Festa de Loucos cuja saudade no fundo move a avidez e a alienação do Holocausto produtivista-consumista do nosso tempo. E, serenamente, transitar de um para o outro, sendo feliz e tornando-se contagioso. Ou seja, transitar das prisões do ego para a Grande Festa do Livre Espírito, na infinita comunidade de todos os seres vivos, da Vida e da Natureza.

FELIZ NATAL! LIBERTADORA FESTA DOS LOUCOS!

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

O que pensar do Natal?

Fernanda Leite Bião(1)

O que pensar do Natal? Uma época de tanto movimento social, abre e fecha de presentes. Papai Noel passeando por aí, em suas carruagens, em ambientes sofisticados. Sonhos e fantasias nos olhares dos pequeninos, que tanto esperam um momento mágico e, por que não dizer?, de nós, também, eternos velejadores, entre oceanos de sonhos, desejos e fantasias.
Acredito que toda criação humana tenha a sua importância, mas amo pensar na raiz, no radical, no principio em que tudo começou. Assim...
Era uma vez uma história de Natal...
Menino nascendo, reis magos, animais acalentadores, uma mulher e um homem a caminho de sua cidade natal, para o recenseamento. Estrela que brilha lá longe! Longe e perto de nós. A luz que se procura. Esclarecimento, conhecimento, paz, amor. A estrela brilha, é a figura que se destaca, a escuridão agora só é o fundo de uma pintura bonita que retrata uma história.
Jesus nasce!
Nasce e se desenvolve em meio a homens e mulheres, carneiros e ovelhas, escolhidos e malditos. Nasce, cresce e se desenvolve, abrindo novas paragens, construindo novos olhares, educando pelas parábolas e trazendo às pessoas a esperança e a possibilidade da desenvoltura de sua autonomia, para se lançarem a uma vida diferente e melhor. Cegos que são cegos e cegos não cegos voltam a enxergar. Ouvidos ouvem pela primeira vez a palavra e as pernas começam a se movimentar. Vejo o toque da liberdade da humanidade a se humanizar.
Jesus nasce!
Em várias crenças, em várias casas, em várias mesas, nos olhares e nos cânticos de adoração.
Entretanto, o meu desejo hoje é que Ele nasça em seu coração! Muita paz!

(1)Psicóloga e Orientadora Profissional. Bacharela em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas).
E-mail: fernandabiao9@hotmail.com

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

d´Arte – Conversas na Galeria XVII


Favela 0512 Díptico Autor António Tapadinhas
Acrílico sobre 2 telas de 60x40cm
(clique sobre a imagem)

O meu amigo, Luís Santos, escreveu:

Morro acima cruzes, muitas cruzes. Feitas de pau. Como aquelas que se vêem em muitos cemitérios. No tombo dos mais frágeis o sonoro revela o ruído compassado de uma intermitente arma de guerra, como se de um sapateado se tratasse.
No meio do morro nasceu uma flor. E nasceu uma criança que se apaixona pela flor. É um pé de laranja lima.
Porque será que o morro está mais amarelado de um lado? Pela luz do sol, pela rotação do planeta. A indestrutível lei da natureza. Não fossem as sombras.

Respondi-lhe:

No alto do morro, nas favelas
nascem pés de laranja lima,
não nascem facas ou fuzis!
O sol que brilha nas janelas
aquece as sombras e a dor,
num bairro alegre ou tristonho.
Com ele fica a esperança
de quem nunca desanima
e acredita no sonho!

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Conjecturo

Meu pensamento não dorme
De tão leve que existe em mim
Como uma nuance informe
Que não tem causa nem fim.

Pareço levitar
No meu sentir-me água
Dou comigo a balançar
Na minha alma que não tem mágoa.

E vem a mim pequeno como um deus
O relembrar da minha esperança
Que no meu envelhecer
O mundo ainda é uma criança.

Corre Pé

A todos os pequenos Deuses e ao Universo em geral.
Um Feliz Natal

ÁGUA

Tanto tempo
perdido
na contemplação
do deserto
que, sem querer,
me fiz
deserto
também.

Vou plantar uma árvore.

Guardo lembrança
e saudade
do cheiro
verde
das maçãs.

Manuel João
Dezembro, 21, 2010

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

MEDITAÇÃO de NATAL + CONCERTO COM TAÇAS TIBETANAS

SOCIEDADE PORTUGUESA DE NATURALOGIA
PELAS LEIS NATURAIS, PELA CULTURA INTEGRAL DO INDIVÍDUO
www.spn.eco-gaia.net

Quarta-feira, 22 DEZEMBRO 2010

19H - 20H30

MEDITAÇÃO ESPECIAL DE NATAL

SEGUIDA DE CONCERTO MEDITATIVO COM TAÇAS TIBETANAS

Com Paula Soveral
Meditar é muito simples, não requer esforço. É parar, escutar e deixar acontecer. Não é esvaziar a mente, é aprender a navegar no espaço entre os pensamentos.

Com a prática da meditação podemos experienciar paz, tranquilidade, a nossa beleza interior, levando-nos a re-pensar o que somos e tudo o que nos rodeia. Confere-nos a capacidade de dirigir as nossas energias para purificar o nosso corpo e mente.... e assim, podemos descobrir e desenvolver a nossa espiritualidade.

Com a prática diária, mesmo apenas alguns minutos, acaba por ser extremamente compensador e benéfico para a nossa saúde física, emocional e mental.

E lembre-se que tudo é energia e que a energia segue o pensamento...

Material recomendado: roupa confortável e meias

DESCONTOS PARA SÓCIOS


Fundada em 1912 - Instituição de Utilidade Pública
Rua do Alecrim, nº 38 - 3º, 1200-018 Lisboa Tel: 213 463 335
E-mail: spn@eco-gaia.net
Website: www.spn.eco-gaia.net
1.
Quieto e veloz:

Quando me aquieto e fico mudo

na brandura do Divino espanto

Dou por saber de Tudo

Sendo-o em Espírito Santo

Nessa ciência do Brahman

Sou o vento que vier

Os dias das velas bramando

Sonhos que querem viver


2.
Paralelas que se amam

Vão achar que é bonito

No plural que a Deus chamam

só O ser no infinito


(Eduardo Espírito Santo)

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Homenagem aos que pensam nos outros... por Manuel de Sousa


“Fluindo Absorto pelo Destino Observado…”

Navego a meio de bravas ondas…
Vou manso que nem um cordeiro
Assobio para os males espantar
Ajeito as feições para entrar na festa
Enfio-me no seio da turba de gente
Passo a pertencer ao mundo incógnito
Levo fogo na nuca que nem um vulcão
Carrego a actividade de uma fogueira acesa
Levanto a garupa durante o frenesim da corrida…

Penso em subir a íngreme subida da Torre de Babel…
Nada quero deixar para trás para alem do remorso
Trago somente comigo o pensamento complexo
Sem nexo algum na mochila que porto às costas
Vergo-me para a frente para chegar célere ao cume
Quero que se me abram as portas do Céu e da Terra
Antes mesmo que se passe a falar novas linguagens
Seja pela ambição alheia ou por interesses impróprios
Porque nao tenho intenções de alterar a verbalidade…

Troco de camisa e de clube para prosseguir viagem…
Decido ir por turvas paisagens sem côr explícita
Preparo o pincel ao longo do curso sinuoso
Insinuo-o-me em tons dúbios e animalescos
Puxo para o caminho certo a quem a mim se achega
Injecto-me misturado com a liquidez das matizes
Penetro em cada buraco e em cada físsura dos muros
Enfio-me disciplinado por entre finos buracos de agulhas
Comprometo-me em ser mais uma de entre trilhões de vidas…

…Vagueando por entre Estrelas feitas e pela fluídez da Alma
…Movendo-me umas vezes sem pressa e tambem vagarosamente
…Levando na bagagem a mente preprogramada do Destino Divino…


Escrito em Luanda, Angola, a 18 de Dezembro de 2010, por manuel de sousa, em Homenagem a todos os Sêres Celulares da Vida, e cujo motor é impulsionado pelo Plano Inteligente da Una Inteligência Cósmica, que a todo o Universo Administra e Destina e ao qual, dá ou imprime ordem sequencial e de certa forma, empresta tambem harmonia, apesar de toda uma confusa e destruidora desordem aparente, que nos dias de hoje, vamos tendo ocasião de observar através dos cada vez mais potentes e precisos Observatórios/Telescópios Celestes…

sábado, 18 de dezembro de 2010

Filosofia e Saudade

11. Teixeira de Pascoaes (1877-1952)

O autor do Saudosismo. Partindo de uma definição de Saudade, propõe uma doutrina para regeneração de Portugal a ser transmitida às novas gerações.

Portugal devia libertar-se daquilo que o oprimia: A monarquia, as visões europeístas, o catolicismo.

A Pátria de Pascoaes era uma unidade orgânica com vida própria – um corpo e uma alma. E são as características da alma que têm de dirigir o corpo. Portugal era tido como uma alma doente.

O renascer do espírito de Portugal virá sob a forma de uma nova religião que mistura Pan (Paganismo) e Cristo. O Saudosimo é um sentimento que pode desenvolver essa nova religião. Surgimento de uma nova divindade - o Deus Menino - um intermediário para a consciência plena das coisas. A Educação, a Arte, a Religião deviam ser lusitanas e não estrangeiras.

É, sobretudo, nas populações rurais, nas classes populares, onde mais se espelha a alma do país - uma alma naturalista e mística. As classes urbanas estão corrompidas.

Também as Línguas são tidas como organismos vivos. As palavras são a energia intrínseca a cada uma delas. O Verbo divino.

A Saudade é simultaneamente nacional e universal. Alma da nação e do próprio mundo. A experiência da saudade: um estado de alma latente que se tornará realidade. Assim é Portugal.

Luis Santos

Referência Bibliográfica: Síntese de Apontamentos, Aulas de Filosofia em Portugal, Prof. Paulo Borges, 2009

Direitos dos Animais e Equilíbrio Ecológico

Quarta-Feira, 22 de Dezembro, às 18h, no Anfiteatro III da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, tem lugar mais um debate sobre Direitos dos Animais e Equilíbrio Ecológico, desta vez com o Dr. Defensor de Moura. Após o debate com o Dr. Fernando Nobre, Defensor de Moura é o segundo candidato presidencial a aceitar um convite enviado a todos.

Organização da revista Cultura ENTRE Culturas com o apoio do Partido pelos Animais e pela Natureza e do Movimento Outro Portugal.

Os dois números da revista estarão à venda no evento.

Agradecemos a divulgação.

Paulo Borges

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Entrevista a Luís Guerreiro na Revista Carioca, Zé Pereira

Caros Amigos,

a revista carioca online, Zé Pereira publicou esta entrevista que eu lhe concedi: http://www.revistazepereira.com.br/um-mestre-paineleiro/ onde falo sobre música, cinema, história em quadrinhos e muito mais...

Saudações
--
Luís Cruz Guerreiro
www.azulejariaguerreiro.com

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

d´Arte – Conversas na Galeria XVI


Favela 2711 Autor António Tapadinhas
Acrílico sobre Tela 100x110cm
(clique sobre a imagem)

No espaço de tempo em que concluí Favela 1511 e Favela 2711, a situação tornou-se explosiva nas favelas do Rio de Janeiro.
Leio no DN:
Dezenas de tanques cercaram o Complexo do Alemão, na região norte do Rio de Janeiro, na véspera da derradeira investida militar, ontem, na área. Madrugada de vigília. Medo e psicologia de guerra. De um lado, moradores da comunidade em pânico, resguardados em casa. De outro, criminosos escondidos e armados a engendrar uma forma de fintar o cerco policial de 2600 homens: polícia militar, civil, federal e soldados do Exército e da Marinha, contra o Comando Vermelho, a maior facção criminosa do Rio. Desde domingo são 38 mortos e 80 veículos queimados.
Leio mensagens de apoio a esta acção.
Leio de Marcello Salles, jornalista:
O povo brasileiro não deve se deixar iludir pela operação casada entre governo do Rio e corporações de mídia. Não se pode vencer o tráfico de drogas nas favelas, nem com tanques de guerra, nem mesmo com bombas atômicas. Por um motivo muito simples: os donos do negócio não estão lá.
Leio mensagens de apoio a esta crónica.
Leio que o filme português, “Complexo – Universo Paralelo”, rodado no Complexo do Alemão, foi vencedor na categoria, Melhor Filme Internacional Direitos Humanos, do Artivist Film Festival, em Hollywood, Los Angeles.
Leio que, Diaky Diaz, fundador e produtor executivo do festival, afirmou que "com a urbanização a aumentar em todo o globo, mais e mais pessoas vivem em grandes guetos. Filmes como este permitem-nos realmente olhar para essas zonas com compaixão e forçar-nos a reflectir sobre o que podemos fazer para tornar melhor a vida dos nossos semelhantes".
É um óptimo destino para uma obra de arte: ajudar a reflectir!
Eu procuro fazê-lo com as minhas obras! Não é por acaso que esta tem como cores dominantes as da bandeira do Brasil!

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Reflexões de um embaixador sobre o Brasil

Num artigo publicado no Jornal de Letras, nº 1048 , o antigo Cônsul-Geral no Rio de Janeiro e atual Embaixador de Portugal na Índia,poeta e ficcionista, Luís Filipe Castro Mendes, escreveu sob o título "Lendo Ruy Duarte de Carvalho", reflexões que considero de interesse partilhar com vocês.

Reflete Castro Mendes: Lendo " Desmedida", o excelente livro de viagens de Ruy Duarte de Carvalho pelo Brasil, vejo como um angolano sente exatamente o que eu senti como português face àquela permanente "fábrica de inédito"(na expressão dele) que é o Brasil: eu só entendi bem o que era ser português(e, pelo o que ele diz, o Ruy só entendeu completamente o que era ser angolano) depois de ter vivido a experiência do Brasil.'

E Luís Castro Mendes continua: 'O Brasil é a nossa desmedida.. O Agostinho da Silva tem a clássica fórmula "o brasileiro é o português à solta".Eu penso que esta imagem produzida por Ruy do Brasil como " fábrica de inédito" é ainda melhor e mais generalizante.

Concluindo, Castro Mendes lembra: 'Reparem o que o Brasil faz dos imigrantes de todas as etnias. E reparem na complexidade do processo de branqueamento, que está a ser agora deturpado com ações afirmativas copiadas dos americanos. Não que não haja injustiças no Brasil em relação aos negros que tem urgentemente de ser corrigidas, mas acontece que o Brasil não tem nada que ver com os Estados Unidos.'

Estas reflexões de Luís Castro Mendes ajudam-nos a compreender as diferenças e afinidades entre brasileiros, angolanos e portugueses. Compreender o olhar do "outro".

Margarida Castro

terça-feira, 14 de dezembro de 2010